quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

No princípio...


No princípio o pouco era tudo e não era nada.
Os dedos entrelaçados 
falavam uns com os outros inventando segredos

Os olhares trocados 
proferiam desejos mudos, 
sussurravam do sol e do tempo
As bocas, sequiosas beijavam-se a medo, 
largavam sorrisos, suspiravam ais

E as mãos, sôfregas e a receio, 
afagavam os corpos tapados.
Palpavam-se, esfregavam-se tementes 
e diziam as gentes: que isso era amor.

Com o tempo esse amor brando 
enredou-se, complicou-se, teve um fim
Nunca fora mais que um ténue raio de sol 
num dia de Inverno e só isso.
Vivia suspenso, preso a algo,
 por um simples clip e soltou-se.

Agora todos falam, gritam e declaram:
 “quero-te”, “amo-te”, “desejo-te”
dizem isto e com isso acham-se completos, 
perfeitos e fazem sexo de todo o jeito,
embrulham-se em qualquer canto, 
no lodo de um desejo brusco

Jogam sujo, dizem amar-se,
lutam com os corpos a algo que os leva a um fim deserto,
um escasso ápice de prazer volúvel 
a que não chamo amor,
mas fim de nada e de tudo.


Para mim amor é mais que vida,
é amar-te e tu a mim, perdidamente,
com um amor que faz suar até à alma, 
molhar a cama, fazer do leito vida,
e dos suspiros e ais, 
criar uma fonte inesgotável de alento.

Com o meu corpo cingido ao teu, unidos na carne e no espírito
colados até ao infinito,   
numa pele que não é minha nem tua, mas nossa, 
sermos um só corpo em chama.
Sentir nesse enleio, 
o teu corpo flutuar no meu e nele permanecer e tu em mim  
O nosso coração, o mesmo, 
com um bater próprio, num compasso marcado,
apaixonado e louco, 
muito mais que amante, ser um Deus celeste.


E depois de os nossos corpos vibrarem cansados, 
gritarem e gemerem: juntos serem.
Existirmos e ficarmos esquecidos, sempre, 
do mundo que fora de nós é nada.

No amor que eu creio, 
dá-se e recebe-se tudo 
e só se existe naquele puro instante.


domingo, 24 de fevereiro de 2013

O meu OUTONO!




O tempo demora a passar,
mas passando, passa de repente.
Hoje é o que penso do tempo.

Viu-os crescer lentamente,
mas agora que reparo,
foi de um pulo que se fizeram gente livre e solta,
gente independente.
Fiquei parada no tempo que levei para os criar
Parecia que o tempo não queria andar,
que não queria avançar para a frente,
que não acontecia nada diferente
para eu os ver depressa fortes e adultos,
livres e soltos e como um vento
vê-los livres a voar, felizes e soltos no mundo


Agora, olhando para trás, reparo que foi um instante,
que tudo se passou num repente
Eles cresceram e sem eu dar conta 
são gente crescida, adulta, 
educada e diferente dos bebés, 
depois meninos crianças 
que trouxe comigo pela mão tanto, tanto tempo 

Tudo parece um conto lindo, distante e tão longínquo
que parecendo ter sido ontem, 
já nem lhe vejo o conteúdo, a cor nem o brilho,
difícil de enumerar, 
tanto assim, que me canso só de pensar

Aconteceu tanta coisa, 
tanta história que recordo
Umas mais apagadas da memória,
outras presentes, frágeis, magoadas 
esquecidas mas vividas
Umas gratas e perfeitas
outras mais tristes, sofridas
mas todas com alma, vividas


Vida, que eu vivi mas esqueci 
a vê-los a andar p`ra frente
Histórias que de facto não consigo recordar
Pela intensidade e lonjura, 
pelo carinho, por tudo
Que tudo junto, foi a minha, a nossa vida 

Ir à escola em meninos, ir aprender a nadar,
saber  ler e contar histórias, aprender a cozinhar.
Saber arrumar o quarto e depois poder brincar,
fazer jogos de caixinhas, desenhar, correr, pular
andar de bicicleta, jogar à bola
viajar sós e estudar
andar em transportes públicos
fazer amigos, ser fiel e verdadeiro
ir de avião à Europa, a Cuba e até à América
Aprender música por gosto e aprender a namorar
Fazer férias com a família, com os amigos acampar
Tanta, tanta coisa que não consigo enumerar….
Estudar, 
tirar o curso, 
arranjar emprego 
sair de casa e voar.....


O tempo passou
mas a mim, parece-me que tudo foi ontem
que nem os vi  esvoaçar.
Porque o tempo não passou, 
voou,
eu é que fiquei sentada, parada, 
pasmada  a olhar,
a vê-los voar, voar....

Tenho saudades deles, 
de como era esse tempo
Deles, da minha força, 
do meu outro eu de ontem
de mim mais esperta e atenta,
pois mesmo com medos eu sei que era outra
mesmo assustada, 
mais nova eu era ousada, fazia e acontecia
Agora tenho horas e dias que nada faço
que não valho mais que isso mesmo,
nada.
Só vejo o tempo passar…a voar, voar…
E eu aqui, 
a ver o entardecer chegar.





sábado, 23 de fevereiro de 2013

Estou NUA !




Ninguém imagina o que me vai por dentro.
Algo em mim, que nunca esteve bem,
sinto e sei agora que findou, 
que morreu de repente e para sempre
deixando-me diferente.


Sinto-me vazia, 
imprestável, cansada e velha, mais nada.
Agora não presto, não valho mais que um trapo
e ainda há diga, 
que afirme convicto,
quem se atreva a dizer que sou valente,
que tenho força, que mais isto e aquilo.
Tudo mentira, mentira.

Valente como, se não tenho forças?
Não tenho vontades?
Se nada tenho comigo além de um vazio imenso
que me penetrou inteira, 
entrou por mim adentro
se instalou em mim 
e parece que jurou ficar em mim para sempre.


Sinto vontade de algo, mas nem sei bem do quê.
Fugir, andar sem parar,
fazer algo que me dê algo, que me tire desta fossa
me dê coragem e alento,
me faça sorrir ao olhar para dentro de mim
me faça  sentir que ainda vale a pena estar por aqui
que ainda é tempo de tudo
que mesmo chorando e penando
os sorrisos que são passageiros, vão e voltam de vez em quando
também hão-de voltar para mim
num dia qualquer
talvez numa noite de luar, 
talvez de Lua cheia,
mas voltar para ficar.

Agora não sei que fazer.
Agora estou oca, vazia,
tenho medo de tudo.
Tenho medo de mim,
porque me sinto nua.

Fotos do Google

PRECISO DE TI!


Sento-me ao teu lado,
sinto a tua presença
Preciso de ti,
mas não me olhes, que eu adivinho-te
Basta que me faças aquilo
que sem pedir, sei que adivinhas o meu desejo
Faz-me companhia, 
dá-me força  e eu respiro melhor.
Dá-me a tua mão e fica assim
preso e tranquilo em mim
Quieto e  em silêncio
fica assim segundos ou para sempre,
mas fica comigo
que sem ti, paro, estagno,
tenho medo de andar para a frente.


As nossas palavras estão gastas,
estão todas ditas
Os nossos ouvidos surdos
e os nossos corpos inquietos
precisam de calma absoluta
Tudo em nós agora precisa estar quieto
sentir em paz, apenas a presença um do outro
no cheiro que é meu e teu
que é único e só nosso.

Fica comigo,
não me deixes mais inquieta ainda.



Fotos do Google

Encosto-me a ti...e GOSTO!


Encosto-me a ti 
buscando calor e conforto
Procuro em ti a protecção e afago
que ninguém mais me dá,
que eu preciso e não tenho.

Encosto-me a ti e como um gato, enrolo-me e assim fico,
porque tenho frio e busco em ti aconchego, 
afagos doces, 
tudo que é tens em ti e é meu.



Tenho frio, não só no corpo
Estou esquecida, não só na mente
Tenho fome, não só da boca
Tenho medo, mas não da noite
Tenho tudo e tanta coisa
mas tudo que tenho é carência e falta
Tenho tudo e deste tudo, não tenho tanto nem muito.
Tenho pouco ou  quase nada.

Se não me encostar a ti
Se não deres ao meu corpo o calor que necessito
o alento que hoje me falta 
e que já vem de ontem,
sei que aos poucos morrerei, 
de sede, de fome, da solidão do amor
 de sofrer por estar só


Nem sabes quanto me custa pedir-te amor
Amor não se pede, 
dá-se como eu te dou tudo o que tenho.
Mas eu de ti queria mais
Queria ter-te sempre comigo
presa a mim como se fosses eu própria
E isso tu não me dás,
 porque não podes, eu sei, 
e assim morro aos poucos,
aos poucos...
Fotos do Google

O nosso amor de ontem igual ao de hoje!




As minhas mãos estão secas,
velhas, tristes e engelhadas,
mas procuram como antes afagar-te com ternura

Dos meus olhos foi-se o sorriso que sempre busquei para ti,
que sonhei um dia ter inteiro para te dar,
que me fugiu, nem sei porquê,
mas mesmo assim, ainda hoje te olho com encanto
e descubro-te fascinada,mais que ontem,
agora mais terno e companheiro, 
mais presente, mais tudo em mim. 
E eu gosto assim.

As minhas pernas flácidas, densas, feias e cansadas
já não te dão prazer, não as encontras belas, eu sei,
não sentes mais por elas o fascínio de outrora,
o prazer que sentias quando as afagavas.

O tempo passou para nós e tudo mudou
Mas é com elas que caminho cada dia 
para te ver para te ter comigo, para te encontrar



Dos meus lábios já não cai a água que sorvias, sôfrego de prazer
quando apaixonado te embrulhavas  em mim
e nas tardes quentes de domingo ou de sábado 
me amavas e eu em ti ficava alegre 
ou algumas, não poucas vezes, eu ficava menos consolada

E quando me amavas e de prazer intenso gemias e suavas
e eu ondulava em ti na busca de algo prometido
que por vezes, tu sabes bem, eu  encontrava, outras não,
mas era bom. E tu e eu assim ficávamos, sorrindo calados  
Era o nosso amor que assim falava.

Os meus lábios estão secos, mirrados, eu sei.
Mas macios e enamorados 
procuram  ainda nos teus o mesmo consolo
o carinho e afago, que tu sabes, tens nos teus que sei macios, doces
e muito encanto ainda para me dar                             

Amavas-me e eu a ti e depois rias cansado desse gozo infindo
e feliz adormecias encostado ao travesseiro,
preso a mim, como se o infinito e o céu fossem ali,
como se a morte pudesse chegar que tu contente nem te importasses de partir,
porque tudo de bom tinha acontecido e tu eras completo assim.



Eu era mais bela, tinha outra força, outra genica
Tu eras um homem novo, um discreto enamorado,
pouco esforçado no amor que eu te pedia e tu me devias dar
um tonto derretido que eu amava e amo,
que eu sei bem, também me amavas
e eu fui perdoando e esperando
pelo prazer que eu procurava em ti,
tal como o que tu tinhas em mim
que  eu consentia me roubasses e eu te dava
mesmo que na troca não me desses nada a mim.

Preso a mim, encostado no enlevo que esse nosso amor
meu e teu, te dava e pouco me dava a mim,
mas nunca desisti de encontar em ti
tu eras feliz, eu talvez não tanto,
mas éramos nesses instantes: um só
e juntos nesse amor mal feito, louco,
apaixonados, caminhamos juntos e unidos até hoje,
até amanhã ainda
e para sempre, lado a lado



Hoje prevalece em mim a saudade infinda desse amor insensato,
intenso e magoado, 
amor que me fez chorar, mas lindo,
que desejei sempre intensamente
muito mais meu e todo teu , 
mas inteiramente nosso,
O amor que retenho ainda e para sempre
nas minhas melhores lembranças,
enquanto eu viver e junto de ti for gente.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Eu e o que eu escrevo.



OS MEUS LIVROS, 
NELES ESCRITAS AS PALAVRAS QUE A ALMA ME DITA, 
CONTANDO HISTÓRIAS DE VIDA,
ONDE ME ENCONTRO ME SINTO E VIVO.






ESTE LIVRO, um romance com 400 páginas custa 14 euros, com os portes de CTT incluídos.

Envie-me o seu pedido para rosabalhau@spo.pt


 Este, já em 2º EDIÇÃO, é um romance de  280 páginas e custa com os portes de CTT incluídos 14 euros

 Não deixe de me contactar. Obrigada

E ASSIM AQUI DEIXO O PREFÁCIO  DE "AQUI VAI O LENÇO", SÓ PARA ABRIR O APETITE AO LEITOR


PREFÁCIO

Nenhuma escrita conhece fronteiras temáticas ou estruturais, por isso constituirá sempre um exercício de liberdade, de interpretação e criação. Sabemos hoje que, do ponto de vista teórico, o acto de escrever inclui sempre uma componente de acção sobre o próprio processo em si mas, também, sobre o contexto em que alguém escreve.
"Aqui vai o lenço" é um texto que nos chama, em privado, segredando-nos mais sobre o contexto do que sobre o processo. E a razão é tão simples, quanto óbvia. A linguagem faculta-nos modos distintos de representação do mundo e do conhecimento que temos dele, e toda a vez que escrevemos, cumprimos uma plêiade de funções distintas mas sempre coordenadas. Assim, todo o processo de escrita origina um produto mais ou menos autónomo, distante ou próximo de quem o escreveu e nele permanece o que foi escrito ou o que foi vivido. Ou ambas as coisas.
Ora, quando escrevemos, estamos sempre a conquistar um poder específico que é o da representação, das funções de registo de vivências ou de fantasias, de expressão e ou de organização de factos, de realidades ou de sonhos e, sempre que escrevemos, estão envolvidos inúmeros factores sociais, emotivos, cognitivos ou pessoais. Deste modo, a escrita é sempre um convite a outras escritas. E, claro, a outras leituras.
Estas breves e despretensiosas considerações, de superficial afloramento teórico vêm a propósito do texto que aqui se prefacia. Na verdade, o livro que o leitor tem na sua frente não é uma história. É um conjunto de relatos, cronologicamente urdidos por um fio peculiar de vivências. Esta característica confere, pois, ao enunciado um estatuto de representação de uma vida, embora ela possa não ser linearmente biográfica. Esta pretensa linha narrativa de factos parece ensinar-nos a ler com maior precisão a especificidade tipológica deste texto, a sua estrutura, e o seu conteúdo. E, claro, formata os modos como lemos estes trechos, sujeitos que estão a regras próprias.

Assim, estas narrativas singela e despretensiosamente redigidas, fazendo uso de uma linguagem simples e desprovida de artifícios estilísticos, despidas de ornamentos retóricos, imagens originais e rebuscadas, constituem um retrato linguístico de fragmentos existenciais. A riqueza do enunciado também não se deve procurar na profusão estrutural ou técnica do texto, pois em nenhum momento há eco de manifestações que acusem um domínio técnico-narrativo singular. Mais uma vez, a simplicidade arquitectónica do enunciado espelha a sua transparência e linearidade discursiva.
Todo o livro é um signo, exactamente por aquilo que mostra.
E o que nos revela é, sobretudo, autenticidade, clareza e uma paleta emocional diversificada que vai da lágrima ao riso, da tristeza à euforia, da desilusão à esperança. Trata-se, afinal, dos ingredientes que compõem os dias da protagonista. E este é, indubitavelmente, um texto com protagonismo.
Isabel é essa mulher, nascida de uma família humilde, no início dos anos cinquenta, filha segunda de um casal socialmente modesto e profundamente arreigado aos valores culturais de uma sociedade tradicionalista e conservadora.
Assim, as partes que constituem este livro, são pedaços da vida de Isabel, evocados às memórias de um passado onde a felicidade se cruzou, não raras vezes, com a solidão e a tristeza.
Curiosamente, ao longo de todas as histórias, a narradora tenta distanciar-se delas pelo uso gramatical de uma terceira pessoa do singular, criando um claro efeito de afastamento narrativo. Este dispositivo, de propósitos emocionais, deixa ao leitor mais atento, a sensação imediata que, oculta na sombra da protagonista Isabel, há uma possível narrativa de primeira pessoa. Essas dúvidas passam para o leitor não apenas através do entretecer das histórias, da presença constante das memórias mas, sobretudo, pelo tom omnisciente, comovido e emocional que Isabel deixa transparecer nas páginas de alguns dos episódios que relata.
É o que acontece, por exemplo, no reconto dorido da "Boneca de Trapos", ou em "As Primas", "A Avó Teresa" ou mesmo em "O saco de Nozes", apenas para enumerar alguns dos primeiros exemplos.
Este jogo de ocultação de identidade deixa-nos entrever, claramente, a narradora como um possível objecto da ficção, e este procedimento está presente ao longo de todo o texto, não apenas na fase da infância de Isabel que, enquanto menina experiencia vivências como a ida à escola, a comunhão, as doenças de infância, mas também a acompanha enquanto adolescente, no comboio, na primeira ida a uma discoteca, à entrada para o liceu ou, mais tarde, para a Universidade. Este véu de encobrimento está ainda patente, de modo contínuo, nos momentos que inauguram o primeiro beijo, ou na descoberta da sua sexualidade, concretizada sob a almofada protectora de uma conjugalidade que a retira, finalmente, de casa dos seus pais.
Esta Isabel, já menos menina e mais moça, é aquela que, pelo seu olhar, nos traz também alguns episódios histórico-sociais, como a revolução dos cravos ou a convulsão estudantil que inflama a universidade mas pela qual passa, incólume e quase estranha. Nesta precisão de algumas vivências históricas estão, pois, inscritos, muitos dos momentos pessoais e familiares que constituem o motivo de todos os episódios que este livro congrega.
É por essa razão que, ao longo de toda a narrativa, são mapeadas algumas figuras tutelares, com distinto peso e estatuto nas emoções e na vida de Isabel. São, sobretudo, o pai, a mãe, o irmão, a avó e, mais tarde, Pedro, o marido.
Cada uma delas, de diferente modo, cataliza emocionalmente a protagonista e com ela interagem num complexo xadrez sentimental que a podem fazer oscilar entre a raiva, o amor, a compaixão, a admiração ou a pena.
A figura paterna, por exemplo, emerge como uma personagem prototípica que sintetiza e integra o lado protector mas, também, o rasgo de crueldade castradora própria do chefe-de-família, prepotente e déspota, capaz de um gesto grandioso de ternura mas igualmente da atitude mais primária e violenta. Este é, aliás, um dos aspectos que se destaca nestas narrativas: a existência síncrona de episódios de relevo emocional distinto. Todos eles espelham a vida de Isabel, ansiosa por se libertar do jugo paterno e, à semelhança de muitas raparigas desse mesmo tempo e círculo social, ávida de entregar ao marido a sua vida, destino e coração.
De modo consequente, ou não, há várias reminiscências (por vezes explícitas) a Corin Tellado, musa inspiradora de uma época e de um estilo literário que marcaram várias gerações de mulheres e que, certamente, a par das radionovelas tão populares nessa época, terão manipulado os modos de assunção do amor e do erotismo, o conhecimento do mundo e sobretudo da paixão. Este manto de influências não se estendeu apenas a Isabel mas a todas as raparigas que se reviam e se inspiravam, sonhadoras, nas histórias de Tellado, narrativas onde o triunfo do amor constituía a garantia de felicidades e de paixões perenes.
Do ponto de vista semântico é possível identificar nestas histórias uma determinada dinâmica circular que advém deste facto: A personagem Isabel passa toda a sua vida a escutar os afectos e a perscrutar, atenta, os modos como era amada. Na realidade, a segunda narrativa que abre este livro de histórias, "O casamento" estabelece uma ponte dialogal com "O dia do casamento", quase a encerrar o volume.
Assim, o leitor deve procurar a chave interpretativa destes episódios neste arco temporal de duas décadas. É precisamente aí que reside a essência de Isabel, os desafios, desilusões, a constante sensação de rejeição, perda ou desamor que a deixam incapaz de se situar no mapa dos afectos familiares.
Acreditamos, todavia, que a personagem Isabel não completa todo o seu percurso de vivências e deixa entreaberta, de modo muito claro, uma porta narrativa na parte final do texto.
De facto, se lermos atentamente "A lua de mel", no momento em que, de mãos dadas com Pedro, "desistiu de olhar para trás" (p.276). Já não via o pai e a mãe não tinha aparecido, Isabel fecha um ciclo vivencial que, desde muito nova ansiava por ultrapassar.
Todavia, esta nova etapa é atravessada, em simultâneo, pela esperança mas também pelas incertezas, e como refere: "A Verdade é que ambos estavam ali, sem saber muito bem o que fazer". A iniciação amorosa da protagonista não é auspiciosa e deixa-a oscilante entre a esperança e a frustração. Por esse motivo, confessa-se "desiludida e confusa" (p.279), e a nova fase de vida que inicia, simbolicamente, na Falésia - lugar feliz de um imaginário passado - é, também, uma promessa de um futuro condescendente para com as tristezas e capaz de a conduzir à felicidade. Por isso Isabel refere, quase a fechar estes relatos, que espera "conseguir superar todas as dificuldades" (p.281) e sentir-se gente e ser feliz.
Terá esta felicidade sido construída com a maresia das lágrimas, com a timidez dos sorrisos ou com a subtileza das cumplicidades?
Ora, estas questões presentes nas últimas páginas conseguem projectar uma narrativa aberta. Essa (necessária) continuidade possibilitará ao leitor perceber de que modo Isabel cresceu e como superou a aparente solidão a que esteve votada, e de que forma lidou com a incómoda sensação de que era liminarmente excluída das rodas de jogo, das amizades, e do lenço que nunca lhe caía aos pés...
Este princípio de circularidade narrativa, de renovação e de reabertura de novos ciclos de vida é, estamos em crer, uma promessa oculta de novas estórias.
"Aqui fica o lenço" é, por isso, um texto sobre o triunfo de vida pessoal que Isabel oferece ao leitor e, apesar de confessar que o lenço lhe caiu aos pés, ele voará "ainda não sabe para onde". Desta incerteza de que são feitas as histórias, são igualmente fabricados os sonhos de uma vida, os momentos onde se inscrevem as memórias e os factos que os enformam.
É esta substância narrativa, genuinamente telúrica e simples, destes sentimentos ora adultos, ora pueris, ora oníricos, ora reais, que os olhos do leitor, apreendem. São estes episódios que nos deixam observar uma constelação íntima de sentimentos distintos e uma turbulência emocional cujo epicentro são as realidades vividas por Isabel.
Isento de artifícios técnico-literários e impossível de o inscrevermos numa cartografia narrativa e canónica, este conjunto de relatos oferece-nos, com assinalável transparência ex corde, a autenticidade humana de uma vida, as inseguranças juvenis de uma mulher sonhadora mas ambiciosa, a indízivel esperança que deposita na redenção do Amor e na conjugalidade cúmplice.
São, pois, estes os tons de luz e de sombra que iluminam as estórias de um lenço que ia e vinha e tardava em ficar junto a si mas que, um dia, finalmente lhe calhou. Onde este romance de uma vida termina, começam agora as perguntas do atento leitor: Ao longo dos jogos da vida de Isabel, terá raramente ficado esse lenço a seus pés…?





Pedro Balaus Custódio
Fevereiro 2011



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Amigos de Verdade!




   Uma carta que recebi de um amigo, 
muito querido e especial, 
   palavras, que nem sei se mereço.

   As suas palavras encheram-me a alma e deram-me alento.  

   Coloco-a aqui, porque a quero partilhar com o mundo, 
com os que sofrem e se lamentam. 
   Dentro de cada um de nós há sempre algo diferente que nos dá força e empurrava para  a frente.
   Algo que, muitas vezes nem conhecemos, 
nos é estranho mas existe, faz de nós gente 
mas sempre gente  diferente.

   Nunca desistam de lutar e vivam:)




Rosa, 
obrigado pelas notícias que me envia. Deus vai ajudá-lo porque Ele não abandona quem é bom.
Admiro-a muito. Pela sua coragem, determinação, e pela sua força.
Eu não teria nem um décimo...
A Rosa faz parte das tais mulheres singulares, que são cada vez menos. E das mulheres que sabem amar.
Compreendo a sua angústia, a sua dor, mas estou certo de que o triunfo sobre todo o mal está conseguido.
Não sei como consegue escrever, mesmo em situações de profundo stress e desespero. Essa é mais uma prova da sua força.
Eu, por exemplo, emudeço. Sou todo lágrimas, marulhares de silêncio, pálidas ausências....
(Ainda que por outras razões, é assim que os meus dias têm sido. Todos nós estamos sempre à espera que o lenço nos caia aos pés.
Mas às vezes... voa para longe, para as mãos de outrém...)
Minha amiga, um grande beijo; muita fé, e um grande abraço ao Tó

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Eras... e eu gostei!



Pensei que voltando tu de novo à tua vida
tudo tinha melhorado.
Para ti sim, 
tudo progrediu e ainda bem
Tornaste de novo ao teu ritual normal.

Fiquei, estou feliz por ti,
mas estranhamente é por ti que estou triste
e a vontade que tenho de chorar 
e me chega agora
é por estar de novo só,

A casa está mais fria, 
não oiço passos, os teus.
Ao almoço, 
o barulho dos talhares no prato ecoaram como nunca
falando-me demais da tua ausência
e eu não gostei disso.


Desculpa, é o que sinto.
Preciso sempre de ti perto de mim,
tu sabes disso.
E o almoço sem ti à mesa é um deserto
Ontem e os outros dias atrás, 
eras presente

Agora, tenho que esperar que o dia se finde,
que a noite chegue lentamente
que chegues também tu à minha beira

Quando eras presente, 
apesar de tudo,
eu gostava disso.
Perdoa dizer-to, pois estavas doente, 
mas é o que sinto



Assim, 
sem te ter comigo,
fico doente de tristeza,
sinto e sei 
que envelheço 
mais depressa.


Eras, 
e eu gostei.