domingo, 21 de novembro de 2010

A decisão

Nos dias que se seguiram, não foi fácil viver suportando a ausência de Geraldo, sabendo o motivo por que partira defenitivamente. Pia fechava-se em si, não querendo aceitar aquela sua nova forma de vida, tão sozinha, sem aquele homem que sempre fora a sua força, o seu pilar, e começava a ter dificuldade em dialogar com Camila.

Esta tinha tomado já a decisão de falar com a mãe e dizer-lhe o que desejava para o futuro.

Conversara muito com a amiga Reina, que não sabia muito bem que conselhos lhe havia de dar, pois se por um lado concordava com o facto de ela casar e ir viver com o marido, por outro tinha a certeza que Pia jamais iria deixar Múrcia para ir viver com ela. Pia era ainda muito nova, com 50 anos tinha um espírito muito independente e sempre vivera naquela cidade. Que faria ela noutra cidade onde não conhecia ninguém além de Camila. Mesmo para esta não iria ser fácil, mas Camila era jovem, facilmente faria amigos, os do maridoe outros surgiriam, e não ficaria só, mas Pia na situação de viuvez recente em que se  encontrava, estava muito frágil, incapaz de aceitar mudanças demasiado complicadas  na sua vida. Agora não conseguia imaginar como seria o seu futuro próximo, muito menos o  futuro mais longínquo.

Ao longo dos anos Pia e Geraldo tinham enveredado, como já era hábitual na familia, pelo caminho da compra e venda de peças de prata e ouro antigas, uma área onde os seus pais e avós já trabalhavam. Considerava-se uma antiquária por afinidade familiar, e trabalhava desde sempre nessa área com muito orgulho. Orgulhava-se de reunir porcelanas decorativas raras e outros objectos, quadros, e algumas jóias essencialmente de prata, muito trabalhada e explorada em Múrcia desde sempre.

Agora nem pensava no que fazer no minuto a seguir. Tinha que reorganizar a sua vida, o seu trabalho, a sua loja. Recomeçar o seu dia-a-dia.

Camila numa das vistas de Alberto, propusera-lhe ser ela a falar com a mãe primeiro sozinha, e depois conforme a reacção dela logo se veria.

Claro que sempre que eles estavam juntos, cada vez mais a despedida de ambos era mais apaixonada e ao mesmo tempo dolorosa, e Pia assistia a tudo isso em silêncio com o sentimento de que quem sabe que em breve também Camila partiria para constituir família. Estava destinada a viver só naquela cidade.

Fora assim que fora educada e assim seria, custava-lhe aceitar que tivesse que ser para tão longe. A filha ainda não lho dissera mas o seu coração de mãe adivinhava e há muito que sabia que Camila seguiria Alberto para onde ele a levasse. Tinha educado a filha a amar e respeitar a pessoa que esconhece para contituir um lar e ser o pai dos seus filhos e era o que estava a acontecer, não podia era prever que ele seria de tão longe, e ela estaria só.

Sentaram-se as duas e de uma vez só Camila disse tudo:

-Vou casar com Alberto aqui em Múrcia e Reina será minha madrinha. Resolvi que não vou trabalhar mais, e vou dedicar-me à minha nova casa, ao meu marido e aos filhos que tiver, como é hábito na família de Alberto. Depois de casada terei a minha lua-de-mel, uma viagem até ao Brasil, que sabes adoro conhecer há muito, e no regresso ficarei a viver com Alberto numa quinta perto da zona de vinhedos da família, Logroño,  onde trabalha, que é da família, em Rioja.
Sempre que puder virei aqui e espero que me visites amiúde. Terei um quarto permanentemente à tua espera. Podes, e essa seria a minha maior alegria, vir morar connosco. Alberto, eu, e a familia esperamos  por ti.

Pia ouviu tudo em silêncio e para ela se algumas coisas já as esperava ouvir, outras soaram-lhe menos bem aos ouvidos. Sabia desde o momento que a filha namorava com Alberto, que um dia ela iria com ele para essa província do Norte, mas agora sem Geraldo isso soava-lhe menos bem, mas tinha que aceitar.

Não gostava de saber, que a filha iria deixar de trabalhar e ficaria em casa a cuidar da família. Não concordava com essa atitude. Toda a vida trabalhara e fora independente, e conseguira conciliar ambas as coisas. Agora com a perda do marido teria que ganhar coragem e  recomeçar de uma forma diferente, mas a fazer alguma coisa para sobreviver também psicológicamente. E se nunca tivesse feito nada? Agora seria o caos na sua vida.
 E se um dia os dois se separassem, que seria de Camila sem emprego, nem experiência de trabalho?

Pia não podia concordar com a atitude radical da filha, mas já reparara que ela estava irredutível.

Limitou-se a responder:

-Sabes muito bem que não concordo plenamente contigo, mas se é assim que desejas a tua vida no futuro, muda-te e deixa de trabalhar.No teu lugar pensaria mais um pouco. Um dia não venhas chorar no meu regaço. As mulheres lutaram para sair de casa e ter os mesmos direitos que os homens a todos os niveis e também a nível laboral e tu vais enfiar-te em casa.
A paixão não dura sempre minha filha, o amor sim, e esse constrói-se dia a dia, e não é preciso estares permanentemente em casa. Alberto tem que sentir que precisa de ti, que lhe fazes falta, ter saudades do teu carinho, da tua presença, do teu toque, não ter-te ali em casa para se servir de ti quando lhe apetecer e desejar.
Achas que sou louca, eu sei. Só quero que sejas feliz. Eu ficarei por aqui, onde sempre vivi com o teu pai desde os meus 22 anos e onde fomos muito felizes.

Camila e a mãe nunca tinham falado tão sério. Pia estava a transformar-se numa mulher seca e amarga, mas também como poderia ser de outra forma se tudo lhe corria menos bem, e a filha na sua opinião estava a tomar um passo decisivo para a sua felicidade futura. Parecia que de um momento para o outro algo se tinha intrometido naquela familia exemplarmente tranquila.

Camila ouviu a mãe mas pensou que tudo iria correr bem. Na situação em que Pia estava não podia ter pensamentos positivos. Depois se veria o que fazer em relação ao facto de ela ficar ou não sózinha.
Os preparativos ficaram todos ao cuidado de Camila, pois Pia garantiu logo que não sentia energia, nem vontade para participar nesses preparativos. Com tempo e com a ajuda de Reina, nessa altura já casada, e portanto alguma experiencia na área, tudo organizou.
A escolha do local da boda, o menu, os convites, a igreja, a florista, o vestido, o ramo, as prendas dos convidados, o fotógrafo, a própria viagem de núpcias, e outros pormenores que foram surgindo, tudo ficou ao seu cuidado. Ao Alberto apresentava a conta do que tinha sido estipulado ser a parte dele a pagar. A lua-de-mel seria oferta dos padrinhos do noivo, o que era óptimo.

Alberto dissera-lhe que com a sua nova casa não precisava de se preocupar, alguém trataria de tudo e quando chegassem do Brasil ela verificaria como tudo estaria, e colocaria depois o resto a seu gosto.

Pia não era a mesma mulher, sentia-se derrotada, não tinha vontade de sair, nem de inovar, reorganizara a loja e limitava-se a vender o que tinha em stock e a receber um ou outro vendedor que aparecia com um outra peça para lhe mostrar. Entretanto observava com alguma amargura e estranheza o entusiasmo natural com que Camila tratava do seu casamento, culpabilizando-se pela  indiferença com que observava tudo isso, sem nenhuma energia para colaborar, e sair dessa sua apatia.
Continuava a viver em silêncio como outrora, mas este era um silêncio ferido, saudoso do seu bem amado Geraldo, não como outrora, que em silêncio lhe sentia ao lado o respirar.

Camila e Reina conseguiram que o casamento se realizasse no Santuário de La Fuensanta, que abriga a padroeira de Múrcia, a Virgem de La Fuensanta e está situada em pleno campo, local lindissimo,  a um curto passeio da cidade. É um templo estilo barroco e dali vê-se toda a cidade.

Com esta ultima conquista para o seu casamento estava muito feliz, mas nem isto fez alegrar o coração de Pia, para quem o futuro não se mostrava muito risonho. Casar no Santuário era muito importante para Camila devota da Virgem de La Fuensanta.

sábado, 20 de novembro de 2010

Geraldo

Aquela era a pior noticia que podia receber, depois dos momentos maravilhosos que tinha vivido com Alberto. De um momento para o outro esquecera tudo, caíra em si e sentiu um vazio que a percorreu como se tivesse acordado para outra realidade. O pai tinha falecido. Estava órfã, e nessa hora a mãe estava só e precisava dela. Estavam as duas sózinhas. Só se tinham uma à outra. Sem sentir arrependimento sentiu no entanto uma revolta por não ter estado ali mais cedo, e entrou num choro constante, sem saber o que fazer ou dizer,  sem mesmo conseguir arrumar os seus sentimentos.
Pia, a mãe estava inconsolável, nada parecia justificar o brutal acidente que vitimara Geraldo.

No dia anterior, ao final da tarde quando regressava a casa, vindo de Barcelona de uma viagem de negócios, por conta da casa de antiguidades, um carro, tendo provavelmente perdido a direcção, por motovo a esclarecer, despistou-se e embatendo em Geraldo, fez com que o seu carro saisse violentamente da estrada  e embatesse numa árvore. A força do impacto, provocou-lhe um choque a nível do crânio de tal forma violento, que segundo os médicos lhe provocou cerebralmente morte imediata.

Por mais tentativas de reanimação que tivessem sido feitas pela parte dos serviços de assistência aos acidentes na estrada, Geraldo não reagiu mais. O condutor que embateu nele, apesar de se ter despistado e ter andado às voltas dentro do carro e  ter embatido fortemente contra Geraldo, saiu com vida do acidente e estava hospitalizado.

A vida é muito cruel, e naquela hora Pia sentia que Deus a tinha abandonado. Não era justo ficar sozinha sem o seu companheiro de mais de trinta anos. Que iria ser dela agora. Que fazer sem o seu apoio constante, a sua ajuda, o seu amor, a sua companhia. Sem Geraldo ela não saberia fazer nada, nem gostaria de fazer mais nada. Tudo tinha perdido o interesse naquele dia.

No dia anterior, não fora Reina dizer-lhe que Camila provavelmente estaria com Alberto, Pia ficaria totalmente desorientada  sem saber  do paradeiro da filha. Todos a tinham procurado e ninguém sabia dela. Estavam incontactáveis. Fez-lhe tanta falta não ter Camila consigo ali naquele momento, mas Reina tranquilizara Pia, pois sabia que os amigos iam jantar e imaginou o final da noite. Não era normal Camila sair e não dizer onde ia, mas todas aquelas coincidências eram demasiadas para ser verdade. Pareciam todos estar a viver momentos anormais. De manhã, depois de Camila aparecer, não se falou mais no assunto.

Mãe e filha estavam tristes com a perda daquele seu homem, marido e pai extremoso, muito querido e amado. Não havia forma de entenderem e aceitarem aquele acidente estúpido, que de um momento para o outro lhes roubava uma pessoa querida, e vinha pôr entraves á continuidade normal das suas vidas. Era muito cedo para ele partir. Uma perda indiscutivelmente monstruosa.
Alberto permaneceu com Camila até ao final do dia, não se esquivando ao menor esforço para ajudar, mas tinha voo marcado, com assuntos pendentes para o dia seguinte e impossibilitado de adiar o voo, e como o funeral seria logo de manhã bem cedo, Camila achou que ele não precisava ficar. Já tinha ajudado o suficiente, orientando o necessário para tudo seguir em ordem no funeral, e depois o resto se faria. No dia seguinte, precisavam todos, sobretudo a mãe e ela, de descansar.

Quando aqueles dias intensos passassem, precisava pensar em todas as coisas, as boas e as terríveis que lhe tinham acontecido, que as más povoavam-lhe demais o pensamento, e não sabia ao certo o que fazer da sua vida. De um momento para o outro saira do paraíso e entrara num local estranho, desconfortável, para ela completamente desconhecido, que até áquele momento desconhecia e não gostava do sentimento que lhe causava.
Perder o pai dava-lhe uma sensação de solidão, de tristeza, mas também de vazio e abandono. Um sensação de perda ficara com ela, um amor que guardou no seu coração, mas nunca mais o teria na vida junto de si, para lhe dar um conselho ou o apoio de sempre. Nunca tinha pensado nisso antes, e isso causava-lhe uma dor enorme.

A mãe já lhe olhara para a mão e notara o brilho do solitário. Entendera a sua ausência, o seu desaparecimento no dia da morte do pai, temia agora ficar ainda mais só, mas a sua dor era bem maior nesse momento. Guardou esse assunto para falar mais tarde a sós com Camila.

Aquele dia chegou ao fim, não da forma como todos desejariam, mas chegada á hora do voo, que era sempre por volta da meia-noite, Alberto tinha que partir. Assim duas horas antes, por volta das  dez horas Alberto despediu-se de Camila. Pegou-lhe na mão onde na noite anterior lhe colocara o anel, beijou-a com ternura e disse:
-Minha querida mulher, adoro-te, volto depressa, porque não posso estar sem ti. Não, te esqueças que vamos casar e que a tua mãe estará sempre connosco, se for essa a sua vontade. Sei que agora a nossa vida deu uma reviravolta, mas tudo se arranjará. Quando voltar vamos conversar, sim ? Será que podemos? E não parou de a beijar.

Antes de sair, ainda lhe disse:
-“fico contigo, e vais comigo, amo-te”, colocando a mão no lugar do coração.
Alberto era um homem apaixonando, e um sedutor. Sabia como deixar uma mulher feliz, sabia o que lhe dizer em cada instante, como devia tocar-lhe, quando devia manter-se a seu lado em silêncio. Por isso quanto mais Camila o conhecia, mais medo tinha de o perder. Viu-o partir e naquele dia ficou mais triste que o habitual. Estava muito carente. Aquela noite iria ser bem diferente da anterior, em que se entregou mil vezes a ele e dormiu nos seus braços.
O mundo é extraordinário e complexo, dá voltas e reviravoltas, parece que brinca connosco, dá-nos num dia e em seguida tira-nos tudo.
Camila estava a aprender a viver. Tinha tido uma infância e adolescência fácil, tirara o seu curso e acabava agora o estágio.Conhecera o homem da sua vida e agora que estava decidida a casar e ir viver com o marido, tudo parecia correr muito bem. 
De um momento para o outro, perde o pai num brutal acidente de automóvel, sem o pai ter culpa nenhuma de tal acidente. Tudo se transforma e fica mais complexo, parecendo, nada ter solução.

Como devia fazer com Pia, ela não gostaria de saber que a filha não queria mais trabalhar depois de acabar o estágio? Como reagiria a mãe, à sua saída da cidade para ir viver com Alberto, que vivia tão longe?

Eram decerto muitas notícias desagradáveis para Pia, e Camila parece, que adivinhava que a mãe não devia concordar com nenhuma das suas decisões. Mas era o seu futuro que estava em causa.

Camila é pedida em casamento

Alberto  ficara enfeitiçado pela beleza daquela jovem moça simpática, sentindo de imediato por ela algo que o prendera, que o fizera jurar-lhe coisas que nunca tinha prometido a mais ninguém. Dissera-lhe na altura, que estudava Engelharia Química, mas de facto estava a acabar o curso de Ciências Químicas na Universidade de Barcelona, no departamento de Bioquímica , pois queria e precisava estar muito bem preparado para assumir o comando nalgumas áreas administrativas e não só, nos grandes vinhedos, herança que possuía de família,onde já trabalhava, que já vinda de gerações passadas, no norte de Espanha na zona de Rioja.

Alberto sabia que fizera mal em não contar a verdade a Camila, mas na altura em que a conhecera, não achara oportuno dizer-lhe que era de uma província bem do Norte do país, onde teria que vir a trabalhar, e a viver, estando a conhecê-la ali em Múrcia.
Isso iria mante-la afastada dele e naquela noite em que tudo estava a correr tão bem entre os dois, esse facto podia ser decisivo e afastá-los para sempre. Assim preferiu omitir esse facto da sua vida e deixá-lo para mais tarde.

Resolveu simplesmente viver aquele dia, dizer-lhe que estava a tirar um curso de engenharia química, que era quase o mesmo, e que pretendia estudar mais um pouco. Pretendia fazer uns cursos sobre enologia, e outros estudos relacionados com o desenvolvimento da quinta, portanto não mentiu muito, ao dizer que tinha que fazer uma pós-graduação. Realmente na universidade de Madrid onde estudava, gostaria de aprofundar os seus conhecimentos sobre as terras preferênciais para plantação de vinha, protecção e erosão do solo ou viticultura de Montanha, aprofundar os seus conhecimentos nem que fosse participando em palestras sobre manutenção de solo e regas, vigor e densidade dos cachos na produção e qualidade da uva e aprender alguma coisa sobre envelhecimento de stocks.
Os assuntos a estudar para manter em ordem e em produção máxima e de qualidade a vinha, eram infindáveis e ele achou que não devia estar naquela noite a falar, a preocupar e afugentar dele, com esses assuntos, a sua Camila.

O tempo diria o que lhes iria acontecer, e ele aos poucos contar-lhe-ia a sua vida, e o que pretendia fazer para o futuro.

Enquanto Camila começou um estágio, num hotel em Múrcia, em que pretendiam um cliente Administrativo em part-time com conhecimentos de inglês fluente, e licenciatura ou afins na área de turismo, Alberto em Madrid lutava com os livros  afincadamente, para terminar da melhor forma as ultimas cadeiras do seu curso, assistindo a todas as palestra que podia, somando conhecimentos que lhe seriam valiosos no futuro na orientação que teria que dar em investigações e novos projectos de trabalho na sua quinta de vinicultura de Rioja.

Aos poucos Camila soube de tudo, da lonjura da quinta, dos estudos, interesses e projectos de futuro de Alberto, mas isso não a demoveu nem um pouco de gostar cada vez mais dele. Nem mesmo o facto de Alberto só a visitar ao fim-de-semana a entristecia. Esperava pela chegada dele a Múrcia, cada dia que ele a visitava com o entusiasmo da primeira  visita, e o que a começava a consumir era ter que dizer aos pais que um dia partiria com Alberto para Rioja, pois queria viver com ele para sempre.
A mãe achava um exagero, tanto zelo, tanta paixão. Já temia um dia perder a filha de vista, mas se era o que ela queria que havia de fazer. No seu íntimo pensava que a filha não seria capaz de os abandonar.

Ao contrário de Rioja conhecida por ser a zona de Espanha onde se produzem os melhores vinhos, rosés e brancos, Múrcia sendo uma região mais pobre tinha um ou outro pormenor que fascinavam quem a visita, e assim Pia pensava, porque não ficavam por ali mesmo e ele viajaria até à quinta ?

Sempre que Alberto visitava Camila, passeavam-se de mãos dadas pelos bares e esplanadas viradas ao Sol, que na praça convidavam a um relaxe delicioso e um namoro terno envolto no cheiro de flores diversas, que no ar se distinguia naquele dia perfeitamente de flores de laranjeira.

Também na altura da semana santa, Aberto não faltou aos festejos. Procissões elegantes cheias de flores em que as esculturas saem dos museus, e à noite com a luz das velas e o facto de serem esculturas minuciosamente esculpidas, parece que se  tornam ainda mais reais. As esculturas representam os acontecimentos que levaram Cristo à crucificação, na altura da Semana Santa..

Camila e Alberto vivenciam todos esses momentos com imensa energia, aproveitando cada segundo que estão juntos para viverem o seu amor. Camila cada vez mais presa a Alberto não consegue ver-lhe defeitos, nem ele a ela. Estão cada vez mais  presos um ao outro. Ele esforçava-se para se juntar a ela sempre que podia, e de avião depressa chegava a Múrcia, mas Camila tinha muito medo de o perder, pois não lhe deviam faltar colegas bonitas a assedia-lo, era o que pensava constantemente.

Quando chegou o Natal estava decidida a falar-lhe no futuro. Queria estar mais tempo junto dele, e não só aos fins-de-semana como era habitual.

Mar Menor em Múrcia, nos meses de Dezembro e Janeiro é deslumbrante.
Camila tinha avisado Reina que nesse dia ia ter um jantar especial com Alberto a seu pedido.
Ambos foram passear um pouco antes, e naquele dia ao final da tarde o mar ainda se mantinha calmo e tranquilo como de manhã, as suas águas pareciam um espelho, transmitindo uma sensação de calma paz e tranquilidade.
Virados para o mar não foram precisas palavras, há muito que sentiam que aquele momento os aguardava.
Os seus corpos estavam sedentos um do outro. E por mais que se beijassem, todos os beijos não matavam o desejo que ambos tinham um do outro e de todos os outros beijos que ainda tinham para dar. Mantiveram-se unidos sem falar durante muito tempo, o coração de Alberto parecia dizer ao ouvido de Camila o que ela sabia há muito e que também era seu desejo.
 Um beijo longo, como nenhum outro invadia-a por completo. Ele pegou-lhe pela cintura, abraçou-a muito a ele, e encostada a ele, caminhou a seu lado sem perguntar para onde iam. Entram num prédio novo, num andar relativamente bem mobilado, numa avenida movimentada.

- É da minha prima-disse ele- com quem fui ao baile quando te conheci, não está cá. Está para Madrid, e eu tenho uma chave, que a casa é da família.
-Estranho, nunca me falaste dela, nem desta casa.

-E isso que importa. Hoje é um dia especial. Quero fazer-te uma pergunta muito importante, e não queria fazer-ta ali na rua, pois trata-se da nossa vida, e não queria esperar mais um segundo sequer:
- Queres casar comigo, ser a mãe dos meus, dos nossos filhos?
E continou:
-Há pouco perante aquela beleza, daquele mar, desejei afundar-me ali contigo, possuir-te ali mesmo, porque te amo. Iamos jantar logo à noite, mas não consigo resistir mais um segundo, a esses teus olhos azuis da cor daquele mar tranquilo, da cor do céu quando passeamos pela tarde, esses olhos onde me quero afundar, agora, mas primeiro queria fazer-te esta pergunta, porque te amo. Casas comigo?

E tirou uma caixinha preta do bolso, que abriu de onde retirou um anel com um grande solitário.

- Mas claro que quero, é que que mais quero desde o primeiro segundo que te vi. Porque também te amo.

Foi o que Camila respondeu meio trémula, meio emocionada, pois parecia que nem estava ali, estendendo o seu dedo anelar da mão direita onde Alberto colocou o anel, que lhe ficou lindamente.

De um momento para o outro o tempo deixou de contar, perderam a noção de tudo, e ambos comunhando daquele amor quente e arrebatador que os inebriava à tanto tempo, daquela mesma vontade sofrega de se mtrem a sede do seu amor, deixaram-se envolver de forma que as horas deixaram de existir, e nem deram conta que atrás do dia a noite também passou, e novamente chegou um novo dia.

E naquela casa  pela primeira vez Camila descobriu o que era ser amada por um homem, e até que ponto era amada e como amava Alberto. Sentiu que seria dificil conseguir viver sem aquele amor, sem aquele homem.

Ela estava decidida, iria casar logo que fosse possível e deixaria de trabalhar. Não sabia  como daria essa notícia aos pais, mas estava decidida, a partir desse dia, não seria capaz de viver sem Alberto. Ele tinha-lhe pedido isso, e ela far-lhe-ia essa vontade.

Para sua grande tristeza, ao chegar no dia seguinte de manhã á loja de antiguidades, tinha uma triste noticia à sua espera, Reina, a mãe Giullia, e  outros amigos tentaram localiza-la em vão. Geraldo tinha tido um violento acidente no dia anterior, quando regressava a casa numa das viagens que costumava fazer nas suas pesquisas de antiguidades e as tentativas para que ele sobrevivesse tinham sido em vão.

Não tinha sido fácil encontrar Camila, que sofria agora a perda do pai.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O amor de Camila

Para quê descrever bailes de gala, salões e festas? Todos se apresentam bem, tudo está bonito, reluzente, no seu melhor, e o mesmo aconteceu com o baile de Reina e Camila. Ambas dançaram até de madrugada e os pais também, mas cada um a seu modo. Os pais saíram um pouco mais cedo deixando-as com os amigos. Reina desapareceu com o Júlio do grupo perdendo-se a passar muito tempo pelo jardim. Mais tarde via-se muito agarradinha, ao fundo do salão, a dançar uma ou outra música com o seu amor, como se fossem um só. Via-se claramente que estavam verdadeiramente apaixonados.

Camila ao princípio da noite, dançou com um e outro amigo, não se esquivando a ninguém que a convidava. De todos eles, ia levando imensos elogios, e corando levava isso com graça, rindo e agradecendo não levando a sério nenhuma insinuação quase feita proposta.

Quando os elogios eram feitos por colegas que sempre tiveram uma grande vontade de namorar com ela e que naquele dia perante a sua beleza não resistiam a mais uma tentativa de se declarar, ela muito simpaticamente sorria simplesmente e nada dizia deixando-os desorientados. A esses, passava a evitá-los durante a noite. Tinha decido prender-se sómente quando o seu coração lhe desse um sinal.

Já depois da meia-noite, viu junto ao palco, parado a fitá-la um jovem alto, moreno, de olhar intenso. Estremeceu de alto abaixo, e naquele momento pensou que ia desfalecer. Aquele olhar parece que atravessou o seu, e no entanto ela estava para além do meio da sala. Já se sentia vigiada havia algum tempo, como que por um calor, ou uma luz forte e enérgica, que incidia sobre si, que não se via mas que ela sentia e  a perseguia como se fosse um foco que a iluminava, por cada canto da sala por onde passava: devia ser o seu olhar.

Quando o conjunto começou de novo a tocar, ele dirigiu-se a ela, que queria disfarçar a perturbação que ele lhe causava mas não conseguia, e sem se dar conta ao convite  gentil que ele lhe fez para dançar, esticando a mão, ela imediatamente respondeu,  entregando na mão dele a sua, aceitando de imediato o convite.

O contacto das suas mãos foi uma sensação que nunca tinha experimentado. A sua mão pequena e macia, perdeu-se na mão dele também aveludada e os dedos dele,compridos e elegantes, envolveram a sua mão de uma forma, que nesse aperto, ela se sentiu toda envolvida. Com o outro braço, ele abraçou-a pelas costas e amparou-a com a mão que a havia de conduzir a dançar pelo salão. Camila ficou assim capaz de lhe o olhar nos olhos negros, tão perto que lhe sentia o respirar quente, muito perto do seu nariz e isso dava-lhe uma sensação nova, que nunca tinha experimentado, e que lhe era  estranhamente agradável.
Tinha o cabelo negro, encaracolado e um pouco comprido, comparando com o corte que os amigos dela usavam, mas gostava dele assim.Gostava do cheiro dele, do seu toque, da maneira como falava, da sua simpatia, da gentileza, da sua delicadeza, e sem se dar conta estava colada a ele, a pensar que se pudesse ficava assim o resto da noite toda. Gostava daquele homem e de tudo o que que ela conseguia perceber nele. Devia estar a sonhar. Ela não era dessas coisas, mas nunca se sentira tão envolvidacom uma pessoa ao primeiro contacto.
Apertou-a mais um pouco junto ao seu peito, iam dançar um mambo. E ela deixando-se envolver só disse:

-Não sei dançar isto.
-Hum, sabes sim, encosta-te bem a mim,  apoia a tua cabeça na minha, fecha os olhos que eu conduzo-te, só tens que te deixar levar. É muito fácil. Vi-te dançar toda a noite e danças muito bem, faremos só o básico, e vamos dançar lindamente.
- Muito, bem assim farei.
E como ele disse, dançaram lindamente, os dois parecendo um só deslizaram pelo salão, e o corpo dela obedecendo à condução com muita sensualidade, pareciam que já dançavam há muito tempo.
Mas Camila sentia-se um pouco incomodada, não estava habituada a deixar-se seduzir daquela forma, mas aos poucos sem pensar, porque o seu coração mandava mais que a sua cabeça, foi-se deixando levar e nunca mais largou o ombro do jovem, que mais tarde lhe segredou ao ouvido que se chamava Alberto. Muito agarrados passaram a noite a dançar. E para quem dizia que não sabia dançar, Camila dançava muito bem, deixando-se conduzir como uma pena. Tangos, valsas, ritmos latinos, mas sempre com o mesmo fascínio um pelo outro. Alberto ficara encantado por Camila, e esta por ele.

Quando os pais saíram andavam eles a dançar sorrindo alegremente. Pia e Geraldo comentaram com os pais de Reina que nunca tinha visto Camila tão feliz. Viam-na tão envolvida com aquele rapaz, que previam que dali devia resultar algo mais sério, pois sabiam que a filha não era dada a devaneios. Deixaram recado a Reina que a avisassem que já iam. Ela depois que fosse com Reina, como já tinham combinado antes, como aliás, faziam em muitas festas quando acabavam por ficar juntas na casa de uma, ou de outra.

Reina, esteve a apreciá-los e realmente faziam um par sui-generis. Ele de fato preto, de porte muito elegante, conduzia-a pelo salão fazendo-a rodopiar elegantemente, e as suas pernas quase que se escondiam no branco, do vestido de Camila, que o envolvia, como já todo ele estava completamente envolvido por ela.

Fizeram um pequeno intervalo, e vieram até ao jardim conversar banalidades, o trivial. Ele tirara o curso noutra universidade de Espanha, mas tinha ido àquele baile acompanhar uma pessoa de família que cabara o seu curso nesse ano em Múrcia. Comentaram pouco mais que sobre o curso de cada um, e o que esperavam fazer no futuro, ela na área do Turismo e ele com o seu curso de engenharia química, dizendo Alberto que teria ainda que fazer uma pós graduação adaptada ao que seria a sua vida no futuro.

Camila estava demasiado envolvida para entender, prestar atenção fosse no que fosse, olhava-o pois parecia-lhe irreal, o seu coração dizia-lhe que aquele era com toda a certeza o homem que esperava há muito. E num relance, num piscar de olhos viu-se colada a Alberto, muito apertada a ele, sem fazer qualquer esforço para se soltar. Aquele corpo quente encostado ao seu sabia-lhe bem, dava-lhe conforto, fazia-a sonhar, levava-a para bem longe dali, e de repente nem deu conta que os lábios dele tocaram os seus, e que todo o seu rosto foi recoberto de mil beijos doces que ela recebeu como se já os esperasse há muitos anos.

Olhando-a muito nos olhos, Alberto poisou os seus lábios nos de Camila e beijou-a de forma que ela sentiu que ele era definitivamente o seu homem. Estavam apaixonados. Dentro dela tudo estremeceu, tocaram mil sinos, o corpo dela tremeu e ela desejou aquele homem, como nunca tinha desejado nenhum, e ambicionou que aquele momento se perpetuasse eternamente, pois naquele instante era extraordinariamente feliz e queria manter-se assim. Aquele bem-querer era bom demais para se perder e sair dali para fora, podia significar que vivia um sonho e isso não podia acontecer. Mantiveram-se assim unidos naquele enlevo quase até de manhã, entre beijos e abraços, mas apenas isso.
Não voltaram a entrar no salão e ali no jardim viram o amanhecer. Camila sentia-se apaixonada, mas assustada. Tinha medo de perder o seu amor. Já lhe pedia juras, que ele prometia cumprir, porque também ele se dizia fascinado e apaixonado por ela. Mas como podia ter-se apaixonado assim numa noite só.Tanto que não se pediam, nem davam mais que aqueles beijos quentes e fogosos.  Aquelas músicas que dançavam, em que os seus corpos colados pareciam um só, movimentando-se num ritmo sincopado e perfeito, pareciam tranportá-los a ambos para outra galáxia. Mas não sabiam muito um do outro, e o que sabiam era pouco, muito pouco para deixar Camila segura.

Quando se juntaram a Reina porque esta os procurou, para virem embora, Camila, vinha uma mulher diferente, cheia de amor, mas também cheia de dúvidas e receios.
Queria muito ficar com Alberto. Ele tinha-lhe prometido, que depois da pós-graduação seria inteirinho para ela. Iria escrever-lhe todos os dias. Telefonar-lhe e fazer-lhe visitas. Também ele estava apaixonado.


Antes de se separarem, deram mais de mil beijos. Naquela noite os beijos que deram, foram mais que todos os que Reina e Júlio já tinham trocado no seu namoro.


Fotos do Google

A escolha

Tinham percorrido praticamente toda a cidade e todos os vestidos que tinham encontrado apesar de muito bonitos não as tinham fascinado o suficiente para a ocasião. Acabavam por achar que lhes faltava algo, um pormenor simples que fosse mas que as encantasse.

Naquela tarde resolveram dar um passeio pela Glorieta, tradicional praça ajardinada junto ao Rio Segura, com zonas pedonais ocupando a maior parte da zona histórica.

Ao fundo, virada ao sol numa esquina da praça a montra de uma loja chamou-lhes a atenção. Vestidos de cerimónia, e de gala, bem colocados e de muito bom gosto, davam um toque de charme e elegância muito especial à montra da loja. Não entendiam como lhes tinha passado despercebida, talvez por não terem andado muito por aquela zona.

Entraram e ficaram fascinadas com o que viram. Provaram alguns vestidos e logo ali, Camila e Reina pediram que lhes reservassem dois vestidos até à tarde, combinando a hora a que regressariam com as mães, para estas darem a sua opinião, aprovarem ou não as suas escolhas, pagarem e fazerem todos os acertos necessários.
Estavam deslumbradas. Como seria possível terem percorrido toda a cidade, já terem passado por ali anteriormente e não terem reparado naquela loja, naquele sitio de passeio.

Os vestidos eram igualmente lindos. Descreve-los não era obra fácil, pois  apesar de belos mais fácil seria vê-los vestidos, pois pendurados numa cruzeta não diziam nem metade do que representavam. À tarde quando vestiram cada uma o vestido escolhido na presença das mães, ambas ficaram encantadoras.
Tendo em conta que ainda não tinham os cabelos nem os rostos arranjados, com as respectivas maquilhagens, estavam ambas deslumbrantes. As mães estavam orgulhosas das suas filhas e estas, só riam de felicidade, e de braços abertos bailavam como se já estivessem no baile. Na loja todos as olhavam a sorrir e a mãe de Camila comentou:
-Meninas cuidado, não estamos em nenhum salão de baile, ainda acabam por cair, contenham-se.
E riam as quatro de felicidade.

O vestido de Reina era rosado, sem costas, muito cintado até à zona da anca. Daí para baixo tinha folhos que gradualmente se sobrepunham e iam escurecendo, até aos pés. Os folhos eram todos plissados, dando voluma á saia, de um plissado muito fininho, que lhe dava muita graça, lembrando um pouco o estilo sevilhano, tendo um pouco de cauda. Sapato da cor do vestido, e como adorno uns brincos pendentes de ouro branco que a mãe lhe ofereceu, um fio muito simples com um pequeno “R”, a inicial do seu nome também em ouro branco, e uma pulseira na mão direita.

O vestido de Reina, que começava no peito num tom rosa claro, enfeitado com pequenas missangas, e pérolas, envolvendo o decote, as cavas, e o peito, acabava nos pés num tom rosa muito mais vivo e forte, sendo bem o seu género alegre e vistoso,  como era o seu estilo. Dentro dele, ela  parecia uma flor fresca e singela, se tirasse os sapatos e soltasse os cabelos, ou uma princesa real, se colocasse uma tiara e se pusesse em cima de uns saltos altos e colocasse um ar altivo e austero.

Camila com o seu vestido azul e branco, ficava sempre bela. Podia estar descalça ou calçada, podia soltar ou não os cabelos, que a sua beleza, dentro daquele vestido era sempre a mesma, quanto mais se olhava para ela, mais a sua beleza aumentava. O azul da seda e cetim do vestido bordado na parte de cima, que gradualmente se esfumava para branco até aos pés, deixando-lhe as costas e ombros a descoberto, davam-lhe um ar finíssimo e elegante e algo perturbador, realçando-lhe o azul dos olhos de uma forma desorientadora. Mais ainda, chegando à cintura o bordado feito de pequenos brilhantes cintilantes, marcavam-lhe a zona da cintura acentuando-a com o bordado até à anca, contornando esta elegantemente, moldava-lhe a  silhueta de uma forma perfeita e sensual, deixando depois da zona da anca sair por entre os espaços não bordados até aos pés, saias e nestes folhos, que faziam do seu vestido, uma excelência. Parecia uma princesa.

Camila completava o vestido, mas na verdade o vestido sem Camila não seria o mesmo.

Nos pés uns sapatos azuis de cetim, com uns lacinhos cintilantes. O cabelo apanhado, com alguns caracóis soltos, iria deixar a descoberto todo o colo e os ombros bronzeados de Camila, o que lhe daria imensa elegância. No pescoço, um fio com um pequeno coração com brilhantes, herança da avó, e nas orelhas uns brincos com uns brilhantes iguais aos do coração, tudo da avó, oferta da mãe, agora que acabara o curso.

As duas amigas estavam ansiosas pelo grande dia, e Camila nem imaginava o que a esperava. Tinham reservado uma mesa no salão também para os pais, e todos iriam juntos festejar a despedida do final dos  cursos de Camila e Reina.

Reina, além dos pais levava consigo um amigo muito especial, o seu namorado, Júlio, que estudava Medicina, com quem já andava há muito tempo, e com quem partilhava muitas realidades da sua vida. Estavam apaixonados, em breve quando Julio terminasse o curso casariam, e esperavam ficar pela cidade de Múrcia. Era uma realidade semelhante a este, que Pia e Geraldo gostariam para Camila, mas não podiam decidir o futuro da filha.

Camila ia  com os pais cheia de entusiasmo áquele baile, e muitas surpresas a aguardavam.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O baile de finalistas

Aquele casal era perfeito. Entendiam-se sempre muito bem, parecendo saber só de olhar, o que cada um pensava sem trocar muitas palavras. Esses dias de convivência harmoniosos, eram como pedras preciosas, que facilmente transmitiam a Camila uma simetria e educação perfeitas que ela absorvia, crescendo cheia de saúde e alegria, cada ano mais bonita e forte, num ambiente de calma e amor.

Recebendo dos pais essas dádivas de vida, Camila transformava-se numa mulher formosa e cheia de força interior, pronta para enfrentar o mundo, capaz de derrubar todos os obstáculos, preparada também ela, para reconhecer e aceitar o seu amor, o amor que com a adolescência ela começou a desejar para si.

Queria muito encontrar para si um homem que a amasse como ela merecia. Um amor calmo mas fogoso, que durasse toda a vida, como o amor que via os pais terem um pelo outro. Um amor que lhe aquecesse a alma, que só de olhar soubesse o seu sentir, que só de lhe tocar lhe acalmasse as angústias e receios. Camila era uma jovem sonhadora e como tal imaginava, idealizava muito, e como todas as jovens esperava pelo seu príncipe encantado. Já tinha tido alguns namorados, mas nada a que tivesse dado muita importância. A todos pôs defeitos, uns porque não estudavam, eram preguiçosos, outros porque não cumpriam o prometido, faltavam aos compromissos assumidos e ela não suportava isso, um outro namorado era estudioso demais nunca tinha tempo para sair com ela, mas de facto, nunca nenhum agitou a sério o seu coração, que se foi deixando ficar ainda que a mãe lhe fosse dizendo:

“Tanto escolhes que um dia ficas sem ninguém, mas que tinha este mocinho” e riam ambas, pois se a filha não gostava do jovem, que havia de dizer Pia que só queria ver a filha feliz.

Camila tinha na imagem dos pais, o exemplo de um casal perfeito. Resolviam profissionalmente todos os seus negócios sem grandes discussões. Reconhecia neles, quando algo corria menos bem, pois o silêncio aumentava e era mais profundo, mas mesmo assim, acabavam por encontrar forma de sem berros, nem melindres, dar o assunto por encerrado.

Orgulhava-se, de os ver passear pela cidade de mãos dadas, de irem ao cinema muitas vezes juntos, de fazerem compras juntos e sorrirem com isso, de fazerem coisas que pareciam ser do comportamento exclusivo de jovens, mas que lhes assentavam perfeitamente bem. Camila Imaginava-se muitas vezes assim quando fosse da sua idade. Não imaginava um homem para si como Geraldo, pois Geraldo era seu pai, e pai é pai não há como comparar, mas queria muito ter uma convivência especial com o que viesse a ser seu marido de forma que um dia também os seus filhos se pudessem orgulhar.

Tinha feito muitos amigos nas escolas que frequentou, mas fora na universidade que fizera mais amigos. Riena era a sua melhor amiga, aquela a quem contava tudo, mesmo aquilo, que muitas vezes nem para si mesmo queria admitir como verdade. Eram amigas desde o colégio, visto que eram vizinhas. Riena vivia quase portas meias com Camila. Os pais da amiga tinham um restaurante, famoso pelas sopas de peixe e outros pratos de peixe, não muito longe, na mesma rua enorme, onde os pais de Camila tinham a sua loja de antiguidades.
Desde miúdas era vê-las num troca-troca de casa, um dorme aqui ou acolá, por esta ou aquela festa, por aquela ou outra ocasião, e sempre com o consentimento dos pais de um e outro lado, porque ambas eram bem comportadas, nem tinham porque não dizer aos pais o motivo de quererem dormir em casa uma da outra. Assim iam trocando de casa em altura de festas, aniversários ou quando queriam simplesmente pôr a conversa em dia, como quem troca de camisa.

Passavam noites em claro, sem dormir a planear o futuro. Outras vezes, a comentar as festas de onde vinham e tudo o que se tinha lá passado.
Tinham sido tantas as festas a que tinha ido com Reina e outros amigos, que nem tinham conta, sem contar as idas a discotecas e bares, mas a festa que se aproximava era a mais importante de todas.

Acabara o seu curso de Turismo, e o baile de finalistas da universidade de final de curso era muito célebre, e iria marcar a sua vida para sempre. Seria também a sua despedida da vida estudantil e o início de uma nova vida, pois recomeçaria a sua vida na área laboral. Andava entusiasmadíssima, mais com a ideia do baile, que com o facto de deixar a vida académica, pois este facto ainda que lhe desse alegria pois terminava um curso para o qual trabalhara com muito empenho, o mesmo deixava-a um pouco nostálgica, porque dizia adeus a um tipo de vida que acabava ali e jamais voltaria. Era um sentimento partilhado por todas as amigas, uma alegria esfusiante, que lhes deixava alguma tristeza a ela, assim como a todas as suas colegas.

Ela e Reina, com a ajuda das mães decidiram comprar os seus vestidos juntas. Já tinham conversado bastante sobre o assunto mas ainda não tinham chegado a nenhuma conclusão.

Quantas mais revistas viam, mais confusas ficavam. Ainda não sabiam se deviam optar por um vestido comprido ou por um curto. Depois tinham ainda que decidir a cor.

Pia dizia à filha, que ela ficaria a mais bonita de todas com qualquer vestido, e naturalmente isso só confundia mais Camila.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

A loja de antiguidades

Aquela loja de antiguidades, existente numa rua muito movimentada da cidade de Múrcia, capital regional e cidade universitária, junto do Rio Segura, era uma loja em que o casal Pia e Geraldo Vasquez tinham muito orgulho e empenhavam toda a sua vida.
Era procurada por muitos turistas, pelas peças raríssimas que possuíam, fruto do trabalho intenso de buscas feitas pelo Geraldo em viagens ao estrangeiro, ou simplesmente no seu próprio país.

Múrcia, é uma cidade bonita fundada pelos Mouros no ano de 825. O centro da cidade é uma praça chamada “Lá Glorieta”, com seus pontos turísticos assentes na catedral e também no castelo de Monteagudo.
 As suas igrejas de estilo Barroco, são além da sua catedral, pontos turísticos de visita obrigatória. A destacar o Presépio, que marca o inicio de uma das mais antigas tradições em Múrcia. Assim como as pontes, particularmente a Ponte Velha que une Múrcia ao Rio Segura. Tem ainda muitas praças, e cafés, lojas diversas a explorar, a sua universidade, um Auditório e centro de congressos, pois Múrcia não ficou acorrentado ao passado e evoluiu, crescendo em toda a sua dimensão, tanto no território como a nível intelectual e turístico. A cidade é especialmente animada na semana da Páscoa, quando a primavera arrasta com ela os tradicionais festivais e desfiles de rua do “Bando de la Huerta”
Múrcia é igualmente conhecida e famosa pelas suas praias e por pertencer a uma rota vinícola, e ainda pelas comidas gulosas e diferentes, típicas daquela província de Espanha. Os pratos típicos incluem, arroz de frango, arroz com coelho e caracóis, também o arroz com feijão e peixe, a sopa de peixe, assim como muitos tipos de produtos de peixe salgado ou peixe curado, não esquecendo as ovas e os peixes cosidos em óleo e vinagre. Isto foi só um pouco do muito que há para dizer acerca da zona onde esta família Vasquez vive, zona que não sendo muito rica em chuva, sobrevive pelo sistema de regas implementado.

O casal Pia e Geraldo Vasquez, juntamente com a sua pequenina Camila, tinham tudo para se sentirem felizes e realizados a viver naquela cidade, onde já tinham vivido as suas famílias.

Herdaram a casa onde tinham a loja de antiguidades dos pais de Pia, que ia muito bem. Pia, cuidava da casa e da loja com a ajuda de Giullia, uma velha empregada amiga da casa quase família, que vivia com ela desde o tempo de solteira. Giullia sabia de tudo um pouco. Tanto tratava das coisas da cozinha, como atendia um cliente na loja com todos o todo o poder de marketing, como tratava com carinho a menina Camila, quando esta chegava da escola. Giullia era fundamental naquela família, "sem ela nada feito", era o que Geraldo costumava dizer.

E assim, sempre que se deslocava em busca de peças raras, para depois vender na loja, ia tranquilo, pois as suas relíquias mais preciosas, a Pia e a filha Camila, deixava-as protegidas com Giullia, que ele considerava mais forte que um leão para as defender.

Pia e Geraldo desejavam para Camila um futuro risonho. Ela era uma filha amorosa e meiga, muito boa aluna e aplicada. Tinha muito boas notas e estava ainda com alguma dificuldades em saber o que gostaria de ser quando fosse grande, mas na loja gostava muito de se meter com os turistas e conversar com eles, fazer-lhe perguntas e eles, talvez por lhe acharem graça, entaboleiravam com ela muitas vezes conversas sobre a cidade, o que tinham visitado ou não, muitas vezes numa linguagem diferente do normal, por ela ser criança, que só eles entendiam.


Pia, começou muito cedo a dizer-lhe, que ela deveria estudar linguas e turismo, e isso martelou-lhe tanto na cabeça que de repente quando lhe perguntavam o que iria estudar na Universidade passou a dizer “Turismo”.


Para Camila estava decidido, depois do seu curso tirado, iria trabalhar em turismo na sua cidade ou noutra qualquer, mas era isso que queria fazer, e era isso que faria.

Um novo livro

Dei praticamente por concluído o livro que comecei em Fevereiro.

“Aqui vai o lenço”, só espera uma última revisão e depois vai ser avaliado por um professor da Universidade.

Veio-me hoje de manhã à ideia, que devia começar a escrever um outro livro, em vez de textos soltos, ou pequenas histórias que podem não levar a nada.

Se bem o pensei melhor o fiz. Nasceu em mim uma história que irá germinar e dará frutos, fiz algumas pesquisas e a base já existe. Espero que resulte.

Tinha que ser uma história de uma mulher e de um homem apaixonados, de uma família, de amores e desamores. Uma criança filha de uma família feliz, educada com carinho e bons princípios. Espanhola, de uma zona específica perto do mar, numa cidade bonita e histórica onde tinha muitos amigos, e nada lhe faltava.
Boa estudante tirou o seu curso de turismo e por vontade própria porque se apaixonou perdidamente, como dizia sempre á sua amiga predilecta, decidiu que queria casar e resolveu não trabalhar e ir viver com o marido para junto da família dele. Mas aí a sua vida veio a complicar-se.
Os pais vendedores de antiguidades queriam o melhor para a filha, e o melhor, era ela ser feliz. Entretanto o pai  morre e para a mãe o melhor caminho  para a filha, não era aquele casamento apressado.
Iria ficar muito afastada dela, a mãe acima de tudo não conseguia imaginá-la longe de si, sem trabalhar , sem ter os amigos, e para ela que trabalhara toda a vida achava um disparate o que a filha queria fazer.

Casar e ir enfiar-se em casa a tomar conta do marido e dos filhos, era um absurdo. E o curso que ela tirara, e a sua realização profissional?
A mãe não concordava com mulheres metidas em casa à  espera dos maridos: dizia-lhe a vida que esses casamentos nunca davam certo, ou os maridos se cansavam, ou as esposas se aborreciam e se fartavam da vida que levavam, mas esses casamentos nunca davam em nada, e agora a filha ia casar e queria ir viver para casa da família do marido e não ia trabalhar.
Isto é, estava a dizer adeus á sua liberdade. A filha não tinha a dimensão do passo que ia dar.

Casou, tudo como quis, como sonhou. Mas a viagem de lua-de-mel teve um senão que não contou à mãe por várias razões, e ao regressar à casa que a esperava, esta era fria e distante, muito clássica e a primeira impressão que teve arrepiou-a.
Não tinha nada a ver com a aquela casa sonharenga e aconhedora. Estava desiludida.


Teve 2 filhos e tentou ser feliz, apesar de ter descoberto no marido procedimentos que a magoavam. Um dia acaba por se revoltar e acabar com aquela relação que conclui ser mais uma doença que lentamente a destroi. O amor que sente pelo marido é grande, mas as suas atitudes de autoridade e violência sobre ela acabam por detiorar a relação dos dois que finaliza quando ela descobre que ele tem outra mulher.
Também ela um dia volta a ter um novo amor. Um amigo que já era seu confidente hà muito tempo, que desde muito cedo o marido lhe apresentara. Aquele com quem tinha longas conversas, e que lhe pintou o retrato com os filhos, e de quem o marido tinha demasiados ciumes.
Com este novo amor, vem verdadeiramente a ser feliz, a trabalhar na loja de antiguidades que era da sua mãe, que entretanto falecera, a realizar-se como mulher a todos os niveis.

Este seria o conceito da casa onde iria trabalhar:

Café/ leitura/ conversa/ antiguidades/exposição de antiguidades/galeria/música/

Conceitos que gradualmente iam crescendo na sua cabeça.
Agora era feliz, tinha uma casa que era sua, um homem que a comprendia e estimava verdadeiramente e ambos se completavam. Os de ambos filhos eram felizes, e eram como se fossem irmãos. Trabalhava e sentia-se realizada como nunca. Sentia-se livre e feliz na cidade onde nascera.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Senhor do Adeus

Dia 11  de Novembro,  o Senhor do Adeus, como ficou conhecido partiu de vez, deste mundo cruel, duro, egoista e cada vez mais  poluido de todo o tipo de coisas, em que vivemos.
À hora em que costumava dizer o seu olá , um simples adeus de mão, o seu adeus unico na cidade, cumprimentando respeitosamente com um aceno de mão, todos os automobilistas que passavam naquela zona, não voltaremos a ver nunca mais o Senhor do Adeus que gentilmente trocava de uma forma generosa e humana, acenos simpáticos com a sua mão e a dos automobilistas que ali passavam.
 Para uma comovente homenagem, (é o que julgo ter acontecido pois não sou de Lisboa), foram convidadas  pessoas a comparecer para no seu lugar(no Saldenha, junto ao Monumental) na sua hora habitual, fazerem  juntas um ultimo Adeus.
Singela homenagem, mas muito sentida, (actos que nestas situações ficam sempre bem, mas que ficam por aí). Vi pela televisão emocionada, eu, que também lhe disse Adeus algumas vezes, vivamente, quando, em deslocações a Lisboa aguardava a chegada, naquele momento entre as 22,30 e as 23h, para ver se o Senhor lá estava, e não consegui evitar que as lágrimas me visitassem, com aquele adeus intenso e sentido de toda aquela gente, numa mistura de perda do Senhor, e do seu Adeus.
Pois, que pena as pessoas não terem aprendido com este Senhor, que os dias correriam melhor,  todos seriamos mais felizes, se  todos ao passarmos uns pelos outros nos cumprimentassemos,  nos dissessemos Adeus, Olá, qualquer coisa menos mantermos entre nós uma total indiferença.
Isso não seria decerto um sinal de loucura, de pobreza, de doença, mas um sinal de que estamos vivos, de muita alegria, de fraternidade, de que estamos todos vivos neste mesmo mundo, que todos juntos, cada um a seu modo tem que preservar, para continuar a viver com um minino de qualidade o seu espirito.Devia  começar  por aí a nossa qualidade de vida.
O que pode ser mais terrivel para a humanidade que o desconhecimento dela própria. Subir e descer todos os dias no mesmo elevador e não dizer  sequer um olá aos vizinhos do mesmo prédio, anos seguidos.
João Manuel, seu nome, descansa agora calma e tranquilamente junto de sua mãe, vamos acreditar que sim. Um dia  esta partiu deixando-o triste e perdidamente abandonado, e a sua ausênsia  levou-o  a decidir que no final do  dia de solidão, por não ter mais ninguém,  passaria a ir dizer adeus aos automobilistas naquela zona do Saldenha, e por lá continou  a ir num ritual diário, sempre à mesma hora, durante anos, sempre igual a si,  até que no dia 11 de Novembro de 2010, chegou a hora do seu Adeus definitivo à esta vida terrena.
Abençoados todos os amigos, que o acompanharam e apoiaram e o ajudaram a passar algumas horas de solidão.

Descanse em paz Senhor do Adeus e obrigada pela comoção que me fez sentir, pelos acenos que me deu, desculpe também as pessoas não terem aprendido mais com o seu gesto. Quem sabe ainda venham a entender....
Lisboa, depois que partiu,  já está diferente e muito mais pobre...., o senhor deve saber. O Saldanha nucamais será o mesmo àquela hora.

 Na minha aldeia a cada hora do dia, adeus com a mão não dizemos muitas vezes, mas BOM DIA, BOA TARDE,  BOA NOITE,  ATÉ AMANHÃ,..... e outro tipo de cumprimentos, são trocados quando passamos uns pelos outro, de manhã até à noite, e isso faz-nos companhia.

domingo, 14 de novembro de 2010

O gato Pincel

O gato Pincel, de rabo no ar que mais parecia um pincel a dar a dar, daí o seu nome, brincava e saltava á bola com o Manuel como se fosse um outro menino qualquer. Os dois no quintal da avó do Manuel, á sombra da grande árvore de Tília, passavam tardes a divertir-se entre risadas e os jogos de bola que lhes fugia e saltava constantemente  de um lado para o outro, como se a bola tivesse asas para voar, ou pernas para andar.

O Manuel atirava a bola para bem longe e o Pincel corria  derrapando e voltava de um fôlego só, empurrando com as patinhas e o focinho a bola, até chegar á beira do seu amigo.

E ora saltando, ora rolando, mais aqui mais acolá, ora mais depressa, ora mais devagar, ambos se iam divertindo muitas tardes depois do Manuel vir da escola e fazer os seus deveres. A  avó até costumava dizer-lhe: “Móis o gato, Manuel”, pára com isso, mas o gato não desistia nunca de perseguir a bola do Manuel, nem este de correr atrás do Pincel e da bola, e lá continuavam numa gritaria pelo quintal que fazia confusão, e avó  apertava as mão na cabeça de aflição de tanta gritaria do Manel, que ele sózinho fazia a festa dos berros, não ligando muito às recomendações constantes da avó.

Um dia o Manuel atirou a bola tão alto, que ela saltou e não veio cair no chão, ficou presa na árvore do quintal da avó…., na Tilia enorme que fazia sombra no quintal.

De repente ambos ficaram a olhar para o alto. Fez-se o silêncio.
Sem bola não podiam brincar, mas o Manuel não podia subir acima da árvore. A Tília era muito alta e ele estava mais que avisado pela avó e pela mãe, que não devia trepar nem àquela, nem a nenhuma árvore, pois isso era muito perigoso.

-“Mas para onde havia de ter ido parar o diacho da bola”, pensava o Manuel, que imaginou de imediato que o melhor era ir pedir ajuda ao vizinho, pois sem bola não tinha brincadeira, e pedir ajuda à avó estava fora de questão. Esta parecia devia era estar contente, poi sem bola, finalmente  fizera-se  silêncio no quintal para a sua cabeça ter sossego.
Mas o Manuel e o Pincel queriam muito continuar as suas brincadeiras com a bola. Precisavam de ajuda urgente.Manuel ia a sair do quintal quando de repente reparou que o seu gato Pincel trepava pela  árvore e de uma vez só susibiu até ao cimo, de forma que ele cá de baixo, até deixou de o ver.

_”Pincel, Pincel, onde estás, onde estás?”, e de repente a bola salta e volta a saltar, pulando uma vez, e outra, e ainda outra, e outra vez no chão.

Manuel nem queria acreditar, a bola estava no chão, e agora quem estava lá em cima, no meio daquela folhagem toda, preso bem no alto, era o Pincel, o seu amigo,  que num acto de coragem saltara a trepar pela árvore e agora aflito,  o olhava , coitado, com um olhar de medo e angustia. Será que iria ficar ali para sempre? Do sítio onde estava devia parecer-lhe difícil a descida, muito mais que a subida, que resolveu fazer sem consultar a opinião de ninguém, num acto de coragem destemida e amor à bola que queria para jogar com o seu amigo Manuel.

Se Manuel não precisou de ninguém para tirar a bola lá de cima agora precisava de ajuda para tirar o seu amigo do cimo da árvore. E desta vez sim, correu a pedir a ajuda do vizinho da avó, que depois de esclarecido, se prontificou a ajudar com uma escada e o seu jeito de equilibrista e socorrista nos bombeiros.

Quando chegaram ao quintal, já cheio de coragem, descia o Pincel devagarinho, de marcha atrás, patinha aqui, patinha acolá, como quem escolhe onde havia de pôr cada pata, sem querer muito olhar para o precipício, mas enfrentando pouco a pouco o medo e conseguido vencer essa barreira, como se quisesse vencer esse obstáculo para provar a si mesmo que era capaz de o fazer, pois, se subira valentão, também tinha que ser capaz de descer. De ramo em ramo andado e recuando até chegar ao tronco principal, não usando nem um pouco da agilidade da subida, que fez com uma perna às costas, mas usando de calma e confiança, aos poucos chegou ao tronco principal, e aí sentiu-se um rei. Depois, desceu com toda a imponência até ao chão. O Manuel estava orgulhoso do seu gato, que uma vez no chão se pavoneava de rabo esticado no ar de ponta afiada, tal qual a ponta de um pincel prontinha a dar a primeira pincelada na tela do pintor.

Até a avó tinha apreciado a mestria com que o Pincel tinha feito a decida, comentando entre dentes: “Mas porque atiraste a bola para tão alto, pobre gato”

O vizinho considerou o gato do Manuel um valentão.

Também nós nunca devemos desistir de algo, só porque temos medo. O medo não existe, nós é que o construímos na nossa mente.

Está na nossa cabeça e dentro de nós pensarmos se queremos atingir todos os nossos objectivos, pois se quisermos, nós conseguimos SEMPRE  atingir todos os objectivos. Somos capazes de tudo, basta querermos.
Todos temos dentro de nós uma força que desconhecemos, precisamos é darmo-nos uma oportunidade, e lutar sempre pelo melhor.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"As outras coisas"

As outras coisas, são simplesmente  palavras que juntas, mal escritas eu sei, expressam simplesmente as coisas que sinto.

As outras coisas, são pobres e singelas frases, que soltas, são as coisas que significam o que me invade todos os dias, a cada instante e que nenhum "deles" sabe nem sonha que coisas são.

São as coisas que vivem comigo, me acompanham, me atormentam, me confundem os dias, me envelhecem, são as coisas que sendo "coisas", coisinhas mesquinhas, por vezes banais, mal ditas, mal escritas já o disse, mas que preenchem os meus dias e me ajudam a resistir. Por vezes me confundem, me baralham, me fazem rir ou chorar, mas são as minhas coisas, as coisas que me fazem viver.

As outras coisas, são coisas insignificantes, reles, impróprias, incaracteristicas, sem nivel de escrita, indignas do papel, da caneta, do tempo perdido a escrevê-las,  pior que tudo isto talvez, impróprias de quem as ler, se houver alguem que as ouse ler, mas são coisas profundas, não falsas, são as coisas que me invadem, são as minhas coisas, reles na descrição, fracas, frágeis, porque  não existe nenhum escritor em mim, mas são como eu, simples, que nunca fui senão isso mesmo, um ser fraco, frágil, uma simples "coisa".

As outras coisas, são as coisas que sei escrever, pois não sei escrever coisas com nivel, e por mais que me esforce a escrever coisas, todas as coisas que escrevo resultam sempre em coisas semelhantes a todas as coisas que tenho escrito, que hão-de ser iguais a todas as coisas que hei-de vir a escrever, pois não vou desistir de escrever coisas, só porque as coisas que escrevo são simplesmente isso mesmo, "as outras coisas".
Sei que todas as coisas que escreverei serão eternamemente "as outras coisas", por que comecei por escrever uma coisa, uma coisa muito simples, a que se seguirão sempre outras coisas, e nada mais que outras coisas. 

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Aqui fica o lenço

Aqui fica o lenço

É notório que Isabel nunca deixou de lutar. Em silêncio apesar de todos os seus medos, passo a passo, foi gradualmente derrubando algumas barreiras, mas outras, muito complexas se foram erguendo á sua volta sem que ela consiguisse fazer nada para as derrubar.

A sua fragilidade escondeu-a por detrás do que continuou a ser o seu medo de muita coisa, pois não descobriu que dentro dela existia uma força enorme, uma coragem que ela desconhecia, e que um dia a faria  derrubar tudo o que a assustava.

Jogou uma luta entre si e todos os que precisavam dela para conseguir sobreviver, a viver sem amigos numa terra distante,  para se impor como mulher, como esposa, como profissional, como filha, e no final não conseguiu sentir-se realmente realizada, não,  como gostaria, mas resistiu, andou em frente e finalmente pensou que abraçou o lenço.

Encontrou muitos obstáculos, caiu e levantou-se muitas vezes, convencida que a felicidade seria um patamar pleno, possível de alcançar, como se fosse um sonho longínquo, que a cada passo via sempre um pouco mais distante, mas que parecia existir ao longe quando olhava e só lhe parecia  ter que caminhar e  estender um pouco mais os braços, fazer um pouco mais de esforço, para a alcançar, e a teria  logo ali mais à frente, como coisa sua...
 Engano seu.  A felicidade assim não existe, não em toda a plenitude ..., a felicidade vai e vem, são instantes que se vivem, muito intensos por vezes, mas breves, que ela aos poucos aprendeu a vivenciar.

Isabel nunca desistiu, e construindo as suas próprias defesas, desculpabilizando-se do sentimento que tinha de rejeição, escondendo o facto de viver constantemente dependente de algo ou de alguém, mas cada vez mais agitada, quem sabe pelo passado que teve, calou tudo isso, e não renunciou ao sonho de querer construir uma família feliz, calma, em que as pessoas pudessem escolher o seu futuro, rir, chorar, e adormecer todos os dias sem medo.

Isabel não deixará  de ser uma mulher cheia de temores e de receios, mas todos nós os temos, camuflados talvez, mas eles existem sempre algures dentro de cada um de nós.

Isabel tem neste ponto da história muito para viver, e nesta altura a sua independência ainda não existe. Ainda não consegue sair ou passear sem o apoio e companhia do marido.

Ela não sabe que um dia pode conduzir a sua vontade, o seu destino, que pode fazer tudo isso e muito mais como quiser, para onde quiser, escutando ou não a opinião de outros. Nesta altura não imagina ainda a força que tem dentro de si, não sabe que já  é capaz de ser independente, que pode decidir sozinha, não sabe que tem força e é capaz de vencer sozinha.
Isabel tem dentro de si valores que desconhece, bem escondidos, que o futuro se encarregará de lhe mostrar e  que um dia a vão levar  a ser muitas vezes escolhida e esquecer todas as vezes que se sentiu terrivelmente rejeitada.

Dentro dela há uma energia imensa que ela desconhece, e que a fará  andar sempre para a frente, e jamais a deixará recuar. Um dia ela escolherá o seu caminho, terá poder decisão, esquecendo quem a rodeia, os problemas dos outros, o caos do mundo em que vive, o pai e a mãe que não deixam de a preocupar e deciderá o que pretende para a sua familia, para o seu futuro, nem que seja a ultima coisa que faça na sua vida.

Um dia ela agarrou finalmente esse bendito lenço que lhe caiu aos pés  deixou-o voar para ele ir cair ainda não sabe onde, ou talvez o tenha ainda com ela e não tenha escolhido o par a quem o deitar. Isabel afinal, já comanda a sua vontade.

Aqui vai o lenço

Aqui vai o lenço

Isabel nasceu numa aldeia no seio de uma família humilde, no início dos anos 50.
O facto de ser mulher acaba por condicionar toda a sua vida, pois o pai, machista, transporta para ela, talvez sem se dar conta, e por causa de todo o ambiente de violência verbal e físico, que cria em casa, uma sensação de medo e angustia permanentes, fazendo dela desde pequena uma criança ansiosa, angustiada, perturbada, cheia de receios, vendo-se Isabel a cada instante rejeitada por todos, incapaz de sentir que em alguma circunstância alguém lhe possa achar interesse, graça, sentir por ela um pouco de amizade, carinho, ou seja que sentimento for.

À partida Isabel sente-se uma derrotada, uma criança sem interesse, mesmo burra, só porque é mulher, pensando que melhor sorte teve o seu irmão, porque é homem . Preocupa-se principalmente em proteger a mãe dos ataques de fúria do pai, e isso basta-lhe para se sentir feliz, (era o que ela pensava).

Isabel não tem identidade. Sente que apareceu no mundo por um acaso qualquer, talvez por um engano, quem sabe porque os pais queriam outro rapaz, ou por uma distracção.

 Definitivamente Isabel sente que não foi desejada.

Este sentimento de rejeição, acompanhou Isabel durante grande parte da sua vida.

O facto de ser mulher, condicionou-a desde pequena, diminuiu a sua condição de ser humano, porque além do já referido, lhe tirou todas as liberdades. Ela nunca fez aquilo que gostaria de ter feito. Sentiu-se presa indevidamente, vendo que outras jovens da sua idade saíam se divertiam, sem haver justificação para que ela não o fizesse.

Comparando com as avós, com as tias com as primas, ela e a mãe não tinham qualquer autonomia. Algo na sua casa não estava correcto, e ela nunca entendeu porque não lutou a mãe por esse direito.

Isabel é criada em silêncio, e para quem assiste ao seu crescimento na aldeia, pode parecer uma menina estimada, muito querida, a quem nada falta, mas esquecem-se as pessoas de olhar bem o rosto de Isabel que é triste e sombrio, de olhos e boca descaídos, devido à repressão, ao silêncio, ao medo constante em que vive.

Desde pequena que Isabel trocaria tudo, pela tranquilidade e paz na sua casa, mas o facto de pensar e reagir como tal, vai transformar todo o seu futuro, porque não é com isso que se deve preocupar uma criança no seu crescimento normal.

Se pudesse experimentar a sensação de que não ser rejeitada pelas colegas, seria a sua felicidade suprema, pois já lhe bastava sentir que em casa estava sempre em último plano. A tristeza maior sentia-a quando não tinha nunca  o privilégio de ser escolhida na roda do lenço, pelos pretensas amigas, e o lenço, também a ela a rejeitava, no jogo que ela mais gostava de brincar no recreio da escola que era o jogo" aqui vai o lenço aqui fica o lenço " , o seu jogo de eleição, o que mais ela ansiava.
Como poderia ela escolher alguém, se a ela nunca ninguém a escolhia?

Era como se Isabel estando na roda,  lá não estivesse. Ninguém a via, ninguém a conhecia, pois realmente ela não existia, não tinha identidade.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A força das mulheres

Não era fácil para a mãe de Maria, tentar fazer com que ela se comportasse como uma menina.
No cabelo, nenhum laço nem chapéu. No seu lugar um boné,sobre o cabelo cortado curto, era o seu preferido.
Por vontade dela, nunca vestiria saias nem vestidos, nem colocava laços nem fitas.
Isso incomodava-a, arrepelava-a, e os vestidos faziam-lhe uma espécie de alergia, faziam-na perder a paciência quando tinha que se sentar, ou correr à apanhada, como ela gostava de brincar. De calças sentia-se muito mais livre e indepente.
 Mas naquele tempo, que iria comentar toda aquela gente vizinha, por  ver  a miuda sempre de pernas tapadas de calças, que a mãe lhe fazia, como fazia ao irmão, para lhe proteger os joelhos das esfoladelas, a correr feita um rapaz atrás de uma bola, a trepar a árvores, a apanhar fosse o que fosse, ás escondidas, ou então em altas correrias de competição de bicileta ou outras, competindo com outros rapazes e com o irmão pouco mais novo,com  a bicicleta que era deste.

O facto de andar quase sempre de calças e vestida como o irmão, preocupava a mãe, que receava  o que a vizinhança podia comentar acerca do comportamento e das atitudes meio arrapazadas de sua filha. O povo quando não tinha que falar inventava, sempre fora assim. A mãe preocupava-se muito com ela, não com a escola, que aí ela era aplicada e boa aluna, mas com as brincadeiras que tinha, pois comportava-se de uma forma muito semenhante aos rapazes. Andava sempre a dizer-lhe que um dia quando crescesse queria ser bombeiro, ou então motorista, que queria conduzir pessoas  e apagar fogos, e isso para a mãe não era profissão para uma mulher, não naquela altura.
Que quizesse ajudar muito as  pessoas, muito bem, mas ter que o fazer a conduzir, sendo bombeira,  a mãe não concordava nem entendia , enquanto que para  Maria  isso era ponto assente.
Nunca se interessava por nada que fosse mais feminino, nem no vestir, nem no brincar, e a certa altura à medida que Maria crescia na idade e começava a impor as suas vontades de forma mais firme, a mãe começou a olhar para esse comportamento de outra forma. Estava farta das birras que a filha fazia para  vestir um vestido mais enfeitado ou colocar uns adereços femininos.
Esse era um dia de suplicio para as duas.
Mas porque não queria a filha um dia ser professora, ou cozinheira, ou modista, não tinha que ser bombeira !
A mãe chegou a pensar que Maria devia ter alguma doença, que algo nela não devia estar bem e um dia foi com ela ao médico e contou-lhe.
"-:Doutor, a minha filha não quer vestir saias nem vestidos, não gosta de usar laços, nem no cabelo nem na roupa. É boa menina, meiga e doce,  mas só brinca com rapazes, joga à bola, corre com eles, trepa às arvores, e não sei que fazer pois diz a toda a gente que quando crescer vai ser bombeiro, ou motorista.  Ando muito preocupada pois não a vejo tempo nenhum a brincar com as suas bonecas."
E a mãe de Maria falou ao médico e contou-lhe todas as suas preocupações e claro que o médico depois de a ouvir atentamente, lhe disse que a filha não estava nada doente.
Por vezes as crianças têm formas diferentes de reagir e  sentir as coisas que querem e desejam. Porque não havia a Maria de vir a ser bombeira, ou motorista, ou taxista, ou camionista, ou engenheira mecanica, ou seja o que for se se empenhasse e trabalhasse para conseguir atingir esse objectivo? Só dependia da vontade dela. E as brincadeiras que fazia não tinham nada de mal, assim como o uso das calças.
A caminho de casa, a mãe de Maria ia muito mais tranquila. Quem sabe, talvez aquela vontade passasse à filha, e senão, que mal faria, um dia a filha  vir a ser bombeira? Podia ainda vir a ser uma heroina, salvar pessoas e bens.
 Claro, todas as profissões são legitimas para homens ou mulheres, ambos têm os mesmos direitos perante a lei para exercer todos os cargos que existem, ainda  que se encontrem distribuidos de uma forma um pouco assimétrica( há cargos onde ainda existem muito menos mulheres  do que homens), ambos devem ter iguais competências para desempenhar os lugares que ocupam e como tal devem ser igualmente remunerados o que infelizmente não acontece.
Como tal ainda nem tudo está perfeito.

A flores e a Ana

Chamava-se Ana, era alegre e risonha e nem parecia uma menina, sempre de saia verde, a blusinha bem amarela florida e na cabeça um chapelinho amarelo, enfeitado por uma fita verde, e de lado um raminho de flores miúdas, mais parecia lembrar um pequeno girassol.

Brincava pela rua como os outros companheiros, meninos e meninas, mas tinha por hábito apanhar flores e oferecê-las à mãe, à professora ou aos amigos continuamente, na rua, na escola ou quando chegava a casa. A mãe sempre a repreendia:
“-Ana não passes a vida a mexer e a colher as flores dos jardins das outras pessoas, qualquer dia ouves o que não queres. Toda a gente tem o direito de ter os seu canteiros como bem quer, como tu e eu temos o nosso. Não te basta o nosso e as flores que lá temos ”

E continuava:
“-És uma criança , nasceste com a ideia que és uma flor, que elas são todas tuas, que só tu sabes cuidar delas. Vestes-te como uma flor, só pensas em flores, comes, vives e sonhas a pensar em flores, e um dia deste apanhas um valente castigo por roubares, quer dizer, devastares sem pedires autorização, todos os jardins das vizinhas. Quando cresceres isso tem que acabar, fica-te mal e até me envergonhas. Até parece que não te dou educação. Vais crescer e qualquer dia, tens que passar  vestir-te de outra forma. Tens que pensar no que te estou a dizer, ouviste ?

A Ana, tudo aquilo lhe entrava por um ouvido e lhe saía pelo outro. Tinha muito tempo para pensar o que vestir quando fosse grande, mas naquele instante tinha que olhar pelos jardins de toda a gente, pois muitos estavam nitidamente ao abandono se não fosse ela dar-lhe um jeito, regá-los,  cuidar deles, passar por lá de vez em quando.

 Ana, não sabia o que era aquilo que sentia, mas gostava bastante de brincar, de se entreter a mexer nos canteiros  das  flores, tratar delas, de ver se tinham sede, apanhar as que estavam murchas, falar com elas, pôr-lhe caninhas para crescerem direitas e não caírem para o lado quando o seu caule estava a crescer meio torto quase a partir-se e a morrer no chão antes de florir, ver como dia a dia iam crescendo como se fossem gente e depois sem resistir apanhá-las, porque sabia que no jardim acabariam por murchar, enquanto outras flores jovens começavam a rebentar.

Adorava fazer com elas ramos lindíssimos, que mais pareciam feitos por gente adulta e competente, com experiência e muito treino na área, tal era o engenho que aplicava, parecendo ter feito cursos e formações dada por peritos, mas realmente o seu saber vinha do seu instinto e do seu sentir. As suas mãos sem ela se dar conta faziam tudo o resto. O que fazia afinal não era nenhuma brincadeira era o chamamento do seu instinto a uma arte que sem saber ela tinha e desconhecia e a mãe também, e como ia cuidando desta forma um pouco do jardim e do de toda a gente, ainda que um pouco ás escondidas, as pessoas nem diziam nada, fazendo de conta que nem sabiam. Deste jeito tinham os seus canteiros mais cuidados, era um facto. Aquela terra era um sonho, um jardim completo, e toda a gente de vez em quando era presenteada por um ramo de flores oferecido pela Ana.

Vestia-se sempre como se fosse uma flor, ou de rosa, como as rosas, ou então de violeta como as violetas ou amores perfeitos e no chapéu a mãe porque ela era criança, e lhe achava graça, colocava-lhe no chapéu sempre um raminho a condizer. Não faltou muito que em breve lhe começassem a chamar na terra e arredores a Ana florista.
Andava sempre muito colorida e feliz também. Mas como podia acontecer o contrário se o que fazia, lhe dava tanta felicidade. Apesar das recomendações da mãe, ela lá se ia vestindo assim pois ainda era uma criança e de uma forma ou de outra a mãe também gostava de a ver com aquelaNão lhe foi difícil dizer á mãe o que gostaria de ser quando crescesse. Florista no jardim botânico da cidade.

Depois de fazer os estudos básicos, teve uma casa onde vendeu toda a espécie de flores, mesmo aquelas que são mais exóticas e só existem nos países longínquos. Fez ramos de noiva, de namorados, para oferecer em todas as ocasiões, enfeitou todas as festas, todos os locais possíveis e imaginários, ganhou algum dinheiro com todo este seu trabalho, estudou numa Universidade estrangeira, e mais tarde dedicou-se a investigar o cruzamento ou seja o casamento entre os pólenes de flores de cores diversas, para obter novas flores. Transformou-se numa cientista famosa na área da botânica.

Casou com um colega também um apaixonado pela área, cientista de botânica mas não especificamente das flores, mais de plantas exóticas.

Dizem os amigos que foram ao seu casamento que nunca viram coisa igual. O seu ramo de noiva e coroa do cabelo eram feitos de pequenas flores mimosas nunca vistas, suaves e de um colorido muito suaves faziam uma simbiose perfeita entre o belo e o mais que perfeito, a igreja enfeitada por ela mesma de véspera com a ajuda da mãe e de uma amiga, parecia um jardim de flores, simples, mas muito bem conjugadas e colocadas em muita abundância em todos os cantos e recantos.

Era o local onde no dia seguinte juraria para sempre amor eterno ao homem que escolhera para viver consigo todos os momentos de sua vida, e assim para qualquer lugar que olhasse gostaria de sentir que estava num jardim daqueles que tantas vezes cuidou e onde se sentia sempre tão feliz.

No espaço onde foi feita uma grande festa para a qual esteve convidada toda a terra e mais uma quantidade enorme de pessoas, todo o local estava tão bonito que parecia para quem viu, que não saber explicar se o sítio era assim mesmo natural ou se fora preparado para o efeito.

Arvores lindíssimas rodeadas de trepadeiras, pequenos, canteiros cheios de flores por todos os cantos, cascatas de água e repuxos refrescavam o ambiente e tornavam o espaço ainda mais acolhedor.

Longos relvados serpenteados por aureolas de flores e plantas várias que lhe davam um ar magnifico e soberbo. Claro que Ana, a um cenário já naturalmente belo juntou mais flores e mais flores de forma que tornou esse cenário muito mais belo ainda.


 
Desde menina que Ana foi feliz.

Sonhava que era uma   flor. Vestia-se como uma flor.

 Cuidou e trabalhou mil flores. Estudou flores.

Criou, porque investigou novas flores. Casou no meio flores .

 Viveu toda a sua vida no meio do que mais gostava. Flores.


Que bom seria se todos nós pudéssemos pelo menos sonhar.