domingo, 11 de julho de 2010

Aquela noite

Verdadeiramente nem sabia se estava nervosa, mas uma certa inquietude invadia o seu corpo de forma que a deixava num estado desatento constante, um tremor interno, que sem ser ansiedade, também não era normal, que ela conhecia-se muito bem.
Levou o dia numa azáfama, para trás e para diante, para resolver coisas relativamente importantes, que cada coisa tem um determinado valor, conforme o ponto de vista, e naquele dia tudo era relactivamente  importante para ela…

No final do dia estava cansada…
Arranjou-se o melhor que pode para a ocasião!
Afinal não ia acontecer nada de muito relevante, mas alguma coisa especial ia acontecer…
Naquela noite era a festa de  final de ano da sua escola de Salsa, e ela ia participar em duas coreografias, preparadas arduamente, nas aulas de dança que frequentara durante o ano.
Para além dos momentos de convívio, em muitas delas tinha vivido momentos de desânimo, de incapacidade, de desilusão, mas aos poucos com alguma insistência, lá foi indo, e  era chegado o momento porque todos, e também ela, esperavam com  nervosismo.

 Era  chegada a noite da festa final da escola e pôr  á prova todos os conhecimentos adquiridos, de se testar  a si própria, de comprovar que era capaz. Como gostava  de ser uma criança e ter alguém muito querido, lá ao fundo a ver tudo. Era pedir, sonhar o improvável!
Queria conseguir, tinha que conseguir, era muito importante conseguir…..
O salão encheu-se de gente, alunos da escola mas de locais diversos, de outras escolas, e outras pessoas e familiares! Ninguém lhe interessava especialmente, mas punham-na nervosa!

Chegada a hora de se vestir, mudou de roupa, e sem espelho para se olhar, nem sabia se estava bem ou mal. Imaginou a sua figura, pela amostra das colegas e nem se lembra de ver o conjunto, de  olhar e ver os homens e mulheres  juntos, o seu grupo, mas não, nem o marido olhou! …

Naquela altura estava inquieta e mais que isso, estava triste, e só, muito só…, no meio de tanta gente…!

Bem lá no fundo do seu coração, ainda que sabendo impossível, como  uma criança na sua primeira audição escolar, o seu sonho era que o improvável acontessesse, e estivesse  alguém  muito querido  a vê-la!
Uma pessoa só, uma só  pessoa ali estivesse para a olhar, para apreciar o seu trabalho, e quem sabe depois a dizer-lhe baixinho, estiveste bem, estiveste mal, podias  melhorar, não gostei de  te ver, estavas ridicula…, deves  continuar…!

Quando entrou no salão assim vestida, sentiu-se menos bem, diferente, deixou de ver gente, de ouvir som, as pernas ficaram hirtas!
O  seu corpo parece que gelou.
Mil vezes tinha dançado aquilo e pela ultima vez tudo se esfumara, não valia a pena!
Ela sabia dançar aquilo muito bem, então para quê fazê-lo novamente !
Não valia a pena! E já alinhada para dançar, o seu corpo dormente não correspondia…
Mas o que se passava?
 Parecia uma criança com birra, teimosa e empertigada, e sem reflexos simplesmente ficou parada!

Naquela sala, soube mais tarde, olhando atentamente o grupo, estava  num canto o jovem director da escola, e deve ter sido esse seu olhar atento, que num segundo apenas, foi mais forte que a sua vontade e nesse mesmo segundo a  fez responder ao puxão do seu par. E sem pensar ela mexeu as pernas, e girou, não como uma borboleta , não com a ligeireza que gostaria, mas de forma que nem ela própria soube como,  mas girou, talvez mais como um catavento...

A sensação que  é que não tinha dançado nada, que fizera tudo errado. Sabia fazer  muito melhor, nem sequer se lembrava onde tinha pisado, que passos tinha dado. Tinha investido tanto nesse seu primeiro trabalho, e dera tudo errado! Ainda estava anestesiada! E nenhum deles vira nada !
 Em nenhum canto da sala nenhum deles !
 E quem disse que os improváveis acontecem?
 Não ali, nem para ela, que isso era bom demais para ser verdade!  E ela, que já tem idade para viver com os pés bem assentes na terra, devia deixr de sonhar!!!!
Não conseguiu evitar, que as lágrimas rolassem em abundância pelo seu rosto, sem alarido, mas      rapidamente teve que as engolir, porque tinha outra actuação para fazer e tinha que aproveitar o efeito da anestesia, vestir-se sem espelho e juntar-se ao grupo….

Parece que não correu mal, é o que dizem, mas por dentro ficou-lhe o gosto amargo do que teve que engolir…

Afinal aquilo não era nada importante, apenas uma festinha de final de ano, de dança, imaginem....de dança,  quem é que ia dar importância a uma festinha dessas... se em iguais circunstâncias ela teria feito o mesmo...
E ainda dizem que os improváveis acontecem...

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