-Posso entrar avó?
-Sim entra Ruizinho.
-Que bom a avó estar aqui hoje, pois queria tanto vir aqui para ver bem a menina e pegar-lhe um bocadinho ao colo. Posso Helena, antes que alguém veja e vá dizer aos meus pais.
-Mas dizer aos teus pais o quê?
-Não ligue minha senhora, que os senhores não querem que ele se perca por aqui, pois ele pensava que Luzinha era sua irmã e que iria brincar com ela, mas o senhor dom Manuel proibiu, até porque ele é rapaz, e não deve brincar com meninas. Eu entendo, e não levo a mal.
-Tontearias do meu filho. Senta-te aí Ruizinho, vá segura bem, só hoje. Vês é levezinha e parece que se ri para ti. É engraçado Helena, que por vezes quando olho a tua menina, parece que me faz lembrar o Rui Manuel quando ele nasceu, pois ele também era assim pequenino e tinha um rostinho muito parecido. Parece que têm algo muito parecido, mas não sei o que é.
-Os bebés pequeninos são todos parecidos. Vá, por hoje já chega Ruizinho, gostaste de ter a menina ao colo?
-Gostei, é linda e tão pequenina, parece uma princesinha. Sabes Helena, gostava mesmo de ter um irmãozinho. Luzinha podia mesmo ser minha irmã, mas como não é paciência.
-Não podemos abusar, porque se o pai disse para não vires aqui, não lhe deves desobedecer, mas de vez em quando, acho que até ele vai deitar o olho para ver uma coisinha destas, tão linda a crescer.
Helena iria suportar aquele tipo de conversas, deixando que toda a gente pensasse que Luzinha era sua filha de verdade e de Fernando só ali naquela casa, porque mal pudesse sair dali um dia, o mundo saberia que Luzinha era somente sua filha e de mais ninguém. Ela haveria de encontrar maneira de descobrir um dia o paradeiro do verdadeiro pai, caso ele ainda estivesse vivo, mas isso estava tão distante que por enquanto, ia pensando unicamente nos biberões, nas consultas ao médico com a menina e em como seria depois do Verão o início dos seus estudos. Queria tirar um curso pois desejava muito poder vir a trabalhar num escritório, e havia de conseguir.
Quanto às coisas que a dona Joaquina dizia, dava-lhe vontade de rir, porque decerto a senhora teria razão, porque na verdade a mãe era a mesma. Os laços de sangue são muito fortes e de facto aquela menina era irmã de Ruizinho, e quem sabe por isso ele se sentia tão atraído pela menina, e a senhora os achava parecidos. Por estas e por outras um dia quando Helena tivesse o seu curso tirado ela já sabia o que iria fazer.
Fotos do Goggle
A História de uma menina triste, franzina e assustada, que só procurava a paz, amar e ser amada!
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quarta-feira, 20 de abril de 2011
O pai
Daí a um pedaço de tempo ambos com cara de comprometidos compareceram na biblioteca para ouvir o que o patrão tinha para dizer. Naquela casa todos estavam embrulhados numa teia que ninguém tinha ajudado a construir, e Helena por breves instantes já se arrependera de ter colaborado tanto com a patroa, mas agora já era tarde, era o que pensava. Se os seus pensamentos falassem, todos ali na sala ficariam abismados com o que eles estavam a dizer, e manteve-se em silêncio à espera do veredicto do senhor dom Manuel que era um ditador.
-Fernando, devias saber que Helena estava grávida, pois todo o homem sabe quando deixa uma mulher grávida.
-Mas senhor…
-Não me interrompas, que ainda não cheguei ao fim. Bem vos vi aos beijos e abraços pelos cantos do jardim, e foi no que deu. Amanhã vais registar a criança no teu nome e no da Helena que essa criança tem que ter nome de pai e de mãe, e começam a pensar quando hão-de juntar os trapinhos, pois aqui só ficam a morar enquanto estiverem solteiros, Depois de casados, trabalho ainda vos dou mas morada não pelo menos a Helena que é quem cá mora.
-Mas senhor dom Manuel, eu não sou o pai dessa criança.
-Deves estar doido rapaz. Andas com a rapariga, abusas dela, e depois dizes, que não és o pai. Eu bem disse desde que meti aquela rapariga cá em casa, que a coisa ia dar para o torto. Era jeitosa demais. Ganha juízo, e assume de uma vez os teus actos, e sai daqui que nem te quero ver mais.
Helena não disse uma nem duas, mas tinha a certeza que a ela ninguém a ia colocar para fora daquela casa enquanto não tivesse condições de escolher outro sítio digno para morar com a sua filha. Até lá porém, faltava muito tempo. E uma coisa tinha ela a certeza não ia casar com Fernando nem com ninguém nos tempos mais próximos.
Celeste como de costume ouviu um pouco da conversa e quando o Fernando estava para sair pela cozinha falou com ele.
-Era o que me faltava dar o nome a uma filha que não é minha.
-Mas não é mesmo tua? Estás doido, então de quem é? Nesta casa parece que virou tudo doido.
-Não sei, nem me importa. Olha e queres saber que mais. Amanhã já cá não apareço. Tenho um amigo que anda à procura de emprego de motorista. Vou mandá-lo à fábrica falar com o patrão, e vou partir, com uns amigos para França. Partem este fim-de-semana pela calada da noite. Vou com eles e seja o que Deus quiser. Havemos de nos dar por lá bem, como muitos que por lá estão já se dão, e livro-me disto tudo. Depois se quiseres, podes contar à Helena, ou não contes, tanto se me dá, que ela também foi uma ingrata comigo.
-Olha, sabes que mais, não entendo nenhum de vocês, juro à fé da minha alma. Mas se queres ir vai com Deus que perante o patrão farei de conta que não sei de nada, achoo melhor.
E o Fernando saiu, naquele ano de 1965 daquela casa, para fugir de vir a ser pai à força de uma criança de quem realmente não era pai.
Na manhã seguinte Fernando não apareceu, e por mais que o senhor dom Manuel esperasse, acabou por desistir chamando um táxi porque o Fernando nunca mais chegou.
O patrão chamou-lhe todos os nomes possíveis piores que irresponsável, e deu ordens para que Helena fosse de táxi registar a menina, com a Celeste, atribuindo-lhe o nome de pai incógnito, que lhe ficaria muito melhor que o nome de um pai cobarde. Por enquanto Helena ficaria ali em casa, e depois se viria o que fazer coma as duas. Mas Helena sabia que ficaria o tempo que lhe apetecesse.
Para Justina, todos estes acontecimentos eram facadas que despedaçavam aos poucos o seu coração. Estava cada dia mais fragilizada, sem saber o que dizer, fazer ou pensar. Todas as suas energias, tinha-as consumido para chegar até ali, e agora estava decida a deixar o barco andar com a corrente e deixar-se ir para onde ele a levasse. Sentia-se impotente para fazer fosse o que fosse, e qualquer coisa que acontecesse tudo seria menos mau, que tudo o que tinha vivido até aqueles dias. Estava esgotada, exausta de tanta mentira, de tanta perda, te tanto desamor, de tanto vazio de tanto desengano. Não tinha nada, nem ninguém, mas também, ninguém nem nada lhe importava.
De vez em quando lembrava-se de Henrique e nada lhe tirava da cabeça que ele com certeza tinha falecido numa guerrilha no Ultramar como acontecia a tantos. E nem procurou informar-se. Foi-se instalando nela esse sentimento de perda e de luto, e uma vontade de não fazer nada, senão procurar o refúgio da biblioteca, a leitura e a escrita, que se misturavam com uma tristeza que lhe ia crescendo dentro do peito cada dia mais um pedaço. Nem a menina procurava ver. Também o filho, Manuel lhe iam retirar de casa, e a sogra que estava para chegar, apesar de ser muito boa senhora, deixava-a falar como se fosse uma música suave que lhe embalava os sonhos e a ajudava a adormecer, porque lhe contava sempre as mesmas histórias.
Fotos do Goggle
-Fernando, devias saber que Helena estava grávida, pois todo o homem sabe quando deixa uma mulher grávida.
-Mas senhor…
-Não me interrompas, que ainda não cheguei ao fim. Bem vos vi aos beijos e abraços pelos cantos do jardim, e foi no que deu. Amanhã vais registar a criança no teu nome e no da Helena que essa criança tem que ter nome de pai e de mãe, e começam a pensar quando hão-de juntar os trapinhos, pois aqui só ficam a morar enquanto estiverem solteiros, Depois de casados, trabalho ainda vos dou mas morada não pelo menos a Helena que é quem cá mora.
-Mas senhor dom Manuel, eu não sou o pai dessa criança.
-Deves estar doido rapaz. Andas com a rapariga, abusas dela, e depois dizes, que não és o pai. Eu bem disse desde que meti aquela rapariga cá em casa, que a coisa ia dar para o torto. Era jeitosa demais. Ganha juízo, e assume de uma vez os teus actos, e sai daqui que nem te quero ver mais.
Helena não disse uma nem duas, mas tinha a certeza que a ela ninguém a ia colocar para fora daquela casa enquanto não tivesse condições de escolher outro sítio digno para morar com a sua filha. Até lá porém, faltava muito tempo. E uma coisa tinha ela a certeza não ia casar com Fernando nem com ninguém nos tempos mais próximos.
Celeste como de costume ouviu um pouco da conversa e quando o Fernando estava para sair pela cozinha falou com ele.
-Era o que me faltava dar o nome a uma filha que não é minha.
-Mas não é mesmo tua? Estás doido, então de quem é? Nesta casa parece que virou tudo doido.
-Não sei, nem me importa. Olha e queres saber que mais. Amanhã já cá não apareço. Tenho um amigo que anda à procura de emprego de motorista. Vou mandá-lo à fábrica falar com o patrão, e vou partir, com uns amigos para França. Partem este fim-de-semana pela calada da noite. Vou com eles e seja o que Deus quiser. Havemos de nos dar por lá bem, como muitos que por lá estão já se dão, e livro-me disto tudo. Depois se quiseres, podes contar à Helena, ou não contes, tanto se me dá, que ela também foi uma ingrata comigo.
-Olha, sabes que mais, não entendo nenhum de vocês, juro à fé da minha alma. Mas se queres ir vai com Deus que perante o patrão farei de conta que não sei de nada, achoo melhor.
E o Fernando saiu, naquele ano de 1965 daquela casa, para fugir de vir a ser pai à força de uma criança de quem realmente não era pai.
Na manhã seguinte Fernando não apareceu, e por mais que o senhor dom Manuel esperasse, acabou por desistir chamando um táxi porque o Fernando nunca mais chegou.
O patrão chamou-lhe todos os nomes possíveis piores que irresponsável, e deu ordens para que Helena fosse de táxi registar a menina, com a Celeste, atribuindo-lhe o nome de pai incógnito, que lhe ficaria muito melhor que o nome de um pai cobarde. Por enquanto Helena ficaria ali em casa, e depois se viria o que fazer coma as duas. Mas Helena sabia que ficaria o tempo que lhe apetecesse.
Para Justina, todos estes acontecimentos eram facadas que despedaçavam aos poucos o seu coração. Estava cada dia mais fragilizada, sem saber o que dizer, fazer ou pensar. Todas as suas energias, tinha-as consumido para chegar até ali, e agora estava decida a deixar o barco andar com a corrente e deixar-se ir para onde ele a levasse. Sentia-se impotente para fazer fosse o que fosse, e qualquer coisa que acontecesse tudo seria menos mau, que tudo o que tinha vivido até aqueles dias. Estava esgotada, exausta de tanta mentira, de tanta perda, te tanto desamor, de tanto vazio de tanto desengano. Não tinha nada, nem ninguém, mas também, ninguém nem nada lhe importava.
De vez em quando lembrava-se de Henrique e nada lhe tirava da cabeça que ele com certeza tinha falecido numa guerrilha no Ultramar como acontecia a tantos. E nem procurou informar-se. Foi-se instalando nela esse sentimento de perda e de luto, e uma vontade de não fazer nada, senão procurar o refúgio da biblioteca, a leitura e a escrita, que se misturavam com uma tristeza que lhe ia crescendo dentro do peito cada dia mais um pedaço. Nem a menina procurava ver. Também o filho, Manuel lhe iam retirar de casa, e a sogra que estava para chegar, apesar de ser muito boa senhora, deixava-a falar como se fosse uma música suave que lhe embalava os sonhos e a ajudava a adormecer, porque lhe contava sempre as mesmas histórias.
Fotos do Goggle
Uma mãe de verdade
Aquele dia foi com certeza, pelo conteúdo densidade dramática, o mais longo da vida de Helena, mas ainda não tinha chegado ao fim.
Celeste andava num reboliço, a compor o quarto que a senhora destinara a Helena, como esta lhe tinha ordenado, sem entender nada, não fazendo perguntas pois o clima estava denso. Mas a cada instante crescia dentro dela uma curiosidade cada vez mais intensa. Via que a cara de ambas, tanto da senhora como de Helena não estavam bem e como o caso parecia sério mantinha-se em silêncio, pois não faltariam ocasiões para saber muito bem sabido, quando as coisas acalmassem, tudo o que se passava, era o que pensava, pois Helena lhe contaria tudo, mas entretanto ia morrendo de curiosidade.
Em breve Helena estava instalada no quarto de cima com a Maria Luísa, e pediu á senhora que precisava conversar com ela uns instantes.
-Sim Helena fala rápido pois preciso descansar.
-Também eu, minha senhora, mas primeiro preciso de lhe dizer o que preciso aqui no quarto, para cuidar como deve ser da sua, quero dizer da minha filha. E como a Luzinha precisa de médico não se esqueça de arranjar um muito bom, para a ver logo que possível. Amanhã seria o ideal. Quero uma cama e uma banheira para lhe dar banho, produtos como o médico falou lá na serra para lhe cuidar do corpo, e mais roupinha para lhe vestir á medida que for crescendo. Preciso ter a certeza que me vai dar a tal mesada e aumentar o salário, porque senão quando o senhor Manuel me chamar, desminto tudo, e quero ver em quem acredita ele, se em mim se na senhora. Afinal é a senhora que está a dar leite, não eu, que ele ainda não secou, ou já?
-Tem calma Helena, terás tudo isso, que também eu quero muito que a Maria Luísa seja bem tratada. Não te esqueças que saiu de dentro de mim.
-A senhora desculpe, mas não parece. Sabe, nunca fui mentirosa, e agora que vou ter que engolir esta mentira, a si pelo menos tenho que dizer o que sinto.
E Justina não podia dizer nada. Saiu deixando-a no quarto às voltas com a sua revolta. Preparou uma lista de produtos que deu a Fernando e fê-lo sair imediatamente para os ir comprar, sem lhe responder a quaisquer perguntas.
Fernando já estava alarmado por muitas coisas que Celeste lhe tinha contado. Perplexo, traído e admirado, confuso e entristecido, primeiro, porque se sentia atraiçoado por Helena por quem tinha tanto amor e por quem esperara aqueles meses com tanta ansiedade, depois porque sequer tinha sido avisado daquele acontecimento pelas cartas que ela lhe fora escrevendo sempre tão curtas, enquanto ele lhe declarava em cada uma delas, sempre o seu eterno e imenso amor. Afinal todo aquele tempo, ele supunha Helena com uma grave doença que não aquela. Vivera numa mentira inventada por ela. E isso, ele não lhe perdoaria.
Helena mentira-lhe o tempo todo, andara a iludi-lo, a brincar com ele com os seus sentimentos, fizera passar-se perante ele, por uma jovem inibida, ingénua e envergonhada e afinal era uma qualquer, que o tentara enganar e ele nem dera conta disso. Palerma era o que ele fora. À noite, quando o patrão quisesse falar com os dois, ele lhe diria o que pensava de tudo isso. Mulher desavergonhada, que tentou enganá-lo com as suas falinhas mansas, fazendo-se passar por ingénua e em quem ele acreditou por amar verdadeiramente. Estava triste e infeliz porque lhe queria muito bem e sonhara casar com ela, mas tendo um filho de outro homem, nunca o faria. E isso mesmo sem falar com ela só pelo que Celeste lhe contara, era o suficiente para estar mais que decidido. Só assim é que também entendia o facto de Helena ainda não ter arranjando um bocadinho para o ter procurado.
Mal sabia Fernando as preocupações que iam na mente e no coração de Helena. Só almas supremas o poderiam entender.
Fotos do Goggle
Celeste andava num reboliço, a compor o quarto que a senhora destinara a Helena, como esta lhe tinha ordenado, sem entender nada, não fazendo perguntas pois o clima estava denso. Mas a cada instante crescia dentro dela uma curiosidade cada vez mais intensa. Via que a cara de ambas, tanto da senhora como de Helena não estavam bem e como o caso parecia sério mantinha-se em silêncio, pois não faltariam ocasiões para saber muito bem sabido, quando as coisas acalmassem, tudo o que se passava, era o que pensava, pois Helena lhe contaria tudo, mas entretanto ia morrendo de curiosidade.
Em breve Helena estava instalada no quarto de cima com a Maria Luísa, e pediu á senhora que precisava conversar com ela uns instantes.
-Sim Helena fala rápido pois preciso descansar.
-Também eu, minha senhora, mas primeiro preciso de lhe dizer o que preciso aqui no quarto, para cuidar como deve ser da sua, quero dizer da minha filha. E como a Luzinha precisa de médico não se esqueça de arranjar um muito bom, para a ver logo que possível. Amanhã seria o ideal. Quero uma cama e uma banheira para lhe dar banho, produtos como o médico falou lá na serra para lhe cuidar do corpo, e mais roupinha para lhe vestir á medida que for crescendo. Preciso ter a certeza que me vai dar a tal mesada e aumentar o salário, porque senão quando o senhor Manuel me chamar, desminto tudo, e quero ver em quem acredita ele, se em mim se na senhora. Afinal é a senhora que está a dar leite, não eu, que ele ainda não secou, ou já?
-Tem calma Helena, terás tudo isso, que também eu quero muito que a Maria Luísa seja bem tratada. Não te esqueças que saiu de dentro de mim.
-A senhora desculpe, mas não parece. Sabe, nunca fui mentirosa, e agora que vou ter que engolir esta mentira, a si pelo menos tenho que dizer o que sinto.
E Justina não podia dizer nada. Saiu deixando-a no quarto às voltas com a sua revolta. Preparou uma lista de produtos que deu a Fernando e fê-lo sair imediatamente para os ir comprar, sem lhe responder a quaisquer perguntas.
Fernando já estava alarmado por muitas coisas que Celeste lhe tinha contado. Perplexo, traído e admirado, confuso e entristecido, primeiro, porque se sentia atraiçoado por Helena por quem tinha tanto amor e por quem esperara aqueles meses com tanta ansiedade, depois porque sequer tinha sido avisado daquele acontecimento pelas cartas que ela lhe fora escrevendo sempre tão curtas, enquanto ele lhe declarava em cada uma delas, sempre o seu eterno e imenso amor. Afinal todo aquele tempo, ele supunha Helena com uma grave doença que não aquela. Vivera numa mentira inventada por ela. E isso, ele não lhe perdoaria.
Helena mentira-lhe o tempo todo, andara a iludi-lo, a brincar com ele com os seus sentimentos, fizera passar-se perante ele, por uma jovem inibida, ingénua e envergonhada e afinal era uma qualquer, que o tentara enganar e ele nem dera conta disso. Palerma era o que ele fora. À noite, quando o patrão quisesse falar com os dois, ele lhe diria o que pensava de tudo isso. Mulher desavergonhada, que tentou enganá-lo com as suas falinhas mansas, fazendo-se passar por ingénua e em quem ele acreditou por amar verdadeiramente. Estava triste e infeliz porque lhe queria muito bem e sonhara casar com ela, mas tendo um filho de outro homem, nunca o faria. E isso mesmo sem falar com ela só pelo que Celeste lhe contara, era o suficiente para estar mais que decidido. Só assim é que também entendia o facto de Helena ainda não ter arranjando um bocadinho para o ter procurado.
Mal sabia Fernando as preocupações que iam na mente e no coração de Helena. Só almas supremas o poderiam entender.
Fotos do Goggle
domingo, 17 de abril de 2011
Regresso a Lisboa
Naquela tarde, passado um mês, em finais de Março o médico disse que a menina estava a recuperar muito bem. Mamava bem, o que era uma verdade, ainda que tenha sido muito difícil habituá-la a puxar o leite da mama porque era preguiçosa, dormia bem, estava rosadinha e via-se muito bem que estava mais gordinha, pois preenchia muito melhor a roupinha onde antes quase não cabia, por esta parecer ser para um gigante. Com umas dobras nas mangas os casacos que foram antes do irmão serviam-lhe na perfeição, portanto tinha engordado.
Quando o médico saiu a senhora disse:
-Helena, não devo nada a ninguém, paguei agora ao médico, chama um táxi para este número e vamos embora. A menina já suporta, a viajem. Estou farta de estar aqui.
-Um táxi minha senhora, mas e o médico não lhe disse ainda que podíamos sair com a menina para a rua. E o Fernando, porque não o manda chamar?
-Deixa o Fernando em paz, Helena, quero ir embora imediatamente logo resolvo se vamos de táxi até Viseu, até Coimbra ou até Lisboa. Manuel tem-me enviado dinheiro, o suficiente para podermos ir de avião se o houvesse.
-A senhora diz cada coisa. Mais-valia ter contado ao senhor que estava grávida dessa menina, que ele tinha ralhado na altura, mas agora gostava dela que só vistos, como um pai. Se gosta assim da senhora, havia de gostar de uma filha da senhora e perdoava a senhora. O tal do capitão Henrique, nunca mais disse nada.
-Cala-te Helena cala-te com isso.
-É o que lhe digo aconteceu uma vez numa aldeia vizinha, e o marido perdoou a mulher ainda que o povo lhe tivesse chamado, com licença da senhora “cornudo”, mas ele não se importou, pois sabia que também não dava guarida nenhuma à mulher que tinha em casa, nem carinho, apesar de gostar dela, e dela ser uma boa mulher. “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, é o que dizem. A partir daí ninguém mais ouviu dizer nada. Dizem, que que tem telhados de vidro não deve atirar pedradas…
-Sempre dizes cada coisa, Helena. Realmente, por vezes penso que ponderei demais, mas o que queria na altura era refazer a minha vida com o Henrique, só que ele partiu para o Ultramar, nesta altura não sei se não lhe terá acontecido algo muito grave. Nem sei mesmo, se ainda estará vivo. Tenho um aperto no coração desde que deixei de receber cartas dele. Agora vais lá abaixo, telefonas para este número, mas não dizes na loja o que estás a fazer, e mandas vir um táxi para a nossa casa aqui a cima. Levas também esta carta, a ultima que escrevo ao Henrique daqui a dizer-lhe que volto para Lisboa, porque de facto todas as que lhe tenho enviado não têm voltado para trás, alguém do lado de lá as recebe.
-Está bem, minha senhora farei tudo como diz.
E Helena pôs-se a andar remoendo entre dentes, tudo o que Justina acabara de dizer. O mais certo era Henrique ter por lá arranjado uma namorada, e nunca mais se ter lembrado dela. Helena não acreditava nada que o capitão tivesse morrido na guerra, e um dia, imaginava que ele ainda havia de aparecer com a esposa em Lisboa, em frente à sua senhora, que agora resolvera de pé para a mão, pôr-se a andar para Lisboa de táxi com a menina, sem o médico lhes ter dado autorização. Por ela, estava tudo bem, mas que não achava nada daquilo certo, não, pois não sabia se a Luzinha estava preparada para tal viagem. Um dia a senhora ainda iria ser castigada.
Naqueles meses ali na serra, Helena tinha aprendido muito sobre coisas que nunca imaginara vir a conhecer e a entender. Crescera como mulher e como ser humano. Aprendera a ver a vida de outra forma, até aprendera a amar de outra maneira. Sentia-se feliz por estar a ajudar uma pessoa, mas muito preocupada por estar a enganar outras pessoas. Soube que o seu país estava em guerra e o mundo também não estava bem, e que portanto não era só a sua senhora que vivia a sua pequena guerra nem era só na sua aldeia que havia falta de muitas coisas. Tudo isto aprendeu Helena nas longas conversas que teve com a dona Justina que lhe falou de muitos assuntos, que ela ouvia sempre com muita atenção e que a ajudaram a formar dentro de si uma Helena diferente, mais esperta e atenta, mais completa, plena, muito mais realizada e mulher perfeita.
Na loja, tal com Justina recomendara Helena pouco adiantou, e depois de telefonar meio em segredo, só disse que mais tarde a senhora iria mandar noticias para a Olga, mas que como o livro estava praticamente escrito estavam quase de abalada. Quando saiu da loja não deixou de comentar para si mesmo:
-É sempre a mesma coisa, querem saber sempre tudo, tal qual como na minha terra, “mas quem tudo quer saber, nada se lhe diz”…., não vim aqui nem sequer um dia, que não me pedissem satisfações. Nunca ficaram satisfeitos, pois engelhavam sempre o nariz, mas não se podem queixar, porque sempre lhas dei. Gente alcoviteira.
Helena depressa chegou a casa. Estava farta de fazer a pé aquele percurso de quase uma hora até à loja, mas naquele dia, parece que levou muito menos tempo. Afinal já que partiam, também ela tinha pressa de ver esse momento chegar, e ainda tinha muito que fazer para deixar a casa em ordem. Quando chegou, a senhora já tinha a sua mala e a da menina preparadas e estava sentada com ela ao colo a dar-lhe mama. O sol entrava pela janela, e àquela hora, quase hora de almoço o sol estava lindo e batia nas duas entrando pela janela da sala, fazendo com elas um quadro divino. Ia ter saudades daquela casa e daqueles dias. O motivo que a levara a sair da sua aldeia também tinha sido aprender, e naquela altura já sabia muita coisa, tanto, que já não tinha extensão tudo que sabia. E não se sentia sozinha, pois tinha muita gente a quem amar e para cuidar, e isso deixava-a muito feliz, pois sentia-se útil.
-Já está minha senhora. O senhor do táxi diz que chega depois do almoço. Vou fazer alguma coisa para comermos. Há, deixei recado na loja dizendo que a senhora já tinha acabado de escrever o tal ”livro” e que depois mandava recado para a Olga vir cá a casa dar um arrumo à dispensa.
-Fizeste bem Helena, apanhaste-lhe o jeito, marota.
-Então minha senhora tem que ser, agora temos que ir até ao fim.
Enquanto pôs algo ao lume para o ultimo almoço ali, Helena compôs o seu quarto e arrumou as suas roupas numa trouxa, e como as malas da senhora e da Luzinha estavam prontas, deu uma arrumação ao quarto de ambas. Preparou num saco à parte os suplementos de leite da menina e as vitaminas da menina e da senhora e um amontoado de fraldas lavadas, para estarem mais à mão fora da mala, junto do pó de talco.
-Não sei o que seria de mim, sem ti, Helena. Pensas em tudo. Pareces a mãe da Luzinha, e a minha também. Lavas-lhe a roupa, dás-lhe banho, calas-lhe o choro quando tem cólicas e eu não consigo, dás-lhe o biberão como suplemento. Devo-te isso e todo o apoio que me deste estes meses todos. Obrigada Helena.
-É a minha obrigação, minha senhora.
Fotos do Goggle
Quando o médico saiu a senhora disse:
-Helena, não devo nada a ninguém, paguei agora ao médico, chama um táxi para este número e vamos embora. A menina já suporta, a viajem. Estou farta de estar aqui.
-Um táxi minha senhora, mas e o médico não lhe disse ainda que podíamos sair com a menina para a rua. E o Fernando, porque não o manda chamar?
-Deixa o Fernando em paz, Helena, quero ir embora imediatamente logo resolvo se vamos de táxi até Viseu, até Coimbra ou até Lisboa. Manuel tem-me enviado dinheiro, o suficiente para podermos ir de avião se o houvesse.
-A senhora diz cada coisa. Mais-valia ter contado ao senhor que estava grávida dessa menina, que ele tinha ralhado na altura, mas agora gostava dela que só vistos, como um pai. Se gosta assim da senhora, havia de gostar de uma filha da senhora e perdoava a senhora. O tal do capitão Henrique, nunca mais disse nada.
-Cala-te Helena cala-te com isso.
-É o que lhe digo aconteceu uma vez numa aldeia vizinha, e o marido perdoou a mulher ainda que o povo lhe tivesse chamado, com licença da senhora “cornudo”, mas ele não se importou, pois sabia que também não dava guarida nenhuma à mulher que tinha em casa, nem carinho, apesar de gostar dela, e dela ser uma boa mulher. “Quem nunca pecou que atire a primeira pedra”, é o que dizem. A partir daí ninguém mais ouviu dizer nada. Dizem, que que tem telhados de vidro não deve atirar pedradas…
-Sempre dizes cada coisa, Helena. Realmente, por vezes penso que ponderei demais, mas o que queria na altura era refazer a minha vida com o Henrique, só que ele partiu para o Ultramar, nesta altura não sei se não lhe terá acontecido algo muito grave. Nem sei mesmo, se ainda estará vivo. Tenho um aperto no coração desde que deixei de receber cartas dele. Agora vais lá abaixo, telefonas para este número, mas não dizes na loja o que estás a fazer, e mandas vir um táxi para a nossa casa aqui a cima. Levas também esta carta, a ultima que escrevo ao Henrique daqui a dizer-lhe que volto para Lisboa, porque de facto todas as que lhe tenho enviado não têm voltado para trás, alguém do lado de lá as recebe.
-Está bem, minha senhora farei tudo como diz.
E Helena pôs-se a andar remoendo entre dentes, tudo o que Justina acabara de dizer. O mais certo era Henrique ter por lá arranjado uma namorada, e nunca mais se ter lembrado dela. Helena não acreditava nada que o capitão tivesse morrido na guerra, e um dia, imaginava que ele ainda havia de aparecer com a esposa em Lisboa, em frente à sua senhora, que agora resolvera de pé para a mão, pôr-se a andar para Lisboa de táxi com a menina, sem o médico lhes ter dado autorização. Por ela, estava tudo bem, mas que não achava nada daquilo certo, não, pois não sabia se a Luzinha estava preparada para tal viagem. Um dia a senhora ainda iria ser castigada.
Naqueles meses ali na serra, Helena tinha aprendido muito sobre coisas que nunca imaginara vir a conhecer e a entender. Crescera como mulher e como ser humano. Aprendera a ver a vida de outra forma, até aprendera a amar de outra maneira. Sentia-se feliz por estar a ajudar uma pessoa, mas muito preocupada por estar a enganar outras pessoas. Soube que o seu país estava em guerra e o mundo também não estava bem, e que portanto não era só a sua senhora que vivia a sua pequena guerra nem era só na sua aldeia que havia falta de muitas coisas. Tudo isto aprendeu Helena nas longas conversas que teve com a dona Justina que lhe falou de muitos assuntos, que ela ouvia sempre com muita atenção e que a ajudaram a formar dentro de si uma Helena diferente, mais esperta e atenta, mais completa, plena, muito mais realizada e mulher perfeita.
Na loja, tal com Justina recomendara Helena pouco adiantou, e depois de telefonar meio em segredo, só disse que mais tarde a senhora iria mandar noticias para a Olga, mas que como o livro estava praticamente escrito estavam quase de abalada. Quando saiu da loja não deixou de comentar para si mesmo:
-É sempre a mesma coisa, querem saber sempre tudo, tal qual como na minha terra, “mas quem tudo quer saber, nada se lhe diz”…., não vim aqui nem sequer um dia, que não me pedissem satisfações. Nunca ficaram satisfeitos, pois engelhavam sempre o nariz, mas não se podem queixar, porque sempre lhas dei. Gente alcoviteira.
Helena depressa chegou a casa. Estava farta de fazer a pé aquele percurso de quase uma hora até à loja, mas naquele dia, parece que levou muito menos tempo. Afinal já que partiam, também ela tinha pressa de ver esse momento chegar, e ainda tinha muito que fazer para deixar a casa em ordem. Quando chegou, a senhora já tinha a sua mala e a da menina preparadas e estava sentada com ela ao colo a dar-lhe mama. O sol entrava pela janela, e àquela hora, quase hora de almoço o sol estava lindo e batia nas duas entrando pela janela da sala, fazendo com elas um quadro divino. Ia ter saudades daquela casa e daqueles dias. O motivo que a levara a sair da sua aldeia também tinha sido aprender, e naquela altura já sabia muita coisa, tanto, que já não tinha extensão tudo que sabia. E não se sentia sozinha, pois tinha muita gente a quem amar e para cuidar, e isso deixava-a muito feliz, pois sentia-se útil.
-Já está minha senhora. O senhor do táxi diz que chega depois do almoço. Vou fazer alguma coisa para comermos. Há, deixei recado na loja dizendo que a senhora já tinha acabado de escrever o tal ”livro” e que depois mandava recado para a Olga vir cá a casa dar um arrumo à dispensa.
-Fizeste bem Helena, apanhaste-lhe o jeito, marota.
-Então minha senhora tem que ser, agora temos que ir até ao fim.
Enquanto pôs algo ao lume para o ultimo almoço ali, Helena compôs o seu quarto e arrumou as suas roupas numa trouxa, e como as malas da senhora e da Luzinha estavam prontas, deu uma arrumação ao quarto de ambas. Preparou num saco à parte os suplementos de leite da menina e as vitaminas da menina e da senhora e um amontoado de fraldas lavadas, para estarem mais à mão fora da mala, junto do pó de talco.
-Não sei o que seria de mim, sem ti, Helena. Pensas em tudo. Pareces a mãe da Luzinha, e a minha também. Lavas-lhe a roupa, dás-lhe banho, calas-lhe o choro quando tem cólicas e eu não consigo, dás-lhe o biberão como suplemento. Devo-te isso e todo o apoio que me deste estes meses todos. Obrigada Helena.
-É a minha obrigação, minha senhora.
Fotos do Goggle
terça-feira, 12 de abril de 2011
Falta de noticias
O pior foi o capitão começar a deixar de escrever à sua senhora.
Realmente aquele Inverno foi deveras muito rigoroso, demais até, tendo em conta que as duas estavam fartas de estar ali isoladas desde o inicio de Outubro. Desde que as cartas do Capitão falharam, Justina começou a andar triste e começou a ficar sem apetite. Porque seria que Henrique não lhe escrevia mais, teria acontecido alguma coisa?
-Helena, se aconteceu alguma coisa a Henrique ninguém me avisa. Não posso perguntar nada à minha amiga, pois daria nas vistas, e se lhe aconteceu algo mais grave, a mim o Estado não avisa, pois não sou da família. Algo me diz que algo importante lhe terá acontecido, mas não sei o que será.
-A minha senhora aqui a afligir-se, e esse seu Henrique lá no Ultramar com alguma mulata namoradeira. A senhora desculpe, mas tem que estar mais bem-disposta porque as cartas podem estar perdidas e um dia destes aparecem todas juntas. Tem que se animar, que os homens por vezes são matreiros, foi sempre o que a minha mãe me disse, e a Celeste também.
-Não sei se me fazes rir, se me pões ainda mais aflita. Não sei de facto o que pensar, mas a culpada fui eu que até hoje apesar de estar aqui ainda não lhe disse que espero um filho dele.
-Não sei. Mas a senhora se fosse pequena levava agora uns bons acoites. Então com tanta carta escrita, ainda não lhe disse que espera dele este filho? Santo Deus porque espera, que ele adivinhe? Ele à cada uma?
-Helena queria tanto tê-lo aqui comigo, mas imagino que ele na guerra está tão aflito que não quero preocupá-lo mais.
-Imagina mal, pois eu penso que para ele seria um estímulo para ter mais força para levar essa guerra avante e ter força para voltar cheio de garra para a senhora.
-Mas se lhe dissesse, ia divulga-lo alegremente à prima, e a prima à amiga e a esta hora Lisboa inteira sabia e o Manuel também, pois a dizer-lhe, não lhe podia pedir segredo ou podia? Pensei nisso tudo e tive receio disso tudo. Penso que não devia ter pensado tanto.
-Com certeza não devia mesmo ter pensado tanto e devia ter feito o que lhe mandava o coração. Assim ainda perde tudo, e Deus queira que não, que só desejo que a senhora seja muito feliz.
Helena neste Inverno enquanto Justina de consumia com a espera das castas e que o filho nascesse, aprendeu muita coisa, geografia, ciências, aprendeu a conhecer o corpo humano. Até a ler francês, e dizia a senhora que ela era uma boa aluna. Naquele tempo tudo o que Helena fazia além de cuidar da sua senhora da melhor forma possível era passear, ouvi-la sentada na mesa da sala com a lareira acesa como se estivessem numa sala de aula. E Helena absorvia cada palavra com todo o interesse e curiosidade.
Entretanto chegou a primavera e as folhas amarelas que há muito tinham desaparecido levadas pelo vento e depois cobertas pela neve daquele Inverno rigoroso, recomeçaram a aparecer verdes nas árvores dos bosques e florestas. Era o tempo de novas vidas renascerem.
A meados de Fevereiro, sem nada o fazer prever, pois não era ainda a altura, umas dores repentinas levaram Helena numa correria à aldeia chamar o médico para a sua senhora que precisava de ajuda, pois estava com uma crise de falta de ar desde a noite anterior que não passava, foi a razão que ela alegou para a necessidade do médico em casa. Chamado o médico de repente, Helena vai a correr de volta para casa, dizendo não precisar de mais ajuda além do medico para auscultar a senhora. Chegada a casa, põe muita água ao lume porque as dores não passam e falando com a senhora tem a certeza que a criança deve estar para nascer antes do tempo. Justina andava muito nervosa a tensão muito alta, e o importante era que a criança estivesse bem, mas com aquele tempo devia estar ainda muito pequenina, pois só tinha sete meses. Helena sempre ouvira dizer que com sete meses escapavam com oito é que não, vá se lá saber porquê, e com isso e massagens que foi fazendo na barriga da senhora como fazia na mãe, até que o médico chegou, foi acalmando a senhora.
O facto de Helena ter chamado o médico para ver a senhora em casa, só ajudou a prolongar mais uns tempos a estadia delas mais uns dias por ali perante a família em Lisboa, que assim foi sendo enganada. Na primeira oportunidade, assim que Celeste telefonou o pessoal da loja avisou-a logo:
“-O médico foi ver a senhora que esteve uma noite inteira com falta de ar.”
Ao que ela terá respondido:
“-Mas quando é que aquelas duas vêm dali para fora, ainda tenho que ser eu a ir lá busca-las.”
Fotos do Goggle
Realmente aquele Inverno foi deveras muito rigoroso, demais até, tendo em conta que as duas estavam fartas de estar ali isoladas desde o inicio de Outubro. Desde que as cartas do Capitão falharam, Justina começou a andar triste e começou a ficar sem apetite. Porque seria que Henrique não lhe escrevia mais, teria acontecido alguma coisa?
-Helena, se aconteceu alguma coisa a Henrique ninguém me avisa. Não posso perguntar nada à minha amiga, pois daria nas vistas, e se lhe aconteceu algo mais grave, a mim o Estado não avisa, pois não sou da família. Algo me diz que algo importante lhe terá acontecido, mas não sei o que será.
-A minha senhora aqui a afligir-se, e esse seu Henrique lá no Ultramar com alguma mulata namoradeira. A senhora desculpe, mas tem que estar mais bem-disposta porque as cartas podem estar perdidas e um dia destes aparecem todas juntas. Tem que se animar, que os homens por vezes são matreiros, foi sempre o que a minha mãe me disse, e a Celeste também.
-Não sei se me fazes rir, se me pões ainda mais aflita. Não sei de facto o que pensar, mas a culpada fui eu que até hoje apesar de estar aqui ainda não lhe disse que espero um filho dele.
-Não sei. Mas a senhora se fosse pequena levava agora uns bons acoites. Então com tanta carta escrita, ainda não lhe disse que espera dele este filho? Santo Deus porque espera, que ele adivinhe? Ele à cada uma?
-Helena queria tanto tê-lo aqui comigo, mas imagino que ele na guerra está tão aflito que não quero preocupá-lo mais.
-Imagina mal, pois eu penso que para ele seria um estímulo para ter mais força para levar essa guerra avante e ter força para voltar cheio de garra para a senhora.
-Mas se lhe dissesse, ia divulga-lo alegremente à prima, e a prima à amiga e a esta hora Lisboa inteira sabia e o Manuel também, pois a dizer-lhe, não lhe podia pedir segredo ou podia? Pensei nisso tudo e tive receio disso tudo. Penso que não devia ter pensado tanto.
-Com certeza não devia mesmo ter pensado tanto e devia ter feito o que lhe mandava o coração. Assim ainda perde tudo, e Deus queira que não, que só desejo que a senhora seja muito feliz.
Helena neste Inverno enquanto Justina de consumia com a espera das castas e que o filho nascesse, aprendeu muita coisa, geografia, ciências, aprendeu a conhecer o corpo humano. Até a ler francês, e dizia a senhora que ela era uma boa aluna. Naquele tempo tudo o que Helena fazia além de cuidar da sua senhora da melhor forma possível era passear, ouvi-la sentada na mesa da sala com a lareira acesa como se estivessem numa sala de aula. E Helena absorvia cada palavra com todo o interesse e curiosidade.
Entretanto chegou a primavera e as folhas amarelas que há muito tinham desaparecido levadas pelo vento e depois cobertas pela neve daquele Inverno rigoroso, recomeçaram a aparecer verdes nas árvores dos bosques e florestas. Era o tempo de novas vidas renascerem.
A meados de Fevereiro, sem nada o fazer prever, pois não era ainda a altura, umas dores repentinas levaram Helena numa correria à aldeia chamar o médico para a sua senhora que precisava de ajuda, pois estava com uma crise de falta de ar desde a noite anterior que não passava, foi a razão que ela alegou para a necessidade do médico em casa. Chamado o médico de repente, Helena vai a correr de volta para casa, dizendo não precisar de mais ajuda além do medico para auscultar a senhora. Chegada a casa, põe muita água ao lume porque as dores não passam e falando com a senhora tem a certeza que a criança deve estar para nascer antes do tempo. Justina andava muito nervosa a tensão muito alta, e o importante era que a criança estivesse bem, mas com aquele tempo devia estar ainda muito pequenina, pois só tinha sete meses. Helena sempre ouvira dizer que com sete meses escapavam com oito é que não, vá se lá saber porquê, e com isso e massagens que foi fazendo na barriga da senhora como fazia na mãe, até que o médico chegou, foi acalmando a senhora.
O facto de Helena ter chamado o médico para ver a senhora em casa, só ajudou a prolongar mais uns tempos a estadia delas mais uns dias por ali perante a família em Lisboa, que assim foi sendo enganada. Na primeira oportunidade, assim que Celeste telefonou o pessoal da loja avisou-a logo:
“-O médico foi ver a senhora que esteve uma noite inteira com falta de ar.”
Ao que ela terá respondido:
“-Mas quando é que aquelas duas vêm dali para fora, ainda tenho que ser eu a ir lá busca-las.”
Fotos do Goggle
domingo, 3 de abril de 2011
Porque hoje é domingo
PORQUE hoje é Domingo devemos ir passear de mãos dadas e quem sabe dar mais atenção, aos nosso animais de estimação.
Receber uma flor do nosso amor, que coisa fora do habitual mas tão agradável e simpática.
Mais tarde fazer uma caminha, talvez sozinha, ou acompanhada, e se for com o nosso amor melhor um pouco, que fazer exercicio fisico faz sempre bem e se for à beira-mar num dia de Sol melhor ainda, mas sem dizer nada à vizinha.
Mais á tardinha outra hipotese é não falhar o jogo de futebol do nosso clube, e tudo fazer para que ele ganhe, até promessa...
Podemos optar por ver na TV, um bom programa de banda desenhada para rir à GARGALHADA e relaxar..., se o clube estever a perder, ou então se estiver a ganhar por grande margem.
MAS Á NOITE, já bem à noitinha e pode ser até de madrugada,
O IMPORTANTE É AMAR,
amar sempre, que a vida passa, o tempo voa e o amor é lindo,
e sempre que o amor se vive intenso, puro e verdadeiro,
no dia seguinte tudo corre melhor,e no dia seguinte é segunda-feira.
Fotos do Goggle
quinta-feira, 31 de março de 2011
A separação
-Sabes Fernando, só te digo a ti, porque a senhora me pediu para não dizer nada a ninguém, mas vou com ela para uma casa na serra, e tu vais-nos lá levar. Ficas aqui, sem mim, mas esperas-me e escreves-me uma carta todos os dias. Vou morrer de saudades tuas. Não vais arranjar outra namorada.
Isto foi o que Helena disse a Fernando um dia à noite, estando na cozinha, quando o viu passar no jardim das traseiras, para ir embora, e veio correr até junto dele. E ele sem entender muito bem, perguntou o que se passava pois não estava a entender nada.
-Mas, vais para onde com a senhora? Não entendo nada, e o menino, e o colégio, mas o que se passa? Não percebo aquela senhora. Este último ano anda diferente, e no verão fazia-me esperar horas em sítios, casas de amigas que eu não conhecia. Mas não é nada comigo, só cumpro ordens.
-O pior, é que vamos ficar longe um do outro. Não me vais esquecer, pois não Fernando?
-Claro que não, minha flor, sabes que te amo.
-Não digas isso assim Fernando, que me envergonhas.
E agarrou Helena pela cintura, mesmo ali nas traseiras da casa, sujeitos a que alguém passasse ou a Celeste os visse, apesar de encobertos pela noite, e beijou-a como nunca o tinha feito. Esqueceram-se do local onde estavam e os seus corpos colaram-se como se fossem um só. Fernando percorreu com caricias delicadamente todo o rosto de Helena até que chegou à sua boca, e aí ficou num beijo prolongado e doce, quente e amoroso como nenhum outro que alguma vez Helena imaginasse alguém poder dar-lhe, e depois outro e outro. Uma troca de tudo, uma entrega de tanta coisa, um dar e receber mútuos como nunca imaginaram um e outro ser possível acontecer, tudo naquele beijo que significava para ambos, naquele momento, o imenso amor que se tinham e a imensa saudade que iriam sentir um do outro, a certeza absoluta que se amavam de verdade. E ficaram naquele enlace até que os seus corpos pediram mais, mas mais era muito e demasiado intenso para os dois, e a Celeste em boa ocasião chamou Helena da cozinha:
-Helena, depressa que preciso de ti.
-Adeus Fernando, tenho que ir mas não me esqueças porque parto, pois vais no meu coração, e escreve-me sempre, como eu te vou escrever, que quando nos fores levar não podemos estar com despedidas- e Helena disse isto muito triste.
-Claro que te vou escrever, porque te quero todo o bem do mundo e vou esperar por ti, porque te quero para minha mulher. Queria-te já hoje Helena, se pudesse, queria-te já hoje. Mas também não vão lá ficar uma eternidade, ou vão? Raios da senhora, do que se havia de lembrar.
E ela fugiu para dentro com aquelas palavras gravadas no seu coração, e os olhos cheios de lágrimas, pois também ela o queria muito. Só sentia na sua boca o calor e sabor forte, gostoso e quente da boca de Fernando, que ela nunca mais iria esquecer, de tal forma que nem ouviu o que Celeste lhe dizia. Aquela sensação que ela nunca tinha experimentado, era tão forte que lhe parecia ter penetrado o corpo e a alma completamente e parecia ter-se alojado gostosamente na sua boca para toda a vida e ela sentia-se a viver nas nuvens.
-Mulher, hem Helena, houve o que te digo que já não é cedo, temos de ir deitar e ainda tenho aqui umas coisas para arrumar. O Ruizinho já dorme? Vem-me ajudar.
Fotos do Goggle
Isto foi o que Helena disse a Fernando um dia à noite, estando na cozinha, quando o viu passar no jardim das traseiras, para ir embora, e veio correr até junto dele. E ele sem entender muito bem, perguntou o que se passava pois não estava a entender nada.
-Mas, vais para onde com a senhora? Não entendo nada, e o menino, e o colégio, mas o que se passa? Não percebo aquela senhora. Este último ano anda diferente, e no verão fazia-me esperar horas em sítios, casas de amigas que eu não conhecia. Mas não é nada comigo, só cumpro ordens.
-O pior, é que vamos ficar longe um do outro. Não me vais esquecer, pois não Fernando?
-Claro que não, minha flor, sabes que te amo.
-Não digas isso assim Fernando, que me envergonhas.
E agarrou Helena pela cintura, mesmo ali nas traseiras da casa, sujeitos a que alguém passasse ou a Celeste os visse, apesar de encobertos pela noite, e beijou-a como nunca o tinha feito. Esqueceram-se do local onde estavam e os seus corpos colaram-se como se fossem um só. Fernando percorreu com caricias delicadamente todo o rosto de Helena até que chegou à sua boca, e aí ficou num beijo prolongado e doce, quente e amoroso como nenhum outro que alguma vez Helena imaginasse alguém poder dar-lhe, e depois outro e outro. Uma troca de tudo, uma entrega de tanta coisa, um dar e receber mútuos como nunca imaginaram um e outro ser possível acontecer, tudo naquele beijo que significava para ambos, naquele momento, o imenso amor que se tinham e a imensa saudade que iriam sentir um do outro, a certeza absoluta que se amavam de verdade. E ficaram naquele enlace até que os seus corpos pediram mais, mas mais era muito e demasiado intenso para os dois, e a Celeste em boa ocasião chamou Helena da cozinha:
-Helena, depressa que preciso de ti.
-Adeus Fernando, tenho que ir mas não me esqueças porque parto, pois vais no meu coração, e escreve-me sempre, como eu te vou escrever, que quando nos fores levar não podemos estar com despedidas- e Helena disse isto muito triste.
-Claro que te vou escrever, porque te quero todo o bem do mundo e vou esperar por ti, porque te quero para minha mulher. Queria-te já hoje Helena, se pudesse, queria-te já hoje. Mas também não vão lá ficar uma eternidade, ou vão? Raios da senhora, do que se havia de lembrar.
E ela fugiu para dentro com aquelas palavras gravadas no seu coração, e os olhos cheios de lágrimas, pois também ela o queria muito. Só sentia na sua boca o calor e sabor forte, gostoso e quente da boca de Fernando, que ela nunca mais iria esquecer, de tal forma que nem ouviu o que Celeste lhe dizia. Aquela sensação que ela nunca tinha experimentado, era tão forte que lhe parecia ter penetrado o corpo e a alma completamente e parecia ter-se alojado gostosamente na sua boca para toda a vida e ela sentia-se a viver nas nuvens.
-Mulher, hem Helena, houve o que te digo que já não é cedo, temos de ir deitar e ainda tenho aqui umas coisas para arrumar. O Ruizinho já dorme? Vem-me ajudar.
Fotos do Goggle
A troca
Justina andava ultimamente mal disposta, enjoada, cansada e com mau aspecto, sem motivo aparente. Manuel um pouco mais velho que ela, com a direcção na fábrica, andava sempre muito ocupado e dava-lhe pouca atenção. Até das saídas com as amigas Justina estava farta, e com a excepção de uns telefonemas que recebia por vezes à tarde na biblioteca, que a deixavam nervosa e agitada, Justina não fazia nada mas não parecia a mesma de sempre. Não tinha ido à praia e a sua cor era muito pálida, comparada com a de Helena ou mesmo da sogra, que tinham passado muitas horas naquela praia lindíssima alentejana, por isso não tinham como comparar.
No início daquele ano escolar estava resolvida a não ir dar aulas no colégio, sentia-se cansada, vá-se lá saber porquê, pois quase não fazia nada, mas não falava em ir ao médico, e resolveu sugerir ao marido algo que o iria espantar, mas primeiro falou em segredo com Helena, pois precisava do seu apoio.
-Helena queria falar contigo um assunto muito sério, e tu só vais ouvir e se queres a minha ajuda para a tua vida futura, vais ter que estar do meu lado, e dizer que sim a tudo.
-Mas com certeza minha senhora que a ajudarei no que for necessário, diga então pois sou toda, ouvidos.
-Reparaste que fui muito pouco tempo à praia. Não andava muito bem-disposta e juntava-me com uns amigos a conversar. O meu marido está sempre muito ocupado, mesmo quando está de férias nos poucos dias que tira para se juntar à família, tem sempre muito que ler e escrever, e deixa-me muito tempo sozinha. Queria tirar uns tempos e sair daqui, ando enjoada desta cidade, deste movimento todo, queria pensar o que hei-de fazer da minha vida, mas aqui com a dona Joaquina, que é uma jóia de senhora mas é a minha sogra, nunca me sinto bem em minha casa, e assim resolvi pedir ao meu marido para ir uns tempos para a serra, onde temos uma casa perto dumas termas. Tenho umas amigas que também vão, e sei que lá vou conseguir pensar e saber o que quero. Mas ninguém precisa saber que tenho lá amigas, e ao que vou. Digo-te a ti porque quero que vás comigo.
-Eu minha senhora? E o meu Fernando, e o menino Ruizinho? E isso é muito tempo.
-E eu, não te disse para ouvires e não fazeres perguntas? Claro que o Fernando não vai, porque é preciso aqui para servir o dom Manuel, mas vai lá levar-nos, e depois não foge daqui e como o tempo passa depressa, quando voltares comigo estará aqui à tua espera. Quanto ao meu filho, tenho que arranjar uma solução, porque me custa separar dele, mas não sei se o melhor será levá-lo comigo.
-Ai minha senhora, que me vai custar tanto sair daqui e deixar os meus dois homens o pequenino e o grande.
-Cala-te, e não comentes o que te disse com ninguém. Já sabes que se convencer o meu marido, partes comigo para a serra, sem comentários. Ouviste nada de falatórios com a Celeste ou seja com quem for. É melhor para todos.
Mas porque seria que a senhora queria segredo daquela sua saída, e isso seria melhor para todos, e porque a queria levar para a serra se ela estava tão bem na cidade. Ia voltar para a serra, que serra deve ser sempre igual como a de onde viera, e nem sabia o que ia lá fazer. Ia doer-lhe muito separar-se do seu Fernando. O melhor seria o senhor dom Manuel dizer que não, mas isso não iria acontecer, porque a senhora sabia falar-lhe muito ao jeito e havia de o convencer.
Fotos do Goggle
No início daquele ano escolar estava resolvida a não ir dar aulas no colégio, sentia-se cansada, vá-se lá saber porquê, pois quase não fazia nada, mas não falava em ir ao médico, e resolveu sugerir ao marido algo que o iria espantar, mas primeiro falou em segredo com Helena, pois precisava do seu apoio.
-Helena queria falar contigo um assunto muito sério, e tu só vais ouvir e se queres a minha ajuda para a tua vida futura, vais ter que estar do meu lado, e dizer que sim a tudo.
-Mas com certeza minha senhora que a ajudarei no que for necessário, diga então pois sou toda, ouvidos.
-Reparaste que fui muito pouco tempo à praia. Não andava muito bem-disposta e juntava-me com uns amigos a conversar. O meu marido está sempre muito ocupado, mesmo quando está de férias nos poucos dias que tira para se juntar à família, tem sempre muito que ler e escrever, e deixa-me muito tempo sozinha. Queria tirar uns tempos e sair daqui, ando enjoada desta cidade, deste movimento todo, queria pensar o que hei-de fazer da minha vida, mas aqui com a dona Joaquina, que é uma jóia de senhora mas é a minha sogra, nunca me sinto bem em minha casa, e assim resolvi pedir ao meu marido para ir uns tempos para a serra, onde temos uma casa perto dumas termas. Tenho umas amigas que também vão, e sei que lá vou conseguir pensar e saber o que quero. Mas ninguém precisa saber que tenho lá amigas, e ao que vou. Digo-te a ti porque quero que vás comigo.
-Eu minha senhora? E o meu Fernando, e o menino Ruizinho? E isso é muito tempo.
-E eu, não te disse para ouvires e não fazeres perguntas? Claro que o Fernando não vai, porque é preciso aqui para servir o dom Manuel, mas vai lá levar-nos, e depois não foge daqui e como o tempo passa depressa, quando voltares comigo estará aqui à tua espera. Quanto ao meu filho, tenho que arranjar uma solução, porque me custa separar dele, mas não sei se o melhor será levá-lo comigo.
-Ai minha senhora, que me vai custar tanto sair daqui e deixar os meus dois homens o pequenino e o grande.
-Cala-te, e não comentes o que te disse com ninguém. Já sabes que se convencer o meu marido, partes comigo para a serra, sem comentários. Ouviste nada de falatórios com a Celeste ou seja com quem for. É melhor para todos.
Mas porque seria que a senhora queria segredo daquela sua saída, e isso seria melhor para todos, e porque a queria levar para a serra se ela estava tão bem na cidade. Ia voltar para a serra, que serra deve ser sempre igual como a de onde viera, e nem sabia o que ia lá fazer. Ia doer-lhe muito separar-se do seu Fernando. O melhor seria o senhor dom Manuel dizer que não, mas isso não iria acontecer, porque a senhora sabia falar-lhe muito ao jeito e havia de o convencer.
Fotos do Goggle
quarta-feira, 30 de março de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
O silêncio..
Quando as palavras não dizem tudo o que o coração sente, o melhor é parar, e sentir
unicamente o que vai dentro da gente.
Fotos do Google
Um vazio...
Não tenho vindo aqui porque a solidão anda comigo.
Visita-me quando me levanto, um desalento que não é normal, que desconheço mas me domina por completo, muito mais que tudo que se possa imaginar.
Queria libertar-me, fugir de tudo isto e correr para outro lado, para algures onde pudesse estar mais confortável, sem temores nem angustias, sem medo de sonhar, porque os meus sonhos devoram-me por serem pesadelos negros e tristes.
Não sei que tenho, não sei que sinto..
Um vazio percorre-me inteira, uma ausência de tudo o que tive e de tudo que nunca imaginei possuir.
Um vazio que é meu, que eu não quero, mas que teima em não me abandonar.
Visita-me quando me levanto, um desalento que não é normal, que desconheço mas me domina por completo, muito mais que tudo que se possa imaginar.
Queria libertar-me, fugir de tudo isto e correr para outro lado, para algures onde pudesse estar mais confortável, sem temores nem angustias, sem medo de sonhar, porque os meus sonhos devoram-me por serem pesadelos negros e tristes.
Não sei que tenho, não sei que sinto..
Um vazio percorre-me inteira, uma ausência de tudo o que tive e de tudo que nunca imaginei possuir.
Um vazio que é meu, que eu não quero, mas que teima em não me abandonar.
Fotos do Google
sexta-feira, 18 de março de 2011
Um novo livro- A troca
Era uma aldeia bonita, com a sua capela barroca onde se destaca a torre do sino galaico-português, mais elevada que os dois pináculos graníticos que a enquadravam. Helena e toda a aldeia eram devotos do Santo desta capela, Santo Amaro, e em Janeiro festejavam os seus milagres e feitos, numa romaria a preceito, fazendo o mesmo em Agosto, durante a primeira quinzena numa romaria em honra de Nossa Senhora da Natividade. Nestas alturas a povoação das aldeias vizinhas, como Quintela, Gondar, Santiago do Monte e outras, visitavam Malhoa, e viviam com eles estes momentos religiosos e de festa.
Mas Helena vivia cansada de ter tão pouco. Na altura em que devia ter ido à escola, até foi inscrita pelo pai em Quintela, a maior aldeia de todas vizinha de Malhoa, que tinha uma boa escola para a altura, e Helena lá ia descendo e subindo todos os dias, alguns quilómetros até á escola, com frio, neve e chuva intensos, ou então um calor intenso quando chegava o final da escola no mês de Junho, para aprender a ler e a contar como era seu desejo. Mas a mãe precisava dela em casa para cuidar dos irmãos que foram nascendo depois dela, pois tinha que acompanhar o pai no tratamento ta horta e cuidado do gado que tinham, e ela, sem desobedecer à mãe, e porque o caminho era duro, faltava muitos dias à escola. O que aprendeu foi tão pouco, que mal dava para ler alguma carta, que um dia se o tivesse, algum namorado lhe escrevesse.
O irmão que se lhe seguia era um rapaz, reguila que não podia ser mais, mas de bom coração, e que a ajudava como podia e sabia, quando lhe apetecia, pois muitas vezes alegava que estava cansado e quando mais crescido, dizia estar farto daquela vida. Tal como ela, o João, muito cedo aspirou a descobrir outros mundos, sair dali, pois dizia sempre que o mundo não podia ser só aquela montanha e aquelas duas ou três aldeias. E a ele a mãe não permitia faltas da escola, pois era homem, e já bastava o pai saber tão pouco de números e letras, e portanto apesar das caminhadas tanto ele, como os dois irmãos homens que se seguiram ao João, aprenderam na escola bem mais que Helena que só encontrou algum apoio mais tarde depois de criar a quarta irmã também mulher como ela. Depois desta irmã nascer, Helena ainda teve mais dois irmãos para cuidar, um rapaz e outra irmã, a mais nova se todos os irmãos e como a mãe dizia, criada noutra época já como se fosse uma rainha, com todos os irmão a paparicá-la.
Durante a década de cinquenta, e como sabia Helena ajudou a mãe e o pai e foi á escola os dias que conseguiu e lhe foi permitido ir. Em 1960 tinha ela 16 anos e João 15, e a mais nova, a Clara 6 anos e muitas vezes João comentava com Helena.
-Um dia destes fujo daqui. Sei de uns homens que partiram para longe, galgaram Espanha, para ganhar a vida no estrangeiro. Aqui nunca vou ser nada, nem fazer mais que o pai, criar ovelhas, e não quero isso para mim.
-Estás maluco João, e vais com que dinheiro? A mãe sabendo morre de desgosto, e já não anda muito bem. Para o estrangeiro não, mas gostava de ir para a capital. Sei de uma rapariga que andava na escola que foi com uma prima servir uns senhores lá na capital. Para aí também eu ia, e sabes que mais, e depois gostava de estudar que aqui não aprendi nada. Um dia gostava de ser doutora, saber muito de letras e números, ler livros, sei lá, queria ser como a professora que tive na escola, mas queria saber coisas do mundo que deve ser muito lindo.
-Ainda és pior que eu. Sonhas alto rapariga. Mas vamos combinar, se eu conseguir abalar daqui, quando tiver dinheiro mando-te algum e com ele vais para a capital. Que achas?
-Está bem, mas vê onde te metes, não conheces os caminhos, nem ninguém, não achas que devias falar nisto ao pai?
-Se lhe digo, não me deixa ir. Não, só te conto a ti, pois para o fazer tenho de ir pelo escondido da noite, como ouvi dizer na outra aldeia, aos homens que falavam na taberna. Vão a salto, pelas montanhas e de noite e depois lá se safam.
João não tirava esta ideia da sua cabeça, e se o desejava fazer nessa altura, no ano seguinte, em 1961 quando rebentou a guerra no ultramar, e começou a ver abalar alguns jovens para a guerra, na primeira oportunidade que teve, juntou-se a grupo e quase só com o que tinha no corpo abalou, dizendo à irmã.
-Diz à mãe que não se preocupe comigo. Um dia hei-de voltar. Cresci nas montanhas, não quero ir para a guerra que nem sei porque existe, nem onde é. Ela que não se apoquente, que à guerra não vou. A ti, logo que possa, mando-te dinheiro para ires para a capital como desejas.
Helena preparou ao irmão, um saco com alguma coisa de comer para o caminho, e alguma roupa, pouca, pois também não tinha muita, e pela noite dentro, quando todos dormiam, recolhida no seu canto, daquele quarto onde dormia com a maioria dos irmãos, senti-o partir, mas ficou quieta em silencio, pedindo a Deus que tudo lhe corresse bem. Também ela, não gostaria de ver o irmão partir para a guerra, sabe-se lá para onde.
De manhã quando deram por falta do João, não disse nada, deixou que o tempo passasse, e só muito tarde, à hora da ceia, com todos à volta do lume, lhes contou o que sabia.
-O João foi com um grupo de homens para Espanha e depois deve ir para algum lado trabalhar, não sei aonde. Disse-me que não quer ir para a tropa, para depois o enviarem para a guerra sem saber para onde. Não vos disse mais cedo, para ver no que dava, pois ele até podia ser apanhado ou voltar para trás, mas a esta hora o pior já passou.
Não houve muitos comentários, e a mãe só disse que também não o queria ver partir para a guerra nem aos irmãos, mas fugir à tropa tinha ideia que seria perigoso. O pai pelo seu lado comentou.
-Nenhum de vocês vai comentar na rua o que aqui foi dito. O João partiu, deixá-lo ir.
Fotos do Goggle
Mas Helena vivia cansada de ter tão pouco. Na altura em que devia ter ido à escola, até foi inscrita pelo pai em Quintela, a maior aldeia de todas vizinha de Malhoa, que tinha uma boa escola para a altura, e Helena lá ia descendo e subindo todos os dias, alguns quilómetros até á escola, com frio, neve e chuva intensos, ou então um calor intenso quando chegava o final da escola no mês de Junho, para aprender a ler e a contar como era seu desejo. Mas a mãe precisava dela em casa para cuidar dos irmãos que foram nascendo depois dela, pois tinha que acompanhar o pai no tratamento ta horta e cuidado do gado que tinham, e ela, sem desobedecer à mãe, e porque o caminho era duro, faltava muitos dias à escola. O que aprendeu foi tão pouco, que mal dava para ler alguma carta, que um dia se o tivesse, algum namorado lhe escrevesse.
O irmão que se lhe seguia era um rapaz, reguila que não podia ser mais, mas de bom coração, e que a ajudava como podia e sabia, quando lhe apetecia, pois muitas vezes alegava que estava cansado e quando mais crescido, dizia estar farto daquela vida. Tal como ela, o João, muito cedo aspirou a descobrir outros mundos, sair dali, pois dizia sempre que o mundo não podia ser só aquela montanha e aquelas duas ou três aldeias. E a ele a mãe não permitia faltas da escola, pois era homem, e já bastava o pai saber tão pouco de números e letras, e portanto apesar das caminhadas tanto ele, como os dois irmãos homens que se seguiram ao João, aprenderam na escola bem mais que Helena que só encontrou algum apoio mais tarde depois de criar a quarta irmã também mulher como ela. Depois desta irmã nascer, Helena ainda teve mais dois irmãos para cuidar, um rapaz e outra irmã, a mais nova se todos os irmãos e como a mãe dizia, criada noutra época já como se fosse uma rainha, com todos os irmão a paparicá-la.
Durante a década de cinquenta, e como sabia Helena ajudou a mãe e o pai e foi á escola os dias que conseguiu e lhe foi permitido ir. Em 1960 tinha ela 16 anos e João 15, e a mais nova, a Clara 6 anos e muitas vezes João comentava com Helena.
-Um dia destes fujo daqui. Sei de uns homens que partiram para longe, galgaram Espanha, para ganhar a vida no estrangeiro. Aqui nunca vou ser nada, nem fazer mais que o pai, criar ovelhas, e não quero isso para mim.
-Estás maluco João, e vais com que dinheiro? A mãe sabendo morre de desgosto, e já não anda muito bem. Para o estrangeiro não, mas gostava de ir para a capital. Sei de uma rapariga que andava na escola que foi com uma prima servir uns senhores lá na capital. Para aí também eu ia, e sabes que mais, e depois gostava de estudar que aqui não aprendi nada. Um dia gostava de ser doutora, saber muito de letras e números, ler livros, sei lá, queria ser como a professora que tive na escola, mas queria saber coisas do mundo que deve ser muito lindo.
-Ainda és pior que eu. Sonhas alto rapariga. Mas vamos combinar, se eu conseguir abalar daqui, quando tiver dinheiro mando-te algum e com ele vais para a capital. Que achas?
-Está bem, mas vê onde te metes, não conheces os caminhos, nem ninguém, não achas que devias falar nisto ao pai?
-Se lhe digo, não me deixa ir. Não, só te conto a ti, pois para o fazer tenho de ir pelo escondido da noite, como ouvi dizer na outra aldeia, aos homens que falavam na taberna. Vão a salto, pelas montanhas e de noite e depois lá se safam.
João não tirava esta ideia da sua cabeça, e se o desejava fazer nessa altura, no ano seguinte, em 1961 quando rebentou a guerra no ultramar, e começou a ver abalar alguns jovens para a guerra, na primeira oportunidade que teve, juntou-se a grupo e quase só com o que tinha no corpo abalou, dizendo à irmã.
-Diz à mãe que não se preocupe comigo. Um dia hei-de voltar. Cresci nas montanhas, não quero ir para a guerra que nem sei porque existe, nem onde é. Ela que não se apoquente, que à guerra não vou. A ti, logo que possa, mando-te dinheiro para ires para a capital como desejas.
Helena preparou ao irmão, um saco com alguma coisa de comer para o caminho, e alguma roupa, pouca, pois também não tinha muita, e pela noite dentro, quando todos dormiam, recolhida no seu canto, daquele quarto onde dormia com a maioria dos irmãos, senti-o partir, mas ficou quieta em silencio, pedindo a Deus que tudo lhe corresse bem. Também ela, não gostaria de ver o irmão partir para a guerra, sabe-se lá para onde.
De manhã quando deram por falta do João, não disse nada, deixou que o tempo passasse, e só muito tarde, à hora da ceia, com todos à volta do lume, lhes contou o que sabia.
-O João foi com um grupo de homens para Espanha e depois deve ir para algum lado trabalhar, não sei aonde. Disse-me que não quer ir para a tropa, para depois o enviarem para a guerra sem saber para onde. Não vos disse mais cedo, para ver no que dava, pois ele até podia ser apanhado ou voltar para trás, mas a esta hora o pior já passou.
Não houve muitos comentários, e a mãe só disse que também não o queria ver partir para a guerra nem aos irmãos, mas fugir à tropa tinha ideia que seria perigoso. O pai pelo seu lado comentou.
-Nenhum de vocês vai comentar na rua o que aqui foi dito. O João partiu, deixá-lo ir.
Fotos do Goggle
O desencanto
A vida lentamente foi dando a Isabel, um pouco daquilo que ela buscou e lutou muito por conseguir. Pelo seu caminho já algo longo, encontrou basicamente de tudo, viveu bons instantes como os que já foram mencionados, mas também momentos terríveis. Dos seus sonhos de menina, muitos foram-se perdendo pelo caminho, esfumando-se como nuvens efémeras, como se nem sequer existissem no mundo táctil e real onde habitava. Factos que nunca conquistou, decerto, por não lhe estarem à partida destinadas, ou porque simplesmente só faziam parte unicamente do seu imaginário.
Queria ser feliz, decerto como todos que cruzavam com ela no caminho, pois não existe ninguém que não sonhe com a felicidade. Olhando as gentes à sua volta, todos lhe pareciam tranquilos, sorridentes a cada instante, e Isabel não conseguia entender este seu sentimento de tristeza e nostalgia, tão permanentes e castrantes. Ela não conseguiu colocar de lado as suas inquietações, e se nuns dias respirava mais serenamente, outros havia, que sentia sobre ela o peso do Universo, como se tudo e todos se tivessem voltado contra ela, acusando-a de tudo o que não fez, ou fez, mas erradamente, que para ela era quase toda a sua vida, pois sentia-se constantemente insatisfeita e incompleta.
Isabel lutou sempre como pode para tapar esta nuvem que pairava sobre si, como uma sombra persistente e avassaladora, e iludiu-se muitas vezes pensando e fazendo de conta, que tudo estava bem.
Sentiu-se recompensada pelos filhos que teve, estudiosos, presentes sempre que possível, saudáveis e fortes, pelo companheiro fiel e amigo, grande amigo, bom pai, o melhor e maior de todos, que não conseguiu fazê-la sentir-se mais que mal-amada, é certo, mas que a compensou mais tarde, pelo apoio persistente e firme, e uma amizade extremas, pela companhia possível, tudo atitudes que não encontrou nunca em mais ninguém que conheceu.
Mas tentou suplantar todas as ausências que sentia de afecto, carinhos, estima, compreensão, e esquecer o sensação que tanto a prejudicava de auto-estima muito precária, temor e perturbação quase constantes, com uma capa de ferro que arranjou sabe-se lá onde, e que mal ou bem, a foi protegendo ao longo da vida, mesmo que transformando-a dia após dia.
Isabel confiava nas pessoas, era amiga delas, entregava-se aos seus afectos totalmente, e se lhe faziam algo que a desiludisse ficava mais triste do que já era, não conseguindo esquecer facilmente a troca que lhe faziam, do bem pelo mal. Mas ia sobrevivendo a todas estas situações, como toda a gente, com calma e ponderação, não culpabilizando outras relações que poderia ter com outras pessoas diferentes. Engolia e sofria para dentro e tentava caminhar em frente de cabeça erguida.
Quando casara trouxera de casa dos pais, apenas umas argolas de ouro, coisa simples, pequena e fina, que o pai lhe dera na adolescência, assim como um fio de ouro singelo que ele lhe oferecera pela sua quarta classe, que nem medalha tinha. No dedo a aliança de casamento e o anel de noivado que Pedro lhe tinha oferecido. Pedro trazia consigo, além da aliança de ouro do casamento, um fio de ouro fininho que a madrinha lhe tinha dado à nascença.
Estes eram os pertences de ouro de Isabel e Pedro.
Depois de casados, claro que não havia dinheiro para aumentar o pouco que tinham, pois primeiro ponderaram no melhoramento da casa, depois num carro em terceira mão, e mais tarde com o nascimento dos filhos, o importante era que nada lhes faltasse, para o seu crescimento normal e saudável, e assim aquelas eram compras simplesmente inimagináveis, para ambos.
Fotos do Goggle
Queria ser feliz, decerto como todos que cruzavam com ela no caminho, pois não existe ninguém que não sonhe com a felicidade. Olhando as gentes à sua volta, todos lhe pareciam tranquilos, sorridentes a cada instante, e Isabel não conseguia entender este seu sentimento de tristeza e nostalgia, tão permanentes e castrantes. Ela não conseguiu colocar de lado as suas inquietações, e se nuns dias respirava mais serenamente, outros havia, que sentia sobre ela o peso do Universo, como se tudo e todos se tivessem voltado contra ela, acusando-a de tudo o que não fez, ou fez, mas erradamente, que para ela era quase toda a sua vida, pois sentia-se constantemente insatisfeita e incompleta.
Isabel lutou sempre como pode para tapar esta nuvem que pairava sobre si, como uma sombra persistente e avassaladora, e iludiu-se muitas vezes pensando e fazendo de conta, que tudo estava bem.
Sentiu-se recompensada pelos filhos que teve, estudiosos, presentes sempre que possível, saudáveis e fortes, pelo companheiro fiel e amigo, grande amigo, bom pai, o melhor e maior de todos, que não conseguiu fazê-la sentir-se mais que mal-amada, é certo, mas que a compensou mais tarde, pelo apoio persistente e firme, e uma amizade extremas, pela companhia possível, tudo atitudes que não encontrou nunca em mais ninguém que conheceu.
Mas tentou suplantar todas as ausências que sentia de afecto, carinhos, estima, compreensão, e esquecer o sensação que tanto a prejudicava de auto-estima muito precária, temor e perturbação quase constantes, com uma capa de ferro que arranjou sabe-se lá onde, e que mal ou bem, a foi protegendo ao longo da vida, mesmo que transformando-a dia após dia.
Isabel confiava nas pessoas, era amiga delas, entregava-se aos seus afectos totalmente, e se lhe faziam algo que a desiludisse ficava mais triste do que já era, não conseguindo esquecer facilmente a troca que lhe faziam, do bem pelo mal. Mas ia sobrevivendo a todas estas situações, como toda a gente, com calma e ponderação, não culpabilizando outras relações que poderia ter com outras pessoas diferentes. Engolia e sofria para dentro e tentava caminhar em frente de cabeça erguida.
Quando casara trouxera de casa dos pais, apenas umas argolas de ouro, coisa simples, pequena e fina, que o pai lhe dera na adolescência, assim como um fio de ouro singelo que ele lhe oferecera pela sua quarta classe, que nem medalha tinha. No dedo a aliança de casamento e o anel de noivado que Pedro lhe tinha oferecido. Pedro trazia consigo, além da aliança de ouro do casamento, um fio de ouro fininho que a madrinha lhe tinha dado à nascença.
Estes eram os pertences de ouro de Isabel e Pedro.
Depois de casados, claro que não havia dinheiro para aumentar o pouco que tinham, pois primeiro ponderaram no melhoramento da casa, depois num carro em terceira mão, e mais tarde com o nascimento dos filhos, o importante era que nada lhes faltasse, para o seu crescimento normal e saudável, e assim aquelas eram compras simplesmente inimagináveis, para ambos.
Fotos do Goggle
terça-feira, 15 de março de 2011
A dança e Isabel
Continuavam a ser muitas as horas que passava sozinha, e cada vez mais, pois os filhos, crescidos, ausentavam-se também primeiro pelos estudos depois pelo trabalho, até que finalmente passaram a viver independentes. Era a vida a andar ininterruptamente para a frente, e Isabel a querer aproveitar dela o que ainda não tivera. Por vezes revoltava-se por achar que fora roubada em muitas épocas, de tempo, de prazeres, de sensações, que a privaram de sentir indevidamente. Mas já nada havia a fazer, só caminhar e seguir em frente, aprendendo e usufruindo ainda, o que a vida lhe podia conceder.
Um dia, nesta fase de meia soledade e vazio, resolveu que era a altura de aprender a dançar como sempre sonhara desde criança. Estavam a chegar a Portugal, danças que estavam a entrar pela Europa vindas da Argentina, de Cuba e de África. Pesquisou, informou-se e encontrou. Correu várias escolas até se fixar numa definitivamente, mas os primeiros dois, quase três anos, passou-os numa escola onde conheceu algumas pessoas que amou verdadeiramente, pela singeleza, porque se mostraram amigas e afáveis, mas também porque a ensinaram no que Isabel quase achou impossível aprender.
Um, dois, três, cinco, seis, sete, foi uma contagem que passou a fazer parte da sua vida. Iniciar-se no Merengue não foi tarefa fácil, quando começou a introduzir passos mais complicados na dança, para não falar, em tentar dançar numa Roda de Casino, ou a par um Funaná. Tudo aquilo que só a ver parecia simples ao princípio, lhe mostrava demasiado complicado a executar, com um ritmo que o seu corpo não assimilava. Mas Isabel conseguiu desembrulhar-se do complicado, que parecia simples, mas tinha que ser trabalhado para ser conseguido, e apreendeu o ritmo de Salsa Cubana. Depois, com alguma dificuldade, no kizomba e no Semba, lá conseguiu captar à sensualidade dos movimentos, apaixonando-se por essa forma de dança.
Mas mais difícil que isso, conseguiu que o Pedro aderisse a esse prazer e se inscrevesse na sua escola, para também ter aulas de dança. Essa era uma batalha ganha, mas ficava sempre triste, quando lhe diziam que para a sua idade, dançava muito bem. Ela não queria, que na dança houvesse idade, só queria dançar bem, e de facto dançava mas o seu tempo tinha passado um pouco, e de facto dançava mesmo bem mas para a sua idade, pois nunca seria como uma jovem a dançar.
Sei de algumas histórias, que me contou e que viveu nestas lides das danças, que não as vou descrever, por serem tão reais e sinceras que não têm porque, nem como ser descritas, por serem tão intensamente sentidas, mas dançar bem e não ter com quem dançar não é fácil suportar, bem melhor, é não saber dançar, nem querer aprender, nem ir ver dançar, detestar mesmo a dança, para depois não ter que olhar os outros e ficar parada no canto da sala a ver a sua agilidade e beleza, a forma como os seus corpos se contorcem e bamboleiam, sempre ao ritmo sincopado da música.
Olhar e contemplar sem saber como fazer, apreciar só, não custa nada, mas a Isabel isso doía-lhe, pois gostaria de fazer igual. Isabel era a mais velha da escola, os jovens querem-se, uns com os outros, e muitas vezes ela sentia-se como uma intrusa. Além disso o seu tempo de força e vigor já passara. Mas foi sempre andando sem desistir, ainda que muitos dias o entusiasmo lhe faltasse.
Um dia, porque estava cansada da forma de ensino daquela escola e também da maneira como era tratada, resolveu procurar um outro canto, uma nova escola. Tanto buscou que encontrou. Aquela escola era uma família, o seu director, professor e bailarino principal, os alunos, todos juntos, faziam um grupo espectacular. Ali Isabel sentia-se bem, sem nunca esquecer os seus amores antigos, ali arranjou um novo ninho, um novo encanto. O professor dava-lhe aulas particulares e Isabel rejubilava de alegria e satisfação, pela aprendizagem, pela partilha, pela amizade que foram construindo aos poucos. E Isabel aprendeu Salsa em linha, o Chá-chá-chá e outras danças e mais que tudo, aprendeu a libertar-se, e a deixar-se conduzir numa dança, como nunca sonhara antes.
Naquelas aulas, em que estava só ela e o seu mestre, Isabel era feliz, porque se sentia única, solta e realizada a cada instante, apesar de saber que era só ali, naquela sala, que isso acontecia, pois nas festas o peso da idade e os pensamentos que tinha sobre o dançar muito ou pouco, por falta de par ou de energia, voltavam sempre a ensombrá-la.
Fotos do Goggle
Um dia, nesta fase de meia soledade e vazio, resolveu que era a altura de aprender a dançar como sempre sonhara desde criança. Estavam a chegar a Portugal, danças que estavam a entrar pela Europa vindas da Argentina, de Cuba e de África. Pesquisou, informou-se e encontrou. Correu várias escolas até se fixar numa definitivamente, mas os primeiros dois, quase três anos, passou-os numa escola onde conheceu algumas pessoas que amou verdadeiramente, pela singeleza, porque se mostraram amigas e afáveis, mas também porque a ensinaram no que Isabel quase achou impossível aprender.
Um, dois, três, cinco, seis, sete, foi uma contagem que passou a fazer parte da sua vida. Iniciar-se no Merengue não foi tarefa fácil, quando começou a introduzir passos mais complicados na dança, para não falar, em tentar dançar numa Roda de Casino, ou a par um Funaná. Tudo aquilo que só a ver parecia simples ao princípio, lhe mostrava demasiado complicado a executar, com um ritmo que o seu corpo não assimilava. Mas Isabel conseguiu desembrulhar-se do complicado, que parecia simples, mas tinha que ser trabalhado para ser conseguido, e apreendeu o ritmo de Salsa Cubana. Depois, com alguma dificuldade, no kizomba e no Semba, lá conseguiu captar à sensualidade dos movimentos, apaixonando-se por essa forma de dança.
Mas mais difícil que isso, conseguiu que o Pedro aderisse a esse prazer e se inscrevesse na sua escola, para também ter aulas de dança. Essa era uma batalha ganha, mas ficava sempre triste, quando lhe diziam que para a sua idade, dançava muito bem. Ela não queria, que na dança houvesse idade, só queria dançar bem, e de facto dançava mas o seu tempo tinha passado um pouco, e de facto dançava mesmo bem mas para a sua idade, pois nunca seria como uma jovem a dançar.
Sei de algumas histórias, que me contou e que viveu nestas lides das danças, que não as vou descrever, por serem tão reais e sinceras que não têm porque, nem como ser descritas, por serem tão intensamente sentidas, mas dançar bem e não ter com quem dançar não é fácil suportar, bem melhor, é não saber dançar, nem querer aprender, nem ir ver dançar, detestar mesmo a dança, para depois não ter que olhar os outros e ficar parada no canto da sala a ver a sua agilidade e beleza, a forma como os seus corpos se contorcem e bamboleiam, sempre ao ritmo sincopado da música.
Olhar e contemplar sem saber como fazer, apreciar só, não custa nada, mas a Isabel isso doía-lhe, pois gostaria de fazer igual. Isabel era a mais velha da escola, os jovens querem-se, uns com os outros, e muitas vezes ela sentia-se como uma intrusa. Além disso o seu tempo de força e vigor já passara. Mas foi sempre andando sem desistir, ainda que muitos dias o entusiasmo lhe faltasse.
Um dia, porque estava cansada da forma de ensino daquela escola e também da maneira como era tratada, resolveu procurar um outro canto, uma nova escola. Tanto buscou que encontrou. Aquela escola era uma família, o seu director, professor e bailarino principal, os alunos, todos juntos, faziam um grupo espectacular. Ali Isabel sentia-se bem, sem nunca esquecer os seus amores antigos, ali arranjou um novo ninho, um novo encanto. O professor dava-lhe aulas particulares e Isabel rejubilava de alegria e satisfação, pela aprendizagem, pela partilha, pela amizade que foram construindo aos poucos. E Isabel aprendeu Salsa em linha, o Chá-chá-chá e outras danças e mais que tudo, aprendeu a libertar-se, e a deixar-se conduzir numa dança, como nunca sonhara antes.
Naquelas aulas, em que estava só ela e o seu mestre, Isabel era feliz, porque se sentia única, solta e realizada a cada instante, apesar de saber que era só ali, naquela sala, que isso acontecia, pois nas festas o peso da idade e os pensamentos que tinha sobre o dançar muito ou pouco, por falta de par ou de energia, voltavam sempre a ensombrá-la.
Fotos do Goggle
terça-feira, 8 de março de 2011
tanto Brasil que eu amo
Isabel voltou ao Brasil com Maria, porque ela e Pedro lhe tinham prometido essa viagem, e Pedro nessa altura não podia viajar. Isabel que nunca viajara verdadeiramente sozinha até ao estrangeiro, sentiu-se uma valente, subiu no avião, aterrou e foi até ao resort com a filha. Fez passeios com Maria, e mostrou-lhe tudo o que conhecera com Pedro nas redondezas e na cidade de Salvador da Baia. O Mercado, o Pelourinho, a igreja de São Francisco e a igreja de senhor do Bom Fim, nada ficou por ver.
Maria divertiu-se quanto quis, passeou e fez os passeios que eram para fazer. Viram os espectáculos da noite no hotel e no final iam à discoteca, e ambas divertiram-se como duas amigas de verdade. Isabel gostou destes dias, e aproveitou cada segundo que esteve com a filha com a certeza, que uma ocasião como esta não voltaria a acontecer-lhe, mostrando-lhe o local onde gostava de passar férias com o pai, deixando-a livre o resto do tempo para se divertir, aproveitando os entretenimentos que o Sauipi tinha para lhe oferecer.
De longe quando a observava no circo do hotel, pensando ser tudo mentira, sorria só de vê-la a divertir-se, como se fosse um sonho estarem juntas naquele espaço lindo, tão longínquo de casa. E se Isabel lhe queria bem e confiava nela. Maria era a sua menina, a sua relíquia, o seu bem-querer e estava uma senhorinha. Isabel vivia ali um sonho lindo, como nunca imaginara ser possível com a filha.
Dias como estes, Isabel também não voltará a ter, porque Maria cresceu, e Manuel que nesta altura já não quis viajar com a mãe, igualmente, e as férias dos filhos dificilmente serão alguma vez mais, passadas conjuntamente com a mãe e com o pai, mas Isabel sabe que também eles cresceram com ela, pela forma como ela soube estar junto deles nestas alturas, quando faziam férias conjuntas, dando-lhes liberdade e espaço para eles serem gente.
Enquanto Sérgio permanecesse no Brasil, seria mais fácil Pedro e Isabel voltarem ao Brasil, e na verdade pelo facto de ele ter mudado de cidade, Isabel não deixou de visitar esse país, antes pelo contrário, pois assim tinham muitas mais cidades para visitar. De visita a Sérgio, voltaram várias vezes para visitar a cidade de Vitória no Estado de Espírito Santo onde o amigo passou a ter residência própria. Naquela cidade linda, Isabel muitas vezes sonhava poder viver, mas depressa acordava desse sonho louco. Vitória fica muito longe da sua casa, muito mais que o Rio de Janeiro, e a sua realidade é outra bem distinta. Mas pelas vezes que lá esteve, muitas mais que Pedro, que por vezes só aparecia no final das férias para regressar com ela, pois o seu trabalho não lhe permitia mais que isso, Isabel adorava o quarto que Fernanda, a esposa de Sérgio lhe oferecia na sua casa.
Virada para a avenida principal, com uma vista magnífica para o mar, acordava bem de madrugada com aquela vista maravilhosa das palmeiras e das ilhas, que lhe pareciam entrar pelo quarto adentro no sétimo andar. Em Vitória não deixaram nada por ver, e voltaram para visitar outras cidades bonitas que Sérgio lhes recomendou, e para todas estas viagens Isabel ia ganhado coragem mas nunca perdendo o medo das longas horas de voo.
Visitaram Ouro Preto, cidade património mundial e Tiradentes, Senhora da Conceição. E tanto que havia a dizer destas cidades lindas e ricas de património, mas Isabel guardou na memória as calçadas em pedra, as igrejas, as casas pintadas de cor, os pintores, sabendo que o ouro partia destas zonas para Parati que conhecera anos antes para depois chegar a Portugal. Em Ouro Preto olhando aquelas montanhas, onde muitos anos antes, mas depois de 1500, muitos negros escravos terão trabalhado duramente, sentia-se uma privilegiada por poder apreciar aquela beleza natural, ela que vivia a tantos milhares de quilómetros dali. Também eles tinham viajado milhares de quilómetros, mas tinham tido pior sorte, pois não sendo daquelas terras, acabaram por ali ficar acorrentados como escravos.
Fotos do Goggle
Maria divertiu-se quanto quis, passeou e fez os passeios que eram para fazer. Viram os espectáculos da noite no hotel e no final iam à discoteca, e ambas divertiram-se como duas amigas de verdade. Isabel gostou destes dias, e aproveitou cada segundo que esteve com a filha com a certeza, que uma ocasião como esta não voltaria a acontecer-lhe, mostrando-lhe o local onde gostava de passar férias com o pai, deixando-a livre o resto do tempo para se divertir, aproveitando os entretenimentos que o Sauipi tinha para lhe oferecer.
De longe quando a observava no circo do hotel, pensando ser tudo mentira, sorria só de vê-la a divertir-se, como se fosse um sonho estarem juntas naquele espaço lindo, tão longínquo de casa. E se Isabel lhe queria bem e confiava nela. Maria era a sua menina, a sua relíquia, o seu bem-querer e estava uma senhorinha. Isabel vivia ali um sonho lindo, como nunca imaginara ser possível com a filha.
Dias como estes, Isabel também não voltará a ter, porque Maria cresceu, e Manuel que nesta altura já não quis viajar com a mãe, igualmente, e as férias dos filhos dificilmente serão alguma vez mais, passadas conjuntamente com a mãe e com o pai, mas Isabel sabe que também eles cresceram com ela, pela forma como ela soube estar junto deles nestas alturas, quando faziam férias conjuntas, dando-lhes liberdade e espaço para eles serem gente.
Enquanto Sérgio permanecesse no Brasil, seria mais fácil Pedro e Isabel voltarem ao Brasil, e na verdade pelo facto de ele ter mudado de cidade, Isabel não deixou de visitar esse país, antes pelo contrário, pois assim tinham muitas mais cidades para visitar. De visita a Sérgio, voltaram várias vezes para visitar a cidade de Vitória no Estado de Espírito Santo onde o amigo passou a ter residência própria. Naquela cidade linda, Isabel muitas vezes sonhava poder viver, mas depressa acordava desse sonho louco. Vitória fica muito longe da sua casa, muito mais que o Rio de Janeiro, e a sua realidade é outra bem distinta. Mas pelas vezes que lá esteve, muitas mais que Pedro, que por vezes só aparecia no final das férias para regressar com ela, pois o seu trabalho não lhe permitia mais que isso, Isabel adorava o quarto que Fernanda, a esposa de Sérgio lhe oferecia na sua casa.
Virada para a avenida principal, com uma vista magnífica para o mar, acordava bem de madrugada com aquela vista maravilhosa das palmeiras e das ilhas, que lhe pareciam entrar pelo quarto adentro no sétimo andar. Em Vitória não deixaram nada por ver, e voltaram para visitar outras cidades bonitas que Sérgio lhes recomendou, e para todas estas viagens Isabel ia ganhado coragem mas nunca perdendo o medo das longas horas de voo.
Visitaram Ouro Preto, cidade património mundial e Tiradentes, Senhora da Conceição. E tanto que havia a dizer destas cidades lindas e ricas de património, mas Isabel guardou na memória as calçadas em pedra, as igrejas, as casas pintadas de cor, os pintores, sabendo que o ouro partia destas zonas para Parati que conhecera anos antes para depois chegar a Portugal. Em Ouro Preto olhando aquelas montanhas, onde muitos anos antes, mas depois de 1500, muitos negros escravos terão trabalhado duramente, sentia-se uma privilegiada por poder apreciar aquela beleza natural, ela que vivia a tantos milhares de quilómetros dali. Também eles tinham viajado milhares de quilómetros, mas tinham tido pior sorte, pois não sendo daquelas terras, acabaram por ali ficar acorrentados como escravos.
Fotos do Goggle
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Caminhos percorridos
Para aqueles dias que estariam no Brasil, Sérgio delineou com Pedro um roteiro magnífico que lhes daria a conhecer uma boa parte da zona envolvente do Rio de Janeiro. Claro que teriam que visitar os locais mais importantes do Rio, e assim logo que possível foram com uns casais amigos brasileiros, visitar o Corcovado e o Pão de Açúcar. Isabel deliciava-se a ouvir aquela gente falar, pois a sua voz cantante deixava-a bem-disposta e animada e as palavras doces e carinhosas que utilizavam achava-as de uma ternura infinda. Todos tinham diminutivos, estavam sempre risonhos, acordavam bem-dispostos, nunca ninguém dizia que estava indo mais ou menos, dizia sempre “está-se bem, sim senhor”.
Nessa visita Isabel parecia viver um sonho. Dali as vistas eram magníficas, soberbas, quase irreais pela grandiosidade de tanta beleza, difícil de descrever para quem como ela nunca viu tamanha grandiosidade, que uma coisa é ver e outra é descrever sem sentir a emoção dessa visão extraordinária, e Deus ali esmerou-se e juntou como numa tela imensa, a beleza do mar com a praia, a montanha com o maravilhoso verde tropical, e a cidade grandiosa e imponente, que vista dali parecia mais que perfeita e bela, tudo harmoniosamente envolvido num clima verdadeiramente único e sublime.
Isabel queria ficar ali para sempre, pois aquela era a mais linda visão da natureza que alguma vez tivera. Pedro fotografou o local e Isabel de todos os ângulos, e para mais tarde recordar, trouxeram do Pão de Açúcar uma foto deles, estampada num prato, que iriam guardar para toda a vida como uma recordação única e viva de um momento tão especial.
Todos os dias, passeavam muito cedo pela praia, fazendo uma caminhada salutar, ou então misturados com o povo brasileiro andavam pelo calçadão sem medo de ser assaltados. Sérgio tinha-os avisado como devia ser a sua postura na Avenida de Copacabana, e também como saíam vestidos simplesmente e sem valores expostos, nada nunca lhes aconteceu, como era usual as pessoas comentarem.
No final das caminhadas, e antes de entrar em casa, uma aguinha de coco caía sempre bem. Costumavam também passear e frequentar os dois, a praia de Ipanema, logo ali ao lado, e faziam-no com a maior desenvoltura e á vontade como se estivessem na sua terra.
Muitas vezes, Pedro no final da caminhada em Copacabana ia dar um mergulho no mar de Ipanema, enquanto Isabel preferia ficar deitada a olhar aquele céu magnifico onde o Sol nasce no mar, na piscina do prédio, que tinha uma envolvente lúdica extraordinária, e um jardim verde e bem cuidado que dava prazer só de olhar. Passavam a semana em pequenos passeios citadinos com a esposa de Sérgio, para de quinta-feira á noite até domingo á noite, e foram três os fins-de-semana, o da chegada e mais dois, saírem da grande cidade e visitarem cidades e praias relativamente próximas.
Angra dos Reis, Búzios, e Parati, mereciam uma visita além de uma grande série de outras cidades que Isabel não fixou, pois a sua cabeça via tanta coisa que parecia um catavento, sem conseguir memorizar tanta informação junta. Aquelas praias belas pelo enquadramento marítimo, pelo clima, tinham tudo de belo. O calor imenso, a areia quente, o mar tépido, as praias que os acolhiam, umas a seguir às outras, sempre com o mesmo calor e o mesmo verde tropical envolvente que se chegava ao mar, como Isabel nunca tinha visto antes.
E o verde que Isabel amava tanto nunca se ausentava e deslumbrava-a cada dia mais, porque estava em todo o lado, e só terminava mesmo juntinho ao mar, o que era fascinante, pois estava num país tropical.
Em Parati, deram um extraordinário passeio de barco, alugando um barco a um pescador, e com mais um casal amigo e os filhos perfaziam oito pessoas o que fazia um belo grupo de passeio. Marearam pelo meio de ilhas, e numa determinada zona o barco parou, e todos mergulharam. Isabel aí deu por abençoadas as suas aulas de natação. Tal como os mais audazes e as crianças destemidas, mas sabidas, Isabel mergulhou naquele mar de vários metros de profundidade, mas tão límpido e cristalino, que se conseguiam ver as pedras do fundo do mar e os peixes de várias cores que nadavam ao seu redor até ao fundo e numa longa distância. Depois daquele mergulho soberbo, o barco abordou numa ilha onde todos almoçaram uma refeição de marisco, e finalmente de volta a Parati, o tempo toldou-se e ainda no barco o céu ficou negro, choveu sem parar, e Isabel constatou como era o clima tropical, quente, com muito sol, e de repente chuva imensa, mas sempre muito quente.
Fotos do Google
Nessa visita Isabel parecia viver um sonho. Dali as vistas eram magníficas, soberbas, quase irreais pela grandiosidade de tanta beleza, difícil de descrever para quem como ela nunca viu tamanha grandiosidade, que uma coisa é ver e outra é descrever sem sentir a emoção dessa visão extraordinária, e Deus ali esmerou-se e juntou como numa tela imensa, a beleza do mar com a praia, a montanha com o maravilhoso verde tropical, e a cidade grandiosa e imponente, que vista dali parecia mais que perfeita e bela, tudo harmoniosamente envolvido num clima verdadeiramente único e sublime.
Isabel queria ficar ali para sempre, pois aquela era a mais linda visão da natureza que alguma vez tivera. Pedro fotografou o local e Isabel de todos os ângulos, e para mais tarde recordar, trouxeram do Pão de Açúcar uma foto deles, estampada num prato, que iriam guardar para toda a vida como uma recordação única e viva de um momento tão especial.
Todos os dias, passeavam muito cedo pela praia, fazendo uma caminhada salutar, ou então misturados com o povo brasileiro andavam pelo calçadão sem medo de ser assaltados. Sérgio tinha-os avisado como devia ser a sua postura na Avenida de Copacabana, e também como saíam vestidos simplesmente e sem valores expostos, nada nunca lhes aconteceu, como era usual as pessoas comentarem.
No final das caminhadas, e antes de entrar em casa, uma aguinha de coco caía sempre bem. Costumavam também passear e frequentar os dois, a praia de Ipanema, logo ali ao lado, e faziam-no com a maior desenvoltura e á vontade como se estivessem na sua terra.
Muitas vezes, Pedro no final da caminhada em Copacabana ia dar um mergulho no mar de Ipanema, enquanto Isabel preferia ficar deitada a olhar aquele céu magnifico onde o Sol nasce no mar, na piscina do prédio, que tinha uma envolvente lúdica extraordinária, e um jardim verde e bem cuidado que dava prazer só de olhar. Passavam a semana em pequenos passeios citadinos com a esposa de Sérgio, para de quinta-feira á noite até domingo á noite, e foram três os fins-de-semana, o da chegada e mais dois, saírem da grande cidade e visitarem cidades e praias relativamente próximas.
Angra dos Reis, Búzios, e Parati, mereciam uma visita além de uma grande série de outras cidades que Isabel não fixou, pois a sua cabeça via tanta coisa que parecia um catavento, sem conseguir memorizar tanta informação junta. Aquelas praias belas pelo enquadramento marítimo, pelo clima, tinham tudo de belo. O calor imenso, a areia quente, o mar tépido, as praias que os acolhiam, umas a seguir às outras, sempre com o mesmo calor e o mesmo verde tropical envolvente que se chegava ao mar, como Isabel nunca tinha visto antes.
E o verde que Isabel amava tanto nunca se ausentava e deslumbrava-a cada dia mais, porque estava em todo o lado, e só terminava mesmo juntinho ao mar, o que era fascinante, pois estava num país tropical.
Em Parati, deram um extraordinário passeio de barco, alugando um barco a um pescador, e com mais um casal amigo e os filhos perfaziam oito pessoas o que fazia um belo grupo de passeio. Marearam pelo meio de ilhas, e numa determinada zona o barco parou, e todos mergulharam. Isabel aí deu por abençoadas as suas aulas de natação. Tal como os mais audazes e as crianças destemidas, mas sabidas, Isabel mergulhou naquele mar de vários metros de profundidade, mas tão límpido e cristalino, que se conseguiam ver as pedras do fundo do mar e os peixes de várias cores que nadavam ao seu redor até ao fundo e numa longa distância. Depois daquele mergulho soberbo, o barco abordou numa ilha onde todos almoçaram uma refeição de marisco, e finalmente de volta a Parati, o tempo toldou-se e ainda no barco o céu ficou negro, choveu sem parar, e Isabel constatou como era o clima tropical, quente, com muito sol, e de repente chuva imensa, mas sempre muito quente.
Fotos do Google
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















































