segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O novo lar

O voo de regresso foi mais cansativo que o da ida, e ao aterrarem em Madrid, Camila já estava farta daquela viagem que lhe parecia nunca mais ter fim. Voaram em seguida até Zaragoza e depois de carro chegaram até á que seria de futuro o novo lar de Camila e de Alberto, uma vivenda numa quinta na zona de Logroño, que se forma às margens do rio Ebro.

Esta é a capital financeira e comercial de La Rioja, cuja economia é fortemente dependente do vinho. Uma cidade alegre, hospitaleira e amigável. Ainda que o seu clima seja um tanto oscilante indo de temperaturas negativas no Inverno, a temperaturas altas  no Verão.

Ao chegar a Logroño, pelas ruas que percorreu de carro, Camila notou que a cidade tinha prédios novos e modernos, misturados com outros históricos, o que lhe dava um certo charme. Pelo caminho conseguiu observar algumas praças, uma delas parecendo mais um parque cheio de vegetação próprio para caminhadas e quem sabe relaxar. Ficou a saber, porque Alberto lhe disse, que a cidade era famosa pelas mais de 50 taperías (restaurantes de tapas) existentes no centro da cidade. E mais não viu, pois não iria ficar a viver nesta cidade, mas um pouco arredada dela. Foi com alguma pena  que Camila viu esta cidade ficar para trás.

Pararam à entrada de uma quinta numa zona pouco habitacional, de onde se avistavam ao longe vinhedos a perder de vista.
O espaço exterior era bonito, bem cuidado, bem ajardinado, com muitas árvores e recantos floridos, mas naquele momento Camila só queria entrar na sua casa, poisar as malas e depois de olhar o que seria a sua futura casa, tomar um bom banho e descançar. Finalmente com Alberto gostaria de ver tudo detalhadamente para ficar a conhecer bem toda a casa em pormenor.

Ao entrar na casa, que por fora lhe pareceu meio apalaçada, o primeiro olhar que lançou dentro foi de pura decepção. A casa estava decorada com um estilo clássico, muito pesado para ela, aliás, a impressão que dava é que ninguém tinha alterado nada ali, de há muitos anos até aquela altura.  Teriam  limpo o pó, deixando ficar todos os vestígios do passado. Ela não queria viver numa casa com um ar tão austero,  que nada tinha a ver com a sua maneira de ser. Alberto tinha-lhe dito que podia alterar o que quisesse, mas ali teria que alterar tudo, desde os cortinados até à cama que era de um estilo que ela desconhecia.
Camila não se conteve:
-Alberto esta casa é muito bonita, mas não para mim, para nós, a mobília é muito clássica, muito pesada, torna a casa muito escura, não me vou sentir bem aqui dentro, vai-me deprimir, e penso que um dia os nossos filhos também não. Gostava tanto de ter uma casa moderna, ampla onde o sol entrasse, e tudo ficasse muito alegre e iluminado, logo desde o rair do dia.

-Meu amor, esta casa é linda, e  era da minha avó, mas far-te-ei a vontade, como te prometi. Dirás que móveis queres mudar, serão retirados e escolherás outros para o seu lugar, e esses serão arrumados, para o futuro. Andaram a arrumar tudo da melhor forma, mas se as quiseres de outro jeito estás á vontade, só não poderás mexer naquela divisão que era a biblioteca e escritório do meu avô e está fechada. Não tem interesse nenhum. Ouviste? lá não precisa entrar.

Este pormenor intrigou Camila, mas na altura não ligou mais importância a esta questão.

A vontade de Camila era fugir dali para bem longe, distanciar-se daquela casa velha que lhe cheirava a mofo, lhe dava vómitos e a enjoava, e ir morar com Alberto para um andar moderno para  Logoño, mas isso estava fora de questão.
Aquela casa até podia ser uma construção antiga muito valiosa, mas era muito clássica, toda decorada de objectos antiquados, que lhe faziam lembrar a casa de velharias da mãe. Sem querer, estaria sempre a pensar nela, e a vê-la ali estando longe, e isso ia doer-lhe muito, aumentando-lhe as saudades, além de que não era apreciadora daquele tipo de objectos para conviver com eles diáriamente na sua casa. A casa dela não podia ser uma montra de velharias. Parece que tinha recuado no tempo e isso não era o que tinha imaginado para o seu futuro. Tinha que convencer Alberto a ir morar noutro local, se é que alguma vez o iria conseguir. Estava habituada a viver na cidade, e passar a viver naquele sítio, seria só de o imaginar, um tormento, quase uma doença.

Precisava muito falar com Reina, desabafar com ela, pedir-lhe a opinião sobre o que lhe tinha acontecido. Precisava contar-lhe que amava Alberto, que não o queria perder, mas começava a ter medo dele, pois ele tinha sido violento com ela, e isso nunca lhe tinha passado pela cabeça ser possível acontecer.

No jantar de recepção e boas vindas, oferecido pelos pais dos noivos  à sua chegada, estiveram  também presentes os padrinhos de Alberto e Camila. Depois de narrada quase toda a viagem feita pelo Brasil durante o jantar que decorreu animadamente, a certa altura Camila não se sentiu bem. Muito enjoada, mas sem o dizer, alegando imenso cansaço, pediu autorização para se levantar. Todos os presentes incluindo o marido, entenderam que a viagem fora demasiado longa e concluíram que ela podia e devia  retirar-se.

Alberto chegou ao quarto um pouco mais tarde, quando depois de se arranjar Camila se preparava para se deitar, portanto não dera conta da sessão de vómitos que ela tivera mal chegou ao quarto. Todo o jantar tinha vindo parar à rua. Valeu-lhe chegar a tempo à casa de banho, assim ninguém ficou a saber de nada, mas já havia alguns dias que sentia aquele mau estar constante.
Camila desconfiava o que seria, mas  queria ter a certeza para fazer uma surpresa ao marido, no entanto esse era um desejo que não sabia se queria para já.

Camila tinha um marido apaixonado, sedutor,  quem sabe com muitos defeitos escondidos, mas até ali louco por ela. Vê-la assim naquele quarto, em roupa intima, foi o suficiente para se aproximar e começar como era seu hábito por um abraço a envolve-la, e depois com mil caricias e beijos, e tantas meiguices, que Camila perdeu o controlo de tudo e deixando-se cingir naquele doce enlevo, se perdeu de amor como se aquele fosse o ultimo dia da sua vida. Bastava uma mão de Alberto tocar o seu corpo, que ela tremia, e se ele continuasse, a cada toque ela desejava outro, e esse toque fazia-a nesse momento esquecer aquele outro na sua face, mas era só nesse instante. Camila, fora estes momentos que se perdia nos braços fogosos de Alberto nunca mais esqueçeu aquela cena em Angra e seria dificil esquece-la tão fácilmente.

Será que Camila resistiria ao tempo naquela casa velha?

Para a ajudar Camila ia pedir ajuda de Reina.

Nesse dia antes de dormir, já Alberto dormia profundamente, pela primeira vez  antes dela, Camila  telefonou à mãe. Tinha saudades de Pia. Nas férias tinha falado duas vezes com ela, só para mandar beijinhos e Pia dizia-lhe sempre o mesmo"estou bem, não te preocupes, diverte-te", apesar de Camila sentir que avoz da mãe já não era a mesma de outrora. Naquela hora apesar de ainda à pouco Alberto a ter coberto de caricias, algo nela  estava imcompleto.
Precisava ouvir a voz da mãe. Se pudesse naquela hora o que lhe saberia melhor era falar com ela, pousar a sua cabeça no seu regaço contar-lhe os seus problemas, e sentir os afagos que a mãe lhe costumava fazer no seu cabelo, quando era mais miúda. Mas nunca contaria à mãe o que se passava com ela, não iria preocupá-la  com os seus problemas.

 Quando conversava com a mãe, sentia sempre que existia entre elas uma grande cumplicidade, parecia que se reconheciam pela voz, que se  conheciam pela entoação das palavras.
Teria que disfarçar a voz, colocar uma voz doce, dizer que tudo estava bem, que em breve juntamente com o Alberto iriam visitá-la, mas primeiro estava a tentar convencer Reina a visitá-la no Norte.
Estavam ambas bem de saúde, deram-se os beijos do costume e as boas-noites, foi o que Camila, concluiu.
Agora Camila iria dormir mais tranquila.


Nunca iria preocupar a mãe com os seus problemas, a ela que tanto amava e a prevenira da sua precipitação, isso era ponto assente.



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domingo, 28 de novembro de 2010

Porquê?

Desde criança sonhara conhecer aquelas terras, aquele país, também conhecido por Terra de Vera Cruz, como lhe chamam os Portugueses, onde as pessoas se sentem livres e soltas, passeiam de chinelo no pé, têm um sorriso aberto, parecendo sempre contentes com a vida, mesmo quando tudo corre mal, com um sotaque que lhe dava prazer ouvir. O ar têm um cheiro a terra  quente e húmida, muito diferente do cheiro seu país.
 Mal desceu do avião e sentiu esse ar no rosto, adorou-o. Era a  viagem ao Brasil, país tão bem escrito por Jorge Amado e  tao bem cantado por tantos cantores famosos, como Vinicius de Morais, Elis Regina, Caetano Veloso e tantos outros. Estava a viver o sonho da sua vida, com o seu amor.

O roteiro estava delineado, e ao começar pelo Rio de Janeiro, não deixaram nada por ver, Niterói, estádio de Maracanã (que lhes mereceu uma visita pelo mítico jogador Pelé), Pão de Açúcar, Corcovado, onde Jesus parece abraçar o Rio, e com ele o mundo inteiro. Camila estava deslumbrada. Nestes últimos locais, sentia-se no topo do mundo. Nunca tinha visto tamanha beleza. Dali, tudo parecia perfeito, a natureza era maravilhosa e o seu amor ali, era pleno e absoluto. Parecia-lhe que dali conseguia dominar todas as coisas, ter o mundo a seus pés. Sentiu-se completamente realizada. Com Alberto visitou Ipanema, passeou em Copacabana  no calçadão, misturando-se com os brasileiros, com uma roupa bem simples, sem ter tido problema algum,  sentiu-se com o povo, uma mulher realizada.

Foram até Búzios três dias, e num passeio de barco que fizeram para conhecer todas as pequenas praias de Búzios, conheceram um casal simpático, com quem travaram um convívio mais chegado, pois como eles iriam em seguida para o mesmo resort fazer uma semana de férias, em Angra dos Reis.

As praias de Búzios eram deliciosas. As suas águas quentes e calmas, e logo ali ao lado as palmeiras e toda a vegetação verde que parecia beijar o mar, encantavam Camila que não parava de tirar fotos. Em cada recanto uma praia um tanto diferente, parecendo que alguém as tinha andado ali a distribuir, como se estivessem entre o polegar e o indicador de uma enorme mão gigante, com pequenos areais rodeadas de vegetação tropical luxuriante, sem se saber dizer muito bem qual seria a mais bonita e aconchegante.
Passaram ali dias ildilicos a não esquecer. Dias de sol, praia, diversão noturna, compras nas lojinhas, contacto com o povo, visita a locais vizinhos.
Tinham decidido, antes do fim de férias, ficar uma semana em Angra dos Reis, a apanhar sol, relaxar, tomar banhos de mar, a passear entre os verdes maravilhosos dos jardins junto ao mar, a tomar uma bebida ao entardecer junto à piscina, a inventar amor no seu quarto depois do pôr-do-sol, que ali se põe  muito cedo, a darem-se mil beijos sempre diferentes, que aquele clima convidada todo tempo ao aconchego e ao mimo mútuo, e também a conversarem, mas a estarem sós os dois, pois quando regressassem Camila sabia que Alberto com o trabalho estaria muitas vezes ausente de casa, e a deixaria muito tempo só.

Em Angra dos Reis o tratamento no resort era fabuloso. Tudo tinha muito requinte tendo em conta que se estava junto ao mar. A decoração era cuidada ao pormenor, ao mesmo tempo que era simples, era de um gosto extraordinário. Se Camila pudesse ficaria ali para sempre. Identificava-se com aquela gente simples que trabalhava no resort, o seu falar cantante, o seu sorriso permanente, sempre alegres e dispostos e com tempo para tudo, parecendo que para eles o relógio tinha muitos mais minutos. Ali sentia-se tratada como uma rainha.

Num dos passeios de barco que fizeram com o casal amigo, enquanto as esposas, Camila e a outra, nadavam e procuravam observar uns peixes no mar, os maridos no barco bebendo uma caipirinha, combinavam um desvio que não estava no programa, que estava a deixar Alberto eufórico de entusiasmo.

Ao subir para o barco, Camila só ouviu Alberto dizer:

-Mas com certeza que vamos, a reserva vou fazê-la logo que ao resort no balcão e iremos juntos, ok?
-Mas vamos onde amor, não me contas ?-perguntou Camila.
-Claro, falaremos mais tarde no nosso quarto, agora vamos  preparar-nos para sair do barco, que estou cheio de fome. Tu não? Que tal almoçarmos juntos?

E foram todos almoçar, num restaurante simpático na principal rua de Buzios.

Quando chegaram ao quarto Camila quis logo saber o que era aquilo a que se referia Alberto no barco, de estar a dizer que iam sair.

-Vamos sair a jantar a algum lado com aquele casal? Gosto de passar o serão contigo, ainda agora almoçamos juntos, e aqui fazem animações tão divertidas ao jantar, depois ando cansada quero deitar-me cedo.

E Camila ia-se despindo, preparando-se para tomar um duche, e depois relaxar um pouco sobre a cama, como era hábito dela e de Alberto, antes do jantar.

- Nada disso, eles vão visitar Salvador da Baia, e eu resolvi que nós também iriamos com eles. Vou comprar as passagens de avião para irmos amanhã para a Baia, e depois peço a alteração do nosso voo e embarcamos em Salvador da Baia, para regressarmos a Espanha, em vez de embarcarmos no Rio. Acho uma ideia fascinante ficarmos a conhecer a Baía, tu não? Não me digas que estás do contra que me irritas.

-Percebo, mas não concordo. Acho que me devias ter pedido a opinião. É tudo muito precipitado, Estou cansada, e penso que devias ter-me consultado. Alberto depois voltariamos ao Brasil a fazer essa viagem, ou então decidiamos agora os dois o que fazer, não ias já com os papéis resolver tudo sem práticamente me dizer nada.
-Mas não estou a dizer.
Camila não teve tempo para falar mais nada, Alberto estava com uns papéis numa mão, provavelmente para ir comprar os bilhetes como tinha dito, mas ao sentir-se contrariado, sem Camila conseguir entender como, ele esticou um  braço e com a mão deu-lhe um empurrão e uma bofetada voou pelo ar e assentou no seu rosto com tanta rapidez, como ela nunca tinha levado outra, que ela caiu na cama meio nua, enquanto ele saía dizendo:

-Quer só fazer o que lhe apetece, aborrecida- E saiu precipitadamente.

Camila estava trémula, confusa e admirada.não sabia se chorar se gritar. fugir era o que queria mas não tinha para onde. Aquilo não podia estar a acontecer com ela. Alberto acabava de lhe dar um safanão e uma valente bofetada porque ela não concordava com uma coisa que ele decidira sozinho, e agora nem queria ouvir a sua opinião?Ele não tinha motivos para fazer o que acabara de fazer, mas nada poderia justificar aquela violência. Camilla desconhecia completamente aquele Alberto, aquela voz, aquele olhar, aquela mão que a tocou. E ela pensava isto lavada em lágrimas. O rosto ardia-lhe de dor e mágoa.
Estava cansada, não queria mais mudanças. Gostava tanto de estar ali, só com ele, não com outro casal. Noutra ocasião visitariam Salvador da Baia, pois ela gostaria de voltar mais vezes ao Brasil. Nada justificava a atitude do marido. E muito encolhida, no mesmo quarto onde já se sentira a mulher mais feliz do mundo, naquele momento, chorava como nunca tinha chorado antes, nem mesmo quando perdera o seu pai.

Como seria possível, ela nunca se ter apercebido daquele olhar, e daquela raiva, no Alberto por quem se enamorou?

E estava com estes pensamentos a martelarem-lhe na cabeça,  num choro e soluçar profundo e sentido, que não se apercebeu que Alberto entrou, e já lhe afagava os cabelos, lhe acariciava os braços, e a envolvia lentamente. E ela carente e porque o amava,  ao poder sedutor do marido que também a amava, deixou-se seduzir, porque lhe sabia bem o afago daquelas mãos macias e o calor daquela voz quente que lhe sussurava ao ouvido e a fazia estremecer de prazer.

-Perdoa-me, não sei que me deu, fiquei fora de mim,por não me estares a entender.  Não sou assim tu sabes, amo-te tanto, quero-te muito, és a minha mulherzinha querida, não posso viver sem ti, diz que me perdoas, diz? Perdoas-me, vá diz que me perdoas.

E envolveu Camila com tanto beijo e tanto afago, que ela devagar se acalmou, deixou soluçar, de pensar, e correspondeu plenamente a todas as caricias e meiguiçes que ele lhe fazia docemente, sem se furtar a nenhuma, e os dois num só, amaram-se como se anteriormente nada ali tivesse acontecido.

Camila dormiu nos braços de Alberto e quando acordou, as malas estavam feitas. Ele tinha preparado tudo.

-Vê amor como está tudo preparado. Agora toma um duche, vamos tomar o pequeno-almoço, apanhar o táxi com os nossos amigos e tomar o avião. Podes levar uma roupa bem à vontade. Sabes, amo-te, adoro-te, e beijou-a vezes sem conta.

Camila tinha  tido uma noite maravilhosa com o marido, pois não conseguia resistir-lhe nunca. Amava-o acima de tudo, mas não esquecera aquela bofetada que ele lhe dera, a força que usara, e o seu olhar naquele momento. Aquela mão tão diferente no toque ao tocar-lhe o rosto ficara gravada na sua memória e no seu coração. Dispensava uma recordação dessas da sua lua-de-mel.  O facto de Alberto a ter deixado e ter feito prevalecer a sua vontade mostrara-lhe um lado dele que ela não conhecia. Adorava aquele homem que a conseguia levar até às nuvens, colocava-a no céu, mas depois daquele fim de tarde, tinha que passar a controlar-se. Ele dominava-a completamente.

Teria que viajar para Salvador da Baia sem saber nada daquela viagem, sem ter planeado nada com o marido como era habitual, situação com que ela não concordava. Seriam dois dias, ou três, ela nem sabia ao certo, diferentes dos que sonhara, sempre acompanhada de um outro casal, sem conseguir apagar da sua memória aquela mão de Alberto a cair na sua face, onde sentia ainda um fogo. Seriam dias de mentira, de faz de conta. Um final de lua-de-mel que lhe ficaria na sua memória como um marco feio, triste e nebuloso.

Nada a faria esquecer aquele final de tarde em Angra dos Reis. Por mais beijos e caricias que Alberto lhe desse, todos seriam poucos para limpar aquela mancha.

Alberto continuava a sorrir e a divertir-se naquela que deveria ser a viagem de sonho de ambos, mas se o azul dos olhos de Camila já tinha escurecido quando saiu de Múrcia, agora tinha perdido um pouco do seu brilho.


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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A despedida

Com as malas feitas e preparados para viajar era a primeira vez que Camila parava para se questionar.
Por alguns segundos pensou se não se teria precipitado. Todo aquele tempo, quase dois anos, passara tão depressa que nem um segundo agira com a razão, tinha sido sempre levada pela paixão que sentia por Alberto. Sentia-se possuída por um amor que lhe era prazenteiro, mas que quase não a deixava raciocinar, nem viver, nem respirar, e só agora que deixava as suas raízes, dava conta que isso lhe trazia algum desconforto e insegurança.

Chegara a hora de abandonar aquela casa onde sempre vivera desde menina com os pais e Giulia, e dava-se agora conta do peso e mágoa que ao sair dali, isso lhe causava. Ainda não tivera tempo para pensar, porque talvez por medo, não se dera ao trabalho de o fazer. Quisera evitar fazê-lo, quem sabe inconscientemente, com receio da resposta, ou de algum pequeno vacilo, que o seu coração lhe poderia dar.
Não queria perder Alberto por nada, pois estava deveras apaixonada, e via agora que a sua precipitação naquele abandono drástico lhe ia ser doloroso. Estava presente em todas aquelas coisas que fizeram parte da sua vida,  para poder deixá-las assim sem sentir mágoa, mas era tarde e não podia recuar.

Semeara tantos sonhos e colhera tudo o que desejara, sem saber ainda se a colheita seria produtiva e positiva de verdade.

Ia abandonar a sua cidade, os seus amigos, o trabalho onde poderia continuar e executaruma função, as praias que costumava vesitar nas redondezas, o mar de Múrcia, a praça  sempre cheia de flores, os bares e outros locais que visitou tantas vezes com os amigos, e mais tarde com Alberto, mas mais importante que isso, ia deixar a loja de antiguidades e a casa onde nascera e fora criada com todo o amor pelos pais, onde aprendera a amar e ser amada como só eles sabiam amar, a entender e ouvir como eles, e tudo isso durante toda a sua vida, e agora que era mulher e ia partir ao recordar tudo isso, sentia uma amargura infinita que não conseguia explicar.
Tentou ocultar dentro de si esse sentimento que devia ser visivel no seu rosto, de forma que Alberto não se apercebesse.
 Mas na verdade, ele não se apercebeu das suas preocupações, pois estava eufórico com a viagem.

Deixar a mãe sozinha, ainda que esta ficasse com a velha Giullia, agora que chegara a hora de partir, causava-lhe uma tristeza e um transtorno infinito, acrescido pelo facto de Pia lhe afirmar que raramente a iria visitar a Rioja, por não gostar da família de Alberto, e também por não lhe apetecer viajar por sentir a falta de Geraldo. Tudo isto lhe causava uma sensação de abandono e solidão, como se ao sair dali algo dentro dela morresse um pouco para sempre. Sentia como se estivesse a ser despojada, deitada para fora de algo que lhe pertencia e nunca mais seria dela, ainda que neste caso fosse ela própria que se despojasse a si mesmo.
Era como uma auto flagelação a que Camila se submetia naquele momento que partia, mas à qual haveria de resistir, pois esperava ser feliz com Alberto a ponto de se compensar de todas essas lacunas. Pensava falar muitas vezes com a mãe e visitá-la as vezes necessárias para matar saudades e resolver algum assunto que fosse necessário, mas ao final daquele dia ao contrário do que imaginara estava abalada e triste.

E Alberto pensando que aquela angustia e ansiedade eram provavelmente derivadas da longa viagem que os esperava, nem fez perguntas acerca da sua saída daquela casa, e a alguma variação possível do estado de espírito da sua mulher, não referiu absolutamente nada. Despediu-se de Pia como de costume, e nem reparou, que depois daquele longo abraço que a mãe e filha deram, o rosto de Camila mudou, os seus olhos azuis ficaram mais escuros.
Pia estava uma mulher mais triste e fria desde que Geraldo morrera, e isso acentuava-se desde que Camila pensara em se casar, mas evitava fazer muitos comentários pois não queria intervir na vontade da filha . Todo aquele tempo chorara para dentro o facto de ver a filha partir tão depressa, mas depois de se despedirem, não se conteve mais e os seus olhos choraram até secar as lágrimas.
Jurou que nunca mais choraria por nada, nem ninguém. O seu coração de mãe dizia-lhe que tinha perdido a sua menina, por mais que Giullia lhe dissesse que estava errada, ela não pensava noutra coisa, algo lhe dizia que Camila não estava a dar o passo certo. Mas seria decerto um pouco de ciume, era e sentimento de perda era o que dizia Giullia. E ficou pora aí.
Só Camila bem no fundo do seu coração, sabia que não era por causa do receio da viagem, mas porque perdera naquele instante o colo da sua mãe e o carinho de Giullia, que os seus olhos tinham ficado para sempre de um azul mais escuro.

Múrcia era uma página virada na história da sua vida, e naquele momento, ela dera-se conta que poderia estar a fazer aquela viagem ainda solteira, quem sabe com o Alberto, ou outros amigos, mas com mais calma, sem ter que se afastar tão rapidamente da sua cidade e da mãe que estava a passar uma fase terrível na vida. Estava feliz, mas ao mesmo tempo, incompleta e plena, havia qualquer coisa que falhara e que ela não se dera conta, tão envolvida que estava com a sua paixão.

Esperava nunca vir a arrepender-se daquele casamento tão apressado, como lhe disse muitas vezes a mãe e Reina. Desejava muito que Alberto a merecesse, pois a sua única certeza que tinha era o seu amor infindo por ele, e sobretudo esperava que a mãe um dia a perdoasse.

Precisava partir com Alberto. Um avião esperva por ela e pelo marido para juntos voarem, até à América do Sul. Quando voltasse um dia a Murcia não seria a mesma mulher, e se por um lado isso a entristecia, por outro enchia-a de muito orgulho. Estava orgulhosa por passar ao rol das mulheres casadas. Seria a senhora Velasquez.

Desde menina que desejava conhecer um pouco do Brasil, tinha a certeza que com o marido faria uma viagem de sonho.

Agora precisava pôr de lado todos aqueles pensamentos que lhe ensombravam o espirito e aproveitar ao máximo os dias que se avizinhavam e que começavam ali.

Fotos do Google

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O casamento(A Mantilha)

O casamento seria na Primavera, no Santuário de La Fuensanta.
Gradualmente com a ajuda de Reina que aceitou maravilhada ser a madrinha de Camila, tudo começou a ficar em ordem. Ambas começaram a trabalhar afincadamente para nada falhar no dia da cerimónia.
Contratado o local da boda, escolhido o menu e a decoração da sala, falaram ao fotógrafo, e à florista que haveria de enfeitar tanto o Santuário como o local da boda. Mais tarde asseguraram  o transporte de todos os convidados para o Santuário e de volta ao local da boda. Camila  escolheu as ofertas para os convidados, tratou de mais alguns pormenores e em seguida com Reina resolveu dedicar-se à escolha do seu próprio vestido. Ambas estavam excitadissimas, pois esse era o momento alto de todo o trabalho que tinham que fazer.

“O vestido de noiva, os sapatos, o toucado, o cabeleireiro, o vestido da menina das alianças, o vestido de Pia, o vestido de Reina que era a madrinha, as alianças que Camila escolheria com Alberto, ainda que fosse este a pagar, e o seu bouquet, tudo reliquias adquiridas em momentos que Camila esperava memorizar eternamente como sendo uma das melhores fases da sua vida, ainda que ensombradas infelizmente pela perda do pai.
O seu vestido era em tudo semelhante ao que levara ao baile de gala. Queria muito que Alberto a voltasse a olhar daquela forma, como na noite em que o vira naquele canto da sala e se conheceram.
Queria deslumbra-lo constantemente.

Com um decote destinto, um imponente cai-cai deixava-lhe os belos ombros desnudados, a saia com muito volume até baixo, corte envase, cheia de folhos, e uma cauda de sereia  realçando-lhe as curvas, e toda a silhueta de forma que a tornava mais formosa que qualquer princesa que tivesse casado algum dia, Camila ficava mais bela que alguma vez estivera, o seu corpo ficava mais esbelto que nunca.
Alberto ficaria com certeza fascinado e orgulhoso com a sua esposa.

Quando o provou, Reina adorou vê-la. Faria uma noiva ousada e diferente, mas por isso mais bela ainda.     
Estava radiosa de tanta felicidade.
Sobre o rosto Camila iria levar uma mantilha que já sua mãe tinha usado, como era tradição algumas noivas usarem em Espanha. O cabelo ia apanhá-lo, num toque de candura e sofisticação, deixando-o parcialmente preso se possível. Pediria ao cabeleireiro que lhe fizesse um ligeiro tufado, criado na nuca, para com um retoque especial lhe colocar aí, uma travessa de pérolas e cristais que também era herança da mãe. Por cima desse arranjo do cabelo levaria a mantilha, que na devida altura Alberto lhe retiraria de sobre os olhos com um beijo quando já fosse sua mulher.
 Camila pensava em todos estes pormenores com imenso carinho, e sabia como tudo seria muito mais intenso e vivido se o pai estivesse ali com ela e com a mãe.

Para a mãe escolheu um vestido comprido azul-marinho, corte linha princesa que lhe assentava bem, em que o tecido era todo lavrado, e uma echarpe  no mesmo tom, tal como os sapatos. Pia queria ir muito discreta, e quando provou o vestido concordou com a escolha.
A menina das alianças era uma miniatura de Camila, um encanto. Era uma menina linda de seis anos, sobrinha de Reina e de Julio.

E porque o tempo não pára, mesmo contrariando a vontade de Pia, o dia do casamento chegou. Pia não acredita que a filha vá ser feliz afastando-se tanto daquela cidade onde cresceu, da vista do mar e das praias, abandonando todos os seus amigos, e o pior, decidir não trabalhar no futuro, uma coisa que ela sempre desejou fazer toda a vida, despegando-se dos seus hábitos, e dela que era a sua mãe. Será que se o pai fosse vivo, agiria da mesma forma?

Não imaginava como iria conseguir viver longe da filha, mas teria de ser forte e resistir a essa distância. Para ela a filha estava a dar um passo precipitado, mas não queria separá-los e ser ela a causadora de um ponto de discórdia ou desunião. Conhecia o temperamento da filha para imaginar que não ia ser fácil  ela adaptar-se a uma família que mal conhecia. O tempo é que lhe daria ou não razão, e ela esperava ter que engolir todos aqueles pensamentos como falsos, para bem da sua filha única de quem só queria a felicidade. Um dia queria arrepender-se de todos estes pensamentos loucos, por isso não os contava a ninguém.

Enquanto tivesse Giullia, a sua velha ama e amiga, para lhe fazer companhia, ficaria bem, se no Norte a filha estivesse bem, melhor ainda.

Naquele dia Camila estava deslumbrante. Tudo estava lindo, nas suas mãos o seu bouquet traduzia o que ela desejava que aquele dia transmitisse a todos, muita alegria, muita satisfação e felicidade. Um ramo de pequenos jarros brancos, flor discreta símbolo de beleza e elegância, e rosas de um amarelo quase coral muito claro, o que tornava o bouquet encantadoramente sofisticado.
No casamento tal como imaginara, Alberto delicadamente levantou  a mantilha que lhe encobria os olhos e lhe deixou a descoberto não só o olhar feliz e radioso, como a travessa lindissima que tinha no seu penteado, e deu-lhe um beijo na testa, prometendo-lhe peramte todos ser-lhe fiel, amá-la, respeitá-la, ser ser amigo e companheiro nos bons e maus momentos até que a morte os separasse.
No se dedo anelar da mão esquerda tal como na de Alberto, uma aliança que ambos trocaram, significava também que ambos juraram  fidelidade eterna, amor e companheirismo, em todos os momentos das suas vidas. Na mão de Camila junto da aliança ela juntou o seu anel de noivado.

Nesse dia tudo decorreu como sonhara, tanto na igreja como na boda, como em todos os cantos e recantos por onde andou com Alberto, ambicionando uma dualidade de desejos:

“ Que esse dia fosse tão longo  que não tivesse  fim, ou se possível que perdurasse para sempre”.

Aparentemente naquele dia todos pareciam felizes e até Pia conseguiu sorrir algumas vezes, ainda que o seu coração estivesse triste e distante como nunca. Num ano só, a sua vida dera uma volta e modificara completamente. Também naquele dia jurara a si mesmo ficar em Múrcia, e ir no mínimo a Rioja aborrecer ou visitar a filha. Pelo pouco contacto que teve com os familiares mais chegados de Alberto, não se identificou muito com eles, não criando com eles grande empatia. Olhavam-na de alto a baixo, examinando ao pormenor tudo o que dizia e fazia (era o que lhe parecia). Quase que se sentia despida por aquela gente, e naquela fase da sua vida, queria paz, esses procedimentos incomodavam-na. A filha teria que lhe perdoar, mas ela não iria suportar essa gente.

Teria que enfrentar o futuro. Geraldo sabia que ela era uma vencedora. Algures onde estava iria apoiá-la.

A Camila, esperava-a uma viagem maravilhosa até o Brasil, e no regresso, uma nova casa, a sua casa em Rioja, e uma família diferente.




Fotos retiradas do Google

domingo, 21 de novembro de 2010

A decisão

Nos dias que se seguiram, não foi fácil viver suportando a ausência de Geraldo, sabendo o motivo por que partira defenitivamente. Pia fechava-se em si, não querendo aceitar aquela sua nova forma de vida, tão sozinha, sem aquele homem que sempre fora a sua força, o seu pilar, e começava a ter dificuldade em dialogar com Camila.

Esta tinha tomado já a decisão de falar com a mãe e dizer-lhe o que desejava para o futuro.

Conversara muito com a amiga Reina, que não sabia muito bem que conselhos lhe havia de dar, pois se por um lado concordava com o facto de ela casar e ir viver com o marido, por outro tinha a certeza que Pia jamais iria deixar Múrcia para ir viver com ela. Pia era ainda muito nova, com 50 anos tinha um espírito muito independente e sempre vivera naquela cidade. Que faria ela noutra cidade onde não conhecia ninguém além de Camila. Mesmo para esta não iria ser fácil, mas Camila era jovem, facilmente faria amigos, os do maridoe outros surgiriam, e não ficaria só, mas Pia na situação de viuvez recente em que se  encontrava, estava muito frágil, incapaz de aceitar mudanças demasiado complicadas  na sua vida. Agora não conseguia imaginar como seria o seu futuro próximo, muito menos o  futuro mais longínquo.

Ao longo dos anos Pia e Geraldo tinham enveredado, como já era hábitual na familia, pelo caminho da compra e venda de peças de prata e ouro antigas, uma área onde os seus pais e avós já trabalhavam. Considerava-se uma antiquária por afinidade familiar, e trabalhava desde sempre nessa área com muito orgulho. Orgulhava-se de reunir porcelanas decorativas raras e outros objectos, quadros, e algumas jóias essencialmente de prata, muito trabalhada e explorada em Múrcia desde sempre.

Agora nem pensava no que fazer no minuto a seguir. Tinha que reorganizar a sua vida, o seu trabalho, a sua loja. Recomeçar o seu dia-a-dia.

Camila numa das vistas de Alberto, propusera-lhe ser ela a falar com a mãe primeiro sozinha, e depois conforme a reacção dela logo se veria.

Claro que sempre que eles estavam juntos, cada vez mais a despedida de ambos era mais apaixonada e ao mesmo tempo dolorosa, e Pia assistia a tudo isso em silêncio com o sentimento de que quem sabe que em breve também Camila partiria para constituir família. Estava destinada a viver só naquela cidade.

Fora assim que fora educada e assim seria, custava-lhe aceitar que tivesse que ser para tão longe. A filha ainda não lho dissera mas o seu coração de mãe adivinhava e há muito que sabia que Camila seguiria Alberto para onde ele a levasse. Tinha educado a filha a amar e respeitar a pessoa que esconhece para contituir um lar e ser o pai dos seus filhos e era o que estava a acontecer, não podia era prever que ele seria de tão longe, e ela estaria só.

Sentaram-se as duas e de uma vez só Camila disse tudo:

-Vou casar com Alberto aqui em Múrcia e Reina será minha madrinha. Resolvi que não vou trabalhar mais, e vou dedicar-me à minha nova casa, ao meu marido e aos filhos que tiver, como é hábito na família de Alberto. Depois de casada terei a minha lua-de-mel, uma viagem até ao Brasil, que sabes adoro conhecer há muito, e no regresso ficarei a viver com Alberto numa quinta perto da zona de vinhedos da família, Logroño,  onde trabalha, que é da família, em Rioja.
Sempre que puder virei aqui e espero que me visites amiúde. Terei um quarto permanentemente à tua espera. Podes, e essa seria a minha maior alegria, vir morar connosco. Alberto, eu, e a familia esperamos  por ti.

Pia ouviu tudo em silêncio e para ela se algumas coisas já as esperava ouvir, outras soaram-lhe menos bem aos ouvidos. Sabia desde o momento que a filha namorava com Alberto, que um dia ela iria com ele para essa província do Norte, mas agora sem Geraldo isso soava-lhe menos bem, mas tinha que aceitar.

Não gostava de saber, que a filha iria deixar de trabalhar e ficaria em casa a cuidar da família. Não concordava com essa atitude. Toda a vida trabalhara e fora independente, e conseguira conciliar ambas as coisas. Agora com a perda do marido teria que ganhar coragem e  recomeçar de uma forma diferente, mas a fazer alguma coisa para sobreviver também psicológicamente. E se nunca tivesse feito nada? Agora seria o caos na sua vida.
 E se um dia os dois se separassem, que seria de Camila sem emprego, nem experiência de trabalho?

Pia não podia concordar com a atitude radical da filha, mas já reparara que ela estava irredutível.

Limitou-se a responder:

-Sabes muito bem que não concordo plenamente contigo, mas se é assim que desejas a tua vida no futuro, muda-te e deixa de trabalhar.No teu lugar pensaria mais um pouco. Um dia não venhas chorar no meu regaço. As mulheres lutaram para sair de casa e ter os mesmos direitos que os homens a todos os niveis e também a nível laboral e tu vais enfiar-te em casa.
A paixão não dura sempre minha filha, o amor sim, e esse constrói-se dia a dia, e não é preciso estares permanentemente em casa. Alberto tem que sentir que precisa de ti, que lhe fazes falta, ter saudades do teu carinho, da tua presença, do teu toque, não ter-te ali em casa para se servir de ti quando lhe apetecer e desejar.
Achas que sou louca, eu sei. Só quero que sejas feliz. Eu ficarei por aqui, onde sempre vivi com o teu pai desde os meus 22 anos e onde fomos muito felizes.

Camila e a mãe nunca tinham falado tão sério. Pia estava a transformar-se numa mulher seca e amarga, mas também como poderia ser de outra forma se tudo lhe corria menos bem, e a filha na sua opinião estava a tomar um passo decisivo para a sua felicidade futura. Parecia que de um momento para o outro algo se tinha intrometido naquela familia exemplarmente tranquila.

Camila ouviu a mãe mas pensou que tudo iria correr bem. Na situação em que Pia estava não podia ter pensamentos positivos. Depois se veria o que fazer em relação ao facto de ela ficar ou não sózinha.
Os preparativos ficaram todos ao cuidado de Camila, pois Pia garantiu logo que não sentia energia, nem vontade para participar nesses preparativos. Com tempo e com a ajuda de Reina, nessa altura já casada, e portanto alguma experiencia na área, tudo organizou.
A escolha do local da boda, o menu, os convites, a igreja, a florista, o vestido, o ramo, as prendas dos convidados, o fotógrafo, a própria viagem de núpcias, e outros pormenores que foram surgindo, tudo ficou ao seu cuidado. Ao Alberto apresentava a conta do que tinha sido estipulado ser a parte dele a pagar. A lua-de-mel seria oferta dos padrinhos do noivo, o que era óptimo.

Alberto dissera-lhe que com a sua nova casa não precisava de se preocupar, alguém trataria de tudo e quando chegassem do Brasil ela verificaria como tudo estaria, e colocaria depois o resto a seu gosto.

Pia não era a mesma mulher, sentia-se derrotada, não tinha vontade de sair, nem de inovar, reorganizara a loja e limitava-se a vender o que tinha em stock e a receber um ou outro vendedor que aparecia com um outra peça para lhe mostrar. Entretanto observava com alguma amargura e estranheza o entusiasmo natural com que Camila tratava do seu casamento, culpabilizando-se pela  indiferença com que observava tudo isso, sem nenhuma energia para colaborar, e sair dessa sua apatia.
Continuava a viver em silêncio como outrora, mas este era um silêncio ferido, saudoso do seu bem amado Geraldo, não como outrora, que em silêncio lhe sentia ao lado o respirar.

Camila e Reina conseguiram que o casamento se realizasse no Santuário de La Fuensanta, que abriga a padroeira de Múrcia, a Virgem de La Fuensanta e está situada em pleno campo, local lindissimo,  a um curto passeio da cidade. É um templo estilo barroco e dali vê-se toda a cidade.

Com esta ultima conquista para o seu casamento estava muito feliz, mas nem isto fez alegrar o coração de Pia, para quem o futuro não se mostrava muito risonho. Casar no Santuário era muito importante para Camila devota da Virgem de La Fuensanta.

sábado, 20 de novembro de 2010

Geraldo

Aquela era a pior noticia que podia receber, depois dos momentos maravilhosos que tinha vivido com Alberto. De um momento para o outro esquecera tudo, caíra em si e sentiu um vazio que a percorreu como se tivesse acordado para outra realidade. O pai tinha falecido. Estava órfã, e nessa hora a mãe estava só e precisava dela. Estavam as duas sózinhas. Só se tinham uma à outra. Sem sentir arrependimento sentiu no entanto uma revolta por não ter estado ali mais cedo, e entrou num choro constante, sem saber o que fazer ou dizer,  sem mesmo conseguir arrumar os seus sentimentos.
Pia, a mãe estava inconsolável, nada parecia justificar o brutal acidente que vitimara Geraldo.

No dia anterior, ao final da tarde quando regressava a casa, vindo de Barcelona de uma viagem de negócios, por conta da casa de antiguidades, um carro, tendo provavelmente perdido a direcção, por motovo a esclarecer, despistou-se e embatendo em Geraldo, fez com que o seu carro saisse violentamente da estrada  e embatesse numa árvore. A força do impacto, provocou-lhe um choque a nível do crânio de tal forma violento, que segundo os médicos lhe provocou cerebralmente morte imediata.

Por mais tentativas de reanimação que tivessem sido feitas pela parte dos serviços de assistência aos acidentes na estrada, Geraldo não reagiu mais. O condutor que embateu nele, apesar de se ter despistado e ter andado às voltas dentro do carro e  ter embatido fortemente contra Geraldo, saiu com vida do acidente e estava hospitalizado.

A vida é muito cruel, e naquela hora Pia sentia que Deus a tinha abandonado. Não era justo ficar sozinha sem o seu companheiro de mais de trinta anos. Que iria ser dela agora. Que fazer sem o seu apoio constante, a sua ajuda, o seu amor, a sua companhia. Sem Geraldo ela não saberia fazer nada, nem gostaria de fazer mais nada. Tudo tinha perdido o interesse naquele dia.

No dia anterior, não fora Reina dizer-lhe que Camila provavelmente estaria com Alberto, Pia ficaria totalmente desorientada  sem saber  do paradeiro da filha. Todos a tinham procurado e ninguém sabia dela. Estavam incontactáveis. Fez-lhe tanta falta não ter Camila consigo ali naquele momento, mas Reina tranquilizara Pia, pois sabia que os amigos iam jantar e imaginou o final da noite. Não era normal Camila sair e não dizer onde ia, mas todas aquelas coincidências eram demasiadas para ser verdade. Pareciam todos estar a viver momentos anormais. De manhã, depois de Camila aparecer, não se falou mais no assunto.

Mãe e filha estavam tristes com a perda daquele seu homem, marido e pai extremoso, muito querido e amado. Não havia forma de entenderem e aceitarem aquele acidente estúpido, que de um momento para o outro lhes roubava uma pessoa querida, e vinha pôr entraves á continuidade normal das suas vidas. Era muito cedo para ele partir. Uma perda indiscutivelmente monstruosa.
Alberto permaneceu com Camila até ao final do dia, não se esquivando ao menor esforço para ajudar, mas tinha voo marcado, com assuntos pendentes para o dia seguinte e impossibilitado de adiar o voo, e como o funeral seria logo de manhã bem cedo, Camila achou que ele não precisava ficar. Já tinha ajudado o suficiente, orientando o necessário para tudo seguir em ordem no funeral, e depois o resto se faria. No dia seguinte, precisavam todos, sobretudo a mãe e ela, de descansar.

Quando aqueles dias intensos passassem, precisava pensar em todas as coisas, as boas e as terríveis que lhe tinham acontecido, que as más povoavam-lhe demais o pensamento, e não sabia ao certo o que fazer da sua vida. De um momento para o outro saira do paraíso e entrara num local estranho, desconfortável, para ela completamente desconhecido, que até áquele momento desconhecia e não gostava do sentimento que lhe causava.
Perder o pai dava-lhe uma sensação de solidão, de tristeza, mas também de vazio e abandono. Um sensação de perda ficara com ela, um amor que guardou no seu coração, mas nunca mais o teria na vida junto de si, para lhe dar um conselho ou o apoio de sempre. Nunca tinha pensado nisso antes, e isso causava-lhe uma dor enorme.

A mãe já lhe olhara para a mão e notara o brilho do solitário. Entendera a sua ausência, o seu desaparecimento no dia da morte do pai, temia agora ficar ainda mais só, mas a sua dor era bem maior nesse momento. Guardou esse assunto para falar mais tarde a sós com Camila.

Aquele dia chegou ao fim, não da forma como todos desejariam, mas chegada á hora do voo, que era sempre por volta da meia-noite, Alberto tinha que partir. Assim duas horas antes, por volta das  dez horas Alberto despediu-se de Camila. Pegou-lhe na mão onde na noite anterior lhe colocara o anel, beijou-a com ternura e disse:
-Minha querida mulher, adoro-te, volto depressa, porque não posso estar sem ti. Não, te esqueças que vamos casar e que a tua mãe estará sempre connosco, se for essa a sua vontade. Sei que agora a nossa vida deu uma reviravolta, mas tudo se arranjará. Quando voltar vamos conversar, sim ? Será que podemos? E não parou de a beijar.

Antes de sair, ainda lhe disse:
-“fico contigo, e vais comigo, amo-te”, colocando a mão no lugar do coração.
Alberto era um homem apaixonando, e um sedutor. Sabia como deixar uma mulher feliz, sabia o que lhe dizer em cada instante, como devia tocar-lhe, quando devia manter-se a seu lado em silêncio. Por isso quanto mais Camila o conhecia, mais medo tinha de o perder. Viu-o partir e naquele dia ficou mais triste que o habitual. Estava muito carente. Aquela noite iria ser bem diferente da anterior, em que se entregou mil vezes a ele e dormiu nos seus braços.
O mundo é extraordinário e complexo, dá voltas e reviravoltas, parece que brinca connosco, dá-nos num dia e em seguida tira-nos tudo.
Camila estava a aprender a viver. Tinha tido uma infância e adolescência fácil, tirara o seu curso e acabava agora o estágio.Conhecera o homem da sua vida e agora que estava decidida a casar e ir viver com o marido, tudo parecia correr muito bem. 
De um momento para o outro, perde o pai num brutal acidente de automóvel, sem o pai ter culpa nenhuma de tal acidente. Tudo se transforma e fica mais complexo, parecendo, nada ter solução.

Como devia fazer com Pia, ela não gostaria de saber que a filha não queria mais trabalhar depois de acabar o estágio? Como reagiria a mãe, à sua saída da cidade para ir viver com Alberto, que vivia tão longe?

Eram decerto muitas notícias desagradáveis para Pia, e Camila parece, que adivinhava que a mãe não devia concordar com nenhuma das suas decisões. Mas era o seu futuro que estava em causa.

Camila é pedida em casamento

Alberto  ficara enfeitiçado pela beleza daquela jovem moça simpática, sentindo de imediato por ela algo que o prendera, que o fizera jurar-lhe coisas que nunca tinha prometido a mais ninguém. Dissera-lhe na altura, que estudava Engelharia Química, mas de facto estava a acabar o curso de Ciências Químicas na Universidade de Barcelona, no departamento de Bioquímica , pois queria e precisava estar muito bem preparado para assumir o comando nalgumas áreas administrativas e não só, nos grandes vinhedos, herança que possuía de família,onde já trabalhava, que já vinda de gerações passadas, no norte de Espanha na zona de Rioja.

Alberto sabia que fizera mal em não contar a verdade a Camila, mas na altura em que a conhecera, não achara oportuno dizer-lhe que era de uma província bem do Norte do país, onde teria que vir a trabalhar, e a viver, estando a conhecê-la ali em Múrcia.
Isso iria mante-la afastada dele e naquela noite em que tudo estava a correr tão bem entre os dois, esse facto podia ser decisivo e afastá-los para sempre. Assim preferiu omitir esse facto da sua vida e deixá-lo para mais tarde.

Resolveu simplesmente viver aquele dia, dizer-lhe que estava a tirar um curso de engenharia química, que era quase o mesmo, e que pretendia estudar mais um pouco. Pretendia fazer uns cursos sobre enologia, e outros estudos relacionados com o desenvolvimento da quinta, portanto não mentiu muito, ao dizer que tinha que fazer uma pós-graduação. Realmente na universidade de Madrid onde estudava, gostaria de aprofundar os seus conhecimentos sobre as terras preferênciais para plantação de vinha, protecção e erosão do solo ou viticultura de Montanha, aprofundar os seus conhecimentos nem que fosse participando em palestras sobre manutenção de solo e regas, vigor e densidade dos cachos na produção e qualidade da uva e aprender alguma coisa sobre envelhecimento de stocks.
Os assuntos a estudar para manter em ordem e em produção máxima e de qualidade a vinha, eram infindáveis e ele achou que não devia estar naquela noite a falar, a preocupar e afugentar dele, com esses assuntos, a sua Camila.

O tempo diria o que lhes iria acontecer, e ele aos poucos contar-lhe-ia a sua vida, e o que pretendia fazer para o futuro.

Enquanto Camila começou um estágio, num hotel em Múrcia, em que pretendiam um cliente Administrativo em part-time com conhecimentos de inglês fluente, e licenciatura ou afins na área de turismo, Alberto em Madrid lutava com os livros  afincadamente, para terminar da melhor forma as ultimas cadeiras do seu curso, assistindo a todas as palestra que podia, somando conhecimentos que lhe seriam valiosos no futuro na orientação que teria que dar em investigações e novos projectos de trabalho na sua quinta de vinicultura de Rioja.

Aos poucos Camila soube de tudo, da lonjura da quinta, dos estudos, interesses e projectos de futuro de Alberto, mas isso não a demoveu nem um pouco de gostar cada vez mais dele. Nem mesmo o facto de Alberto só a visitar ao fim-de-semana a entristecia. Esperava pela chegada dele a Múrcia, cada dia que ele a visitava com o entusiasmo da primeira  visita, e o que a começava a consumir era ter que dizer aos pais que um dia partiria com Alberto para Rioja, pois queria viver com ele para sempre.
A mãe achava um exagero, tanto zelo, tanta paixão. Já temia um dia perder a filha de vista, mas se era o que ela queria que havia de fazer. No seu íntimo pensava que a filha não seria capaz de os abandonar.

Ao contrário de Rioja conhecida por ser a zona de Espanha onde se produzem os melhores vinhos, rosés e brancos, Múrcia sendo uma região mais pobre tinha um ou outro pormenor que fascinavam quem a visita, e assim Pia pensava, porque não ficavam por ali mesmo e ele viajaria até à quinta ?

Sempre que Alberto visitava Camila, passeavam-se de mãos dadas pelos bares e esplanadas viradas ao Sol, que na praça convidavam a um relaxe delicioso e um namoro terno envolto no cheiro de flores diversas, que no ar se distinguia naquele dia perfeitamente de flores de laranjeira.

Também na altura da semana santa, Aberto não faltou aos festejos. Procissões elegantes cheias de flores em que as esculturas saem dos museus, e à noite com a luz das velas e o facto de serem esculturas minuciosamente esculpidas, parece que se  tornam ainda mais reais. As esculturas representam os acontecimentos que levaram Cristo à crucificação, na altura da Semana Santa..

Camila e Alberto vivenciam todos esses momentos com imensa energia, aproveitando cada segundo que estão juntos para viverem o seu amor. Camila cada vez mais presa a Alberto não consegue ver-lhe defeitos, nem ele a ela. Estão cada vez mais  presos um ao outro. Ele esforçava-se para se juntar a ela sempre que podia, e de avião depressa chegava a Múrcia, mas Camila tinha muito medo de o perder, pois não lhe deviam faltar colegas bonitas a assedia-lo, era o que pensava constantemente.

Quando chegou o Natal estava decidida a falar-lhe no futuro. Queria estar mais tempo junto dele, e não só aos fins-de-semana como era habitual.

Mar Menor em Múrcia, nos meses de Dezembro e Janeiro é deslumbrante.
Camila tinha avisado Reina que nesse dia ia ter um jantar especial com Alberto a seu pedido.
Ambos foram passear um pouco antes, e naquele dia ao final da tarde o mar ainda se mantinha calmo e tranquilo como de manhã, as suas águas pareciam um espelho, transmitindo uma sensação de calma paz e tranquilidade.
Virados para o mar não foram precisas palavras, há muito que sentiam que aquele momento os aguardava.
Os seus corpos estavam sedentos um do outro. E por mais que se beijassem, todos os beijos não matavam o desejo que ambos tinham um do outro e de todos os outros beijos que ainda tinham para dar. Mantiveram-se unidos sem falar durante muito tempo, o coração de Alberto parecia dizer ao ouvido de Camila o que ela sabia há muito e que também era seu desejo.
 Um beijo longo, como nenhum outro invadia-a por completo. Ele pegou-lhe pela cintura, abraçou-a muito a ele, e encostada a ele, caminhou a seu lado sem perguntar para onde iam. Entram num prédio novo, num andar relativamente bem mobilado, numa avenida movimentada.

- É da minha prima-disse ele- com quem fui ao baile quando te conheci, não está cá. Está para Madrid, e eu tenho uma chave, que a casa é da família.
-Estranho, nunca me falaste dela, nem desta casa.

-E isso que importa. Hoje é um dia especial. Quero fazer-te uma pergunta muito importante, e não queria fazer-ta ali na rua, pois trata-se da nossa vida, e não queria esperar mais um segundo sequer:
- Queres casar comigo, ser a mãe dos meus, dos nossos filhos?
E continou:
-Há pouco perante aquela beleza, daquele mar, desejei afundar-me ali contigo, possuir-te ali mesmo, porque te amo. Iamos jantar logo à noite, mas não consigo resistir mais um segundo, a esses teus olhos azuis da cor daquele mar tranquilo, da cor do céu quando passeamos pela tarde, esses olhos onde me quero afundar, agora, mas primeiro queria fazer-te esta pergunta, porque te amo. Casas comigo?

E tirou uma caixinha preta do bolso, que abriu de onde retirou um anel com um grande solitário.

- Mas claro que quero, é que que mais quero desde o primeiro segundo que te vi. Porque também te amo.

Foi o que Camila respondeu meio trémula, meio emocionada, pois parecia que nem estava ali, estendendo o seu dedo anelar da mão direita onde Alberto colocou o anel, que lhe ficou lindamente.

De um momento para o outro o tempo deixou de contar, perderam a noção de tudo, e ambos comunhando daquele amor quente e arrebatador que os inebriava à tanto tempo, daquela mesma vontade sofrega de se mtrem a sede do seu amor, deixaram-se envolver de forma que as horas deixaram de existir, e nem deram conta que atrás do dia a noite também passou, e novamente chegou um novo dia.

E naquela casa  pela primeira vez Camila descobriu o que era ser amada por um homem, e até que ponto era amada e como amava Alberto. Sentiu que seria dificil conseguir viver sem aquele amor, sem aquele homem.

Ela estava decidida, iria casar logo que fosse possível e deixaria de trabalhar. Não sabia  como daria essa notícia aos pais, mas estava decidida, a partir desse dia, não seria capaz de viver sem Alberto. Ele tinha-lhe pedido isso, e ela far-lhe-ia essa vontade.

Para sua grande tristeza, ao chegar no dia seguinte de manhã á loja de antiguidades, tinha uma triste noticia à sua espera, Reina, a mãe Giullia, e  outros amigos tentaram localiza-la em vão. Geraldo tinha tido um violento acidente no dia anterior, quando regressava a casa numa das viagens que costumava fazer nas suas pesquisas de antiguidades e as tentativas para que ele sobrevivesse tinham sido em vão.

Não tinha sido fácil encontrar Camila, que sofria agora a perda do pai.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O amor de Camila

Para quê descrever bailes de gala, salões e festas? Todos se apresentam bem, tudo está bonito, reluzente, no seu melhor, e o mesmo aconteceu com o baile de Reina e Camila. Ambas dançaram até de madrugada e os pais também, mas cada um a seu modo. Os pais saíram um pouco mais cedo deixando-as com os amigos. Reina desapareceu com o Júlio do grupo perdendo-se a passar muito tempo pelo jardim. Mais tarde via-se muito agarradinha, ao fundo do salão, a dançar uma ou outra música com o seu amor, como se fossem um só. Via-se claramente que estavam verdadeiramente apaixonados.

Camila ao princípio da noite, dançou com um e outro amigo, não se esquivando a ninguém que a convidava. De todos eles, ia levando imensos elogios, e corando levava isso com graça, rindo e agradecendo não levando a sério nenhuma insinuação quase feita proposta.

Quando os elogios eram feitos por colegas que sempre tiveram uma grande vontade de namorar com ela e que naquele dia perante a sua beleza não resistiam a mais uma tentativa de se declarar, ela muito simpaticamente sorria simplesmente e nada dizia deixando-os desorientados. A esses, passava a evitá-los durante a noite. Tinha decido prender-se sómente quando o seu coração lhe desse um sinal.

Já depois da meia-noite, viu junto ao palco, parado a fitá-la um jovem alto, moreno, de olhar intenso. Estremeceu de alto abaixo, e naquele momento pensou que ia desfalecer. Aquele olhar parece que atravessou o seu, e no entanto ela estava para além do meio da sala. Já se sentia vigiada havia algum tempo, como que por um calor, ou uma luz forte e enérgica, que incidia sobre si, que não se via mas que ela sentia e  a perseguia como se fosse um foco que a iluminava, por cada canto da sala por onde passava: devia ser o seu olhar.

Quando o conjunto começou de novo a tocar, ele dirigiu-se a ela, que queria disfarçar a perturbação que ele lhe causava mas não conseguia, e sem se dar conta ao convite  gentil que ele lhe fez para dançar, esticando a mão, ela imediatamente respondeu,  entregando na mão dele a sua, aceitando de imediato o convite.

O contacto das suas mãos foi uma sensação que nunca tinha experimentado. A sua mão pequena e macia, perdeu-se na mão dele também aveludada e os dedos dele,compridos e elegantes, envolveram a sua mão de uma forma, que nesse aperto, ela se sentiu toda envolvida. Com o outro braço, ele abraçou-a pelas costas e amparou-a com a mão que a havia de conduzir a dançar pelo salão. Camila ficou assim capaz de lhe o olhar nos olhos negros, tão perto que lhe sentia o respirar quente, muito perto do seu nariz e isso dava-lhe uma sensação nova, que nunca tinha experimentado, e que lhe era  estranhamente agradável.
Tinha o cabelo negro, encaracolado e um pouco comprido, comparando com o corte que os amigos dela usavam, mas gostava dele assim.Gostava do cheiro dele, do seu toque, da maneira como falava, da sua simpatia, da gentileza, da sua delicadeza, e sem se dar conta estava colada a ele, a pensar que se pudesse ficava assim o resto da noite toda. Gostava daquele homem e de tudo o que que ela conseguia perceber nele. Devia estar a sonhar. Ela não era dessas coisas, mas nunca se sentira tão envolvidacom uma pessoa ao primeiro contacto.
Apertou-a mais um pouco junto ao seu peito, iam dançar um mambo. E ela deixando-se envolver só disse:

-Não sei dançar isto.
-Hum, sabes sim, encosta-te bem a mim,  apoia a tua cabeça na minha, fecha os olhos que eu conduzo-te, só tens que te deixar levar. É muito fácil. Vi-te dançar toda a noite e danças muito bem, faremos só o básico, e vamos dançar lindamente.
- Muito, bem assim farei.
E como ele disse, dançaram lindamente, os dois parecendo um só deslizaram pelo salão, e o corpo dela obedecendo à condução com muita sensualidade, pareciam que já dançavam há muito tempo.
Mas Camila sentia-se um pouco incomodada, não estava habituada a deixar-se seduzir daquela forma, mas aos poucos sem pensar, porque o seu coração mandava mais que a sua cabeça, foi-se deixando levar e nunca mais largou o ombro do jovem, que mais tarde lhe segredou ao ouvido que se chamava Alberto. Muito agarrados passaram a noite a dançar. E para quem dizia que não sabia dançar, Camila dançava muito bem, deixando-se conduzir como uma pena. Tangos, valsas, ritmos latinos, mas sempre com o mesmo fascínio um pelo outro. Alberto ficara encantado por Camila, e esta por ele.

Quando os pais saíram andavam eles a dançar sorrindo alegremente. Pia e Geraldo comentaram com os pais de Reina que nunca tinha visto Camila tão feliz. Viam-na tão envolvida com aquele rapaz, que previam que dali devia resultar algo mais sério, pois sabiam que a filha não era dada a devaneios. Deixaram recado a Reina que a avisassem que já iam. Ela depois que fosse com Reina, como já tinham combinado antes, como aliás, faziam em muitas festas quando acabavam por ficar juntas na casa de uma, ou de outra.

Reina, esteve a apreciá-los e realmente faziam um par sui-generis. Ele de fato preto, de porte muito elegante, conduzia-a pelo salão fazendo-a rodopiar elegantemente, e as suas pernas quase que se escondiam no branco, do vestido de Camila, que o envolvia, como já todo ele estava completamente envolvido por ela.

Fizeram um pequeno intervalo, e vieram até ao jardim conversar banalidades, o trivial. Ele tirara o curso noutra universidade de Espanha, mas tinha ido àquele baile acompanhar uma pessoa de família que cabara o seu curso nesse ano em Múrcia. Comentaram pouco mais que sobre o curso de cada um, e o que esperavam fazer no futuro, ela na área do Turismo e ele com o seu curso de engenharia química, dizendo Alberto que teria ainda que fazer uma pós graduação adaptada ao que seria a sua vida no futuro.

Camila estava demasiado envolvida para entender, prestar atenção fosse no que fosse, olhava-o pois parecia-lhe irreal, o seu coração dizia-lhe que aquele era com toda a certeza o homem que esperava há muito. E num relance, num piscar de olhos viu-se colada a Alberto, muito apertada a ele, sem fazer qualquer esforço para se soltar. Aquele corpo quente encostado ao seu sabia-lhe bem, dava-lhe conforto, fazia-a sonhar, levava-a para bem longe dali, e de repente nem deu conta que os lábios dele tocaram os seus, e que todo o seu rosto foi recoberto de mil beijos doces que ela recebeu como se já os esperasse há muitos anos.

Olhando-a muito nos olhos, Alberto poisou os seus lábios nos de Camila e beijou-a de forma que ela sentiu que ele era definitivamente o seu homem. Estavam apaixonados. Dentro dela tudo estremeceu, tocaram mil sinos, o corpo dela tremeu e ela desejou aquele homem, como nunca tinha desejado nenhum, e ambicionou que aquele momento se perpetuasse eternamente, pois naquele instante era extraordinariamente feliz e queria manter-se assim. Aquele bem-querer era bom demais para se perder e sair dali para fora, podia significar que vivia um sonho e isso não podia acontecer. Mantiveram-se assim unidos naquele enlevo quase até de manhã, entre beijos e abraços, mas apenas isso.
Não voltaram a entrar no salão e ali no jardim viram o amanhecer. Camila sentia-se apaixonada, mas assustada. Tinha medo de perder o seu amor. Já lhe pedia juras, que ele prometia cumprir, porque também ele se dizia fascinado e apaixonado por ela. Mas como podia ter-se apaixonado assim numa noite só.Tanto que não se pediam, nem davam mais que aqueles beijos quentes e fogosos.  Aquelas músicas que dançavam, em que os seus corpos colados pareciam um só, movimentando-se num ritmo sincopado e perfeito, pareciam tranportá-los a ambos para outra galáxia. Mas não sabiam muito um do outro, e o que sabiam era pouco, muito pouco para deixar Camila segura.

Quando se juntaram a Reina porque esta os procurou, para virem embora, Camila, vinha uma mulher diferente, cheia de amor, mas também cheia de dúvidas e receios.
Queria muito ficar com Alberto. Ele tinha-lhe prometido, que depois da pós-graduação seria inteirinho para ela. Iria escrever-lhe todos os dias. Telefonar-lhe e fazer-lhe visitas. Também ele estava apaixonado.


Antes de se separarem, deram mais de mil beijos. Naquela noite os beijos que deram, foram mais que todos os que Reina e Júlio já tinham trocado no seu namoro.


Fotos do Google

A escolha

Tinham percorrido praticamente toda a cidade e todos os vestidos que tinham encontrado apesar de muito bonitos não as tinham fascinado o suficiente para a ocasião. Acabavam por achar que lhes faltava algo, um pormenor simples que fosse mas que as encantasse.

Naquela tarde resolveram dar um passeio pela Glorieta, tradicional praça ajardinada junto ao Rio Segura, com zonas pedonais ocupando a maior parte da zona histórica.

Ao fundo, virada ao sol numa esquina da praça a montra de uma loja chamou-lhes a atenção. Vestidos de cerimónia, e de gala, bem colocados e de muito bom gosto, davam um toque de charme e elegância muito especial à montra da loja. Não entendiam como lhes tinha passado despercebida, talvez por não terem andado muito por aquela zona.

Entraram e ficaram fascinadas com o que viram. Provaram alguns vestidos e logo ali, Camila e Reina pediram que lhes reservassem dois vestidos até à tarde, combinando a hora a que regressariam com as mães, para estas darem a sua opinião, aprovarem ou não as suas escolhas, pagarem e fazerem todos os acertos necessários.
Estavam deslumbradas. Como seria possível terem percorrido toda a cidade, já terem passado por ali anteriormente e não terem reparado naquela loja, naquele sitio de passeio.

Os vestidos eram igualmente lindos. Descreve-los não era obra fácil, pois  apesar de belos mais fácil seria vê-los vestidos, pois pendurados numa cruzeta não diziam nem metade do que representavam. À tarde quando vestiram cada uma o vestido escolhido na presença das mães, ambas ficaram encantadoras.
Tendo em conta que ainda não tinham os cabelos nem os rostos arranjados, com as respectivas maquilhagens, estavam ambas deslumbrantes. As mães estavam orgulhosas das suas filhas e estas, só riam de felicidade, e de braços abertos bailavam como se já estivessem no baile. Na loja todos as olhavam a sorrir e a mãe de Camila comentou:
-Meninas cuidado, não estamos em nenhum salão de baile, ainda acabam por cair, contenham-se.
E riam as quatro de felicidade.

O vestido de Reina era rosado, sem costas, muito cintado até à zona da anca. Daí para baixo tinha folhos que gradualmente se sobrepunham e iam escurecendo, até aos pés. Os folhos eram todos plissados, dando voluma á saia, de um plissado muito fininho, que lhe dava muita graça, lembrando um pouco o estilo sevilhano, tendo um pouco de cauda. Sapato da cor do vestido, e como adorno uns brincos pendentes de ouro branco que a mãe lhe ofereceu, um fio muito simples com um pequeno “R”, a inicial do seu nome também em ouro branco, e uma pulseira na mão direita.

O vestido de Reina, que começava no peito num tom rosa claro, enfeitado com pequenas missangas, e pérolas, envolvendo o decote, as cavas, e o peito, acabava nos pés num tom rosa muito mais vivo e forte, sendo bem o seu género alegre e vistoso,  como era o seu estilo. Dentro dele, ela  parecia uma flor fresca e singela, se tirasse os sapatos e soltasse os cabelos, ou uma princesa real, se colocasse uma tiara e se pusesse em cima de uns saltos altos e colocasse um ar altivo e austero.

Camila com o seu vestido azul e branco, ficava sempre bela. Podia estar descalça ou calçada, podia soltar ou não os cabelos, que a sua beleza, dentro daquele vestido era sempre a mesma, quanto mais se olhava para ela, mais a sua beleza aumentava. O azul da seda e cetim do vestido bordado na parte de cima, que gradualmente se esfumava para branco até aos pés, deixando-lhe as costas e ombros a descoberto, davam-lhe um ar finíssimo e elegante e algo perturbador, realçando-lhe o azul dos olhos de uma forma desorientadora. Mais ainda, chegando à cintura o bordado feito de pequenos brilhantes cintilantes, marcavam-lhe a zona da cintura acentuando-a com o bordado até à anca, contornando esta elegantemente, moldava-lhe a  silhueta de uma forma perfeita e sensual, deixando depois da zona da anca sair por entre os espaços não bordados até aos pés, saias e nestes folhos, que faziam do seu vestido, uma excelência. Parecia uma princesa.

Camila completava o vestido, mas na verdade o vestido sem Camila não seria o mesmo.

Nos pés uns sapatos azuis de cetim, com uns lacinhos cintilantes. O cabelo apanhado, com alguns caracóis soltos, iria deixar a descoberto todo o colo e os ombros bronzeados de Camila, o que lhe daria imensa elegância. No pescoço, um fio com um pequeno coração com brilhantes, herança da avó, e nas orelhas uns brincos com uns brilhantes iguais aos do coração, tudo da avó, oferta da mãe, agora que acabara o curso.

As duas amigas estavam ansiosas pelo grande dia, e Camila nem imaginava o que a esperava. Tinham reservado uma mesa no salão também para os pais, e todos iriam juntos festejar a despedida do final dos  cursos de Camila e Reina.

Reina, além dos pais levava consigo um amigo muito especial, o seu namorado, Júlio, que estudava Medicina, com quem já andava há muito tempo, e com quem partilhava muitas realidades da sua vida. Estavam apaixonados, em breve quando Julio terminasse o curso casariam, e esperavam ficar pela cidade de Múrcia. Era uma realidade semelhante a este, que Pia e Geraldo gostariam para Camila, mas não podiam decidir o futuro da filha.

Camila ia  com os pais cheia de entusiasmo áquele baile, e muitas surpresas a aguardavam.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O baile de finalistas

Aquele casal era perfeito. Entendiam-se sempre muito bem, parecendo saber só de olhar, o que cada um pensava sem trocar muitas palavras. Esses dias de convivência harmoniosos, eram como pedras preciosas, que facilmente transmitiam a Camila uma simetria e educação perfeitas que ela absorvia, crescendo cheia de saúde e alegria, cada ano mais bonita e forte, num ambiente de calma e amor.

Recebendo dos pais essas dádivas de vida, Camila transformava-se numa mulher formosa e cheia de força interior, pronta para enfrentar o mundo, capaz de derrubar todos os obstáculos, preparada também ela, para reconhecer e aceitar o seu amor, o amor que com a adolescência ela começou a desejar para si.

Queria muito encontrar para si um homem que a amasse como ela merecia. Um amor calmo mas fogoso, que durasse toda a vida, como o amor que via os pais terem um pelo outro. Um amor que lhe aquecesse a alma, que só de olhar soubesse o seu sentir, que só de lhe tocar lhe acalmasse as angústias e receios. Camila era uma jovem sonhadora e como tal imaginava, idealizava muito, e como todas as jovens esperava pelo seu príncipe encantado. Já tinha tido alguns namorados, mas nada a que tivesse dado muita importância. A todos pôs defeitos, uns porque não estudavam, eram preguiçosos, outros porque não cumpriam o prometido, faltavam aos compromissos assumidos e ela não suportava isso, um outro namorado era estudioso demais nunca tinha tempo para sair com ela, mas de facto, nunca nenhum agitou a sério o seu coração, que se foi deixando ficar ainda que a mãe lhe fosse dizendo:

“Tanto escolhes que um dia ficas sem ninguém, mas que tinha este mocinho” e riam ambas, pois se a filha não gostava do jovem, que havia de dizer Pia que só queria ver a filha feliz.

Camila tinha na imagem dos pais, o exemplo de um casal perfeito. Resolviam profissionalmente todos os seus negócios sem grandes discussões. Reconhecia neles, quando algo corria menos bem, pois o silêncio aumentava e era mais profundo, mas mesmo assim, acabavam por encontrar forma de sem berros, nem melindres, dar o assunto por encerrado.

Orgulhava-se, de os ver passear pela cidade de mãos dadas, de irem ao cinema muitas vezes juntos, de fazerem compras juntos e sorrirem com isso, de fazerem coisas que pareciam ser do comportamento exclusivo de jovens, mas que lhes assentavam perfeitamente bem. Camila Imaginava-se muitas vezes assim quando fosse da sua idade. Não imaginava um homem para si como Geraldo, pois Geraldo era seu pai, e pai é pai não há como comparar, mas queria muito ter uma convivência especial com o que viesse a ser seu marido de forma que um dia também os seus filhos se pudessem orgulhar.

Tinha feito muitos amigos nas escolas que frequentou, mas fora na universidade que fizera mais amigos. Riena era a sua melhor amiga, aquela a quem contava tudo, mesmo aquilo, que muitas vezes nem para si mesmo queria admitir como verdade. Eram amigas desde o colégio, visto que eram vizinhas. Riena vivia quase portas meias com Camila. Os pais da amiga tinham um restaurante, famoso pelas sopas de peixe e outros pratos de peixe, não muito longe, na mesma rua enorme, onde os pais de Camila tinham a sua loja de antiguidades.
Desde miúdas era vê-las num troca-troca de casa, um dorme aqui ou acolá, por esta ou aquela festa, por aquela ou outra ocasião, e sempre com o consentimento dos pais de um e outro lado, porque ambas eram bem comportadas, nem tinham porque não dizer aos pais o motivo de quererem dormir em casa uma da outra. Assim iam trocando de casa em altura de festas, aniversários ou quando queriam simplesmente pôr a conversa em dia, como quem troca de camisa.

Passavam noites em claro, sem dormir a planear o futuro. Outras vezes, a comentar as festas de onde vinham e tudo o que se tinha lá passado.
Tinham sido tantas as festas a que tinha ido com Reina e outros amigos, que nem tinham conta, sem contar as idas a discotecas e bares, mas a festa que se aproximava era a mais importante de todas.

Acabara o seu curso de Turismo, e o baile de finalistas da universidade de final de curso era muito célebre, e iria marcar a sua vida para sempre. Seria também a sua despedida da vida estudantil e o início de uma nova vida, pois recomeçaria a sua vida na área laboral. Andava entusiasmadíssima, mais com a ideia do baile, que com o facto de deixar a vida académica, pois este facto ainda que lhe desse alegria pois terminava um curso para o qual trabalhara com muito empenho, o mesmo deixava-a um pouco nostálgica, porque dizia adeus a um tipo de vida que acabava ali e jamais voltaria. Era um sentimento partilhado por todas as amigas, uma alegria esfusiante, que lhes deixava alguma tristeza a ela, assim como a todas as suas colegas.

Ela e Reina, com a ajuda das mães decidiram comprar os seus vestidos juntas. Já tinham conversado bastante sobre o assunto mas ainda não tinham chegado a nenhuma conclusão.

Quantas mais revistas viam, mais confusas ficavam. Ainda não sabiam se deviam optar por um vestido comprido ou por um curto. Depois tinham ainda que decidir a cor.

Pia dizia à filha, que ela ficaria a mais bonita de todas com qualquer vestido, e naturalmente isso só confundia mais Camila.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A loja de antiguidades

Aquela loja de antiguidades, existente numa rua muito movimentada da cidade de Múrcia, capital regional e cidade universitária, junto do Rio Segura, era uma loja em que o casal Pia e Geraldo Vasquez tinham muito orgulho e empenhavam toda a sua vida.
Era procurada por muitos turistas, pelas peças raríssimas que possuíam, fruto do trabalho intenso de buscas feitas pelo Geraldo em viagens ao estrangeiro, ou simplesmente no seu próprio país.

Múrcia, é uma cidade bonita fundada pelos Mouros no ano de 825. O centro da cidade é uma praça chamada “Lá Glorieta”, com seus pontos turísticos assentes na catedral e também no castelo de Monteagudo.
 As suas igrejas de estilo Barroco, são além da sua catedral, pontos turísticos de visita obrigatória. A destacar o Presépio, que marca o inicio de uma das mais antigas tradições em Múrcia. Assim como as pontes, particularmente a Ponte Velha que une Múrcia ao Rio Segura. Tem ainda muitas praças, e cafés, lojas diversas a explorar, a sua universidade, um Auditório e centro de congressos, pois Múrcia não ficou acorrentado ao passado e evoluiu, crescendo em toda a sua dimensão, tanto no território como a nível intelectual e turístico. A cidade é especialmente animada na semana da Páscoa, quando a primavera arrasta com ela os tradicionais festivais e desfiles de rua do “Bando de la Huerta”
Múrcia é igualmente conhecida e famosa pelas suas praias e por pertencer a uma rota vinícola, e ainda pelas comidas gulosas e diferentes, típicas daquela província de Espanha. Os pratos típicos incluem, arroz de frango, arroz com coelho e caracóis, também o arroz com feijão e peixe, a sopa de peixe, assim como muitos tipos de produtos de peixe salgado ou peixe curado, não esquecendo as ovas e os peixes cosidos em óleo e vinagre. Isto foi só um pouco do muito que há para dizer acerca da zona onde esta família Vasquez vive, zona que não sendo muito rica em chuva, sobrevive pelo sistema de regas implementado.

O casal Pia e Geraldo Vasquez, juntamente com a sua pequenina Camila, tinham tudo para se sentirem felizes e realizados a viver naquela cidade, onde já tinham vivido as suas famílias.

Herdaram a casa onde tinham a loja de antiguidades dos pais de Pia, que ia muito bem. Pia, cuidava da casa e da loja com a ajuda de Giullia, uma velha empregada amiga da casa quase família, que vivia com ela desde o tempo de solteira. Giullia sabia de tudo um pouco. Tanto tratava das coisas da cozinha, como atendia um cliente na loja com todos o todo o poder de marketing, como tratava com carinho a menina Camila, quando esta chegava da escola. Giullia era fundamental naquela família, "sem ela nada feito", era o que Geraldo costumava dizer.

E assim, sempre que se deslocava em busca de peças raras, para depois vender na loja, ia tranquilo, pois as suas relíquias mais preciosas, a Pia e a filha Camila, deixava-as protegidas com Giullia, que ele considerava mais forte que um leão para as defender.

Pia e Geraldo desejavam para Camila um futuro risonho. Ela era uma filha amorosa e meiga, muito boa aluna e aplicada. Tinha muito boas notas e estava ainda com alguma dificuldades em saber o que gostaria de ser quando fosse grande, mas na loja gostava muito de se meter com os turistas e conversar com eles, fazer-lhe perguntas e eles, talvez por lhe acharem graça, entaboleiravam com ela muitas vezes conversas sobre a cidade, o que tinham visitado ou não, muitas vezes numa linguagem diferente do normal, por ela ser criança, que só eles entendiam.


Pia, começou muito cedo a dizer-lhe, que ela deveria estudar linguas e turismo, e isso martelou-lhe tanto na cabeça que de repente quando lhe perguntavam o que iria estudar na Universidade passou a dizer “Turismo”.


Para Camila estava decidido, depois do seu curso tirado, iria trabalhar em turismo na sua cidade ou noutra qualquer, mas era isso que queria fazer, e era isso que faria.

Um novo livro

Dei praticamente por concluído o livro que comecei em Fevereiro.

“Aqui vai o lenço”, só espera uma última revisão e depois vai ser avaliado por um professor da Universidade.

Veio-me hoje de manhã à ideia, que devia começar a escrever um outro livro, em vez de textos soltos, ou pequenas histórias que podem não levar a nada.

Se bem o pensei melhor o fiz. Nasceu em mim uma história que irá germinar e dará frutos, fiz algumas pesquisas e a base já existe. Espero que resulte.

Tinha que ser uma história de uma mulher e de um homem apaixonados, de uma família, de amores e desamores. Uma criança filha de uma família feliz, educada com carinho e bons princípios. Espanhola, de uma zona específica perto do mar, numa cidade bonita e histórica onde tinha muitos amigos, e nada lhe faltava.
Boa estudante tirou o seu curso de turismo e por vontade própria porque se apaixonou perdidamente, como dizia sempre á sua amiga predilecta, decidiu que queria casar e resolveu não trabalhar e ir viver com o marido para junto da família dele. Mas aí a sua vida veio a complicar-se.
Os pais vendedores de antiguidades queriam o melhor para a filha, e o melhor, era ela ser feliz. Entretanto o pai  morre e para a mãe o melhor caminho  para a filha, não era aquele casamento apressado.
Iria ficar muito afastada dela, a mãe acima de tudo não conseguia imaginá-la longe de si, sem trabalhar , sem ter os amigos, e para ela que trabalhara toda a vida achava um disparate o que a filha queria fazer.

Casar e ir enfiar-se em casa a tomar conta do marido e dos filhos, era um absurdo. E o curso que ela tirara, e a sua realização profissional?
A mãe não concordava com mulheres metidas em casa à  espera dos maridos: dizia-lhe a vida que esses casamentos nunca davam certo, ou os maridos se cansavam, ou as esposas se aborreciam e se fartavam da vida que levavam, mas esses casamentos nunca davam em nada, e agora a filha ia casar e queria ir viver para casa da família do marido e não ia trabalhar.
Isto é, estava a dizer adeus á sua liberdade. A filha não tinha a dimensão do passo que ia dar.

Casou, tudo como quis, como sonhou. Mas a viagem de lua-de-mel teve um senão que não contou à mãe por várias razões, e ao regressar à casa que a esperava, esta era fria e distante, muito clássica e a primeira impressão que teve arrepiou-a.
Não tinha nada a ver com a aquela casa sonharenga e aconhedora. Estava desiludida.


Teve 2 filhos e tentou ser feliz, apesar de ter descoberto no marido procedimentos que a magoavam. Um dia acaba por se revoltar e acabar com aquela relação que conclui ser mais uma doença que lentamente a destroi. O amor que sente pelo marido é grande, mas as suas atitudes de autoridade e violência sobre ela acabam por detiorar a relação dos dois que finaliza quando ela descobre que ele tem outra mulher.
Também ela um dia volta a ter um novo amor. Um amigo que já era seu confidente hà muito tempo, que desde muito cedo o marido lhe apresentara. Aquele com quem tinha longas conversas, e que lhe pintou o retrato com os filhos, e de quem o marido tinha demasiados ciumes.
Com este novo amor, vem verdadeiramente a ser feliz, a trabalhar na loja de antiguidades que era da sua mãe, que entretanto falecera, a realizar-se como mulher a todos os niveis.

Este seria o conceito da casa onde iria trabalhar:

Café/ leitura/ conversa/ antiguidades/exposição de antiguidades/galeria/música/

Conceitos que gradualmente iam crescendo na sua cabeça.
Agora era feliz, tinha uma casa que era sua, um homem que a comprendia e estimava verdadeiramente e ambos se completavam. Os de ambos filhos eram felizes, e eram como se fossem irmãos. Trabalhava e sentia-se realizada como nunca. Sentia-se livre e feliz na cidade onde nascera.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Senhor do Adeus

Dia 11  de Novembro,  o Senhor do Adeus, como ficou conhecido partiu de vez, deste mundo cruel, duro, egoista e cada vez mais  poluido de todo o tipo de coisas, em que vivemos.
À hora em que costumava dizer o seu olá , um simples adeus de mão, o seu adeus unico na cidade, cumprimentando respeitosamente com um aceno de mão, todos os automobilistas que passavam naquela zona, não voltaremos a ver nunca mais o Senhor do Adeus que gentilmente trocava de uma forma generosa e humana, acenos simpáticos com a sua mão e a dos automobilistas que ali passavam.
 Para uma comovente homenagem, (é o que julgo ter acontecido pois não sou de Lisboa), foram convidadas  pessoas a comparecer para no seu lugar(no Saldenha, junto ao Monumental) na sua hora habitual, fazerem  juntas um ultimo Adeus.
Singela homenagem, mas muito sentida, (actos que nestas situações ficam sempre bem, mas que ficam por aí). Vi pela televisão emocionada, eu, que também lhe disse Adeus algumas vezes, vivamente, quando, em deslocações a Lisboa aguardava a chegada, naquele momento entre as 22,30 e as 23h, para ver se o Senhor lá estava, e não consegui evitar que as lágrimas me visitassem, com aquele adeus intenso e sentido de toda aquela gente, numa mistura de perda do Senhor, e do seu Adeus.
Pois, que pena as pessoas não terem aprendido com este Senhor, que os dias correriam melhor,  todos seriamos mais felizes, se  todos ao passarmos uns pelos outros nos cumprimentassemos,  nos dissessemos Adeus, Olá, qualquer coisa menos mantermos entre nós uma total indiferença.
Isso não seria decerto um sinal de loucura, de pobreza, de doença, mas um sinal de que estamos vivos, de muita alegria, de fraternidade, de que estamos todos vivos neste mesmo mundo, que todos juntos, cada um a seu modo tem que preservar, para continuar a viver com um minino de qualidade o seu espirito.Devia  começar  por aí a nossa qualidade de vida.
O que pode ser mais terrivel para a humanidade que o desconhecimento dela própria. Subir e descer todos os dias no mesmo elevador e não dizer  sequer um olá aos vizinhos do mesmo prédio, anos seguidos.
João Manuel, seu nome, descansa agora calma e tranquilamente junto de sua mãe, vamos acreditar que sim. Um dia  esta partiu deixando-o triste e perdidamente abandonado, e a sua ausênsia  levou-o  a decidir que no final do  dia de solidão, por não ter mais ninguém,  passaria a ir dizer adeus aos automobilistas naquela zona do Saldenha, e por lá continou  a ir num ritual diário, sempre à mesma hora, durante anos, sempre igual a si,  até que no dia 11 de Novembro de 2010, chegou a hora do seu Adeus definitivo à esta vida terrena.
Abençoados todos os amigos, que o acompanharam e apoiaram e o ajudaram a passar algumas horas de solidão.

Descanse em paz Senhor do Adeus e obrigada pela comoção que me fez sentir, pelos acenos que me deu, desculpe também as pessoas não terem aprendido mais com o seu gesto. Quem sabe ainda venham a entender....
Lisboa, depois que partiu,  já está diferente e muito mais pobre...., o senhor deve saber. O Saldanha nucamais será o mesmo àquela hora.

 Na minha aldeia a cada hora do dia, adeus com a mão não dizemos muitas vezes, mas BOM DIA, BOA TARDE,  BOA NOITE,  ATÉ AMANHÃ,..... e outro tipo de cumprimentos, são trocados quando passamos uns pelos outro, de manhã até à noite, e isso faz-nos companhia.