quinta-feira, 31 de março de 2011

A separação

-Sabes Fernando, só te digo a ti, porque a senhora me pediu para não dizer nada a ninguém, mas vou com ela para uma casa na serra, e tu vais-nos lá levar. Ficas aqui, sem mim, mas esperas-me e escreves-me uma carta todos os dias. Vou morrer de saudades tuas. Não vais arranjar outra namorada.


Isto foi o que Helena disse a Fernando um dia à noite, estando na cozinha, quando o viu passar no jardim das traseiras, para ir embora, e veio correr até junto dele. E ele sem entender muito bem, perguntou o que se passava pois não estava a entender nada.

-Mas, vais para onde com a senhora? Não entendo nada, e o menino, e o colégio, mas o que se passa? Não percebo aquela senhora. Este último ano anda diferente, e no verão fazia-me esperar horas em sítios, casas de amigas que eu não conhecia. Mas não é nada comigo, só cumpro ordens.

-O pior, é que vamos ficar longe um do outro. Não me vais esquecer, pois não Fernando?

-Claro que não, minha flor, sabes que te amo.

-Não digas isso assim Fernando, que me envergonhas.

E agarrou Helena pela cintura, mesmo ali nas traseiras da casa, sujeitos a que alguém passasse ou a Celeste os visse, apesar de encobertos pela noite, e beijou-a como nunca o tinha feito. Esqueceram-se do local onde estavam e os seus corpos colaram-se como se fossem um só. Fernando percorreu com caricias delicadamente todo o rosto de Helena até que chegou à sua boca, e aí ficou num beijo prolongado e doce, quente e amoroso como nenhum outro que alguma vez Helena imaginasse alguém poder dar-lhe, e depois outro e outro. Uma troca de tudo, uma entrega de tanta coisa, um dar e receber mútuos como nunca imaginaram um e outro ser possível acontecer, tudo naquele beijo que significava para ambos, naquele momento, o imenso amor que se tinham e a imensa saudade que iriam sentir um do outro, a certeza absoluta que se amavam de verdade. E ficaram naquele enlace até que os seus corpos pediram mais, mas mais era muito e demasiado intenso para os dois, e a Celeste em boa ocasião chamou Helena da cozinha:

-Helena, depressa que preciso de ti.

-Adeus Fernando, tenho que ir mas não me esqueças porque parto, pois vais no meu coração, e escreve-me sempre, como eu te vou escrever, que quando nos fores levar não podemos estar com despedidas- e Helena disse isto muito triste.

-Claro que te vou escrever, porque te quero todo o bem do mundo e vou esperar por ti, porque te quero para minha mulher. Queria-te já hoje Helena, se pudesse, queria-te já hoje. Mas também não vão lá ficar uma eternidade, ou vão? Raios da senhora, do que se havia de lembrar.

E ela fugiu para dentro com aquelas palavras gravadas no seu coração, e os olhos cheios de lágrimas, pois também ela o queria muito. Só sentia na sua boca o calor e sabor forte, gostoso e quente da boca de Fernando, que ela nunca mais iria esquecer, de tal forma que nem ouviu o que Celeste lhe dizia. Aquela sensação que ela nunca tinha experimentado, era tão forte que lhe parecia ter penetrado o corpo e a alma completamente e parecia ter-se alojado gostosamente na sua boca para toda a vida e ela sentia-se a viver nas nuvens.

-Mulher, hem Helena, houve o que te digo que já não é cedo, temos de ir deitar e ainda tenho aqui umas coisas para arrumar. O Ruizinho já dorme? Vem-me ajudar.


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A troca

Justina andava ultimamente mal disposta, enjoada, cansada e com mau aspecto, sem motivo aparente. Manuel um pouco mais velho que ela, com a direcção na fábrica, andava sempre muito ocupado e dava-lhe pouca atenção. Até das saídas com as amigas Justina estava farta, e com a excepção de uns telefonemas que recebia por vezes à tarde na biblioteca, que a deixavam nervosa e agitada, Justina não fazia nada mas não parecia a mesma de sempre. Não tinha ido à praia e a sua cor era muito pálida, comparada com a de Helena ou mesmo da sogra, que tinham passado muitas horas naquela praia lindíssima alentejana, por isso não tinham como comparar.

No início daquele ano escolar estava resolvida a não ir dar aulas no colégio, sentia-se cansada, vá-se lá saber porquê, pois quase não fazia nada, mas não falava em ir ao médico, e resolveu sugerir ao marido algo que o iria espantar, mas primeiro falou em segredo com Helena, pois precisava do seu apoio.

-Helena queria falar contigo um assunto muito sério, e tu só vais ouvir e se queres a minha ajuda para a tua vida futura, vais ter que estar do meu lado, e dizer que sim a tudo.

-Mas com certeza minha senhora que a ajudarei no que for necessário, diga então pois sou toda, ouvidos.

-Reparaste que fui muito pouco tempo à praia. Não andava muito bem-disposta e juntava-me com uns amigos a conversar. O meu marido está sempre muito ocupado, mesmo quando está de férias nos poucos dias que tira para se juntar à família, tem sempre muito que ler e escrever, e deixa-me muito tempo sozinha. Queria tirar uns tempos e sair daqui, ando enjoada desta cidade, deste movimento todo, queria pensar o que hei-de fazer da minha vida, mas aqui com a dona Joaquina, que é uma jóia de senhora mas é a minha sogra, nunca me sinto bem em minha casa, e assim resolvi pedir ao meu marido para ir uns tempos para a serra, onde temos uma casa perto dumas termas. Tenho umas amigas que também vão, e sei que lá vou conseguir pensar e saber o que quero. Mas ninguém precisa saber que tenho lá amigas, e ao que vou. Digo-te a ti porque quero que vás comigo.

-Eu minha senhora? E o meu Fernando, e o menino Ruizinho? E isso é muito tempo.

-E eu, não te disse para ouvires e não fazeres perguntas? Claro que o Fernando não vai, porque é preciso aqui para servir o dom Manuel, mas vai lá levar-nos, e depois não foge daqui e como o tempo passa depressa, quando voltares comigo estará aqui à tua espera. Quanto ao meu filho, tenho que arranjar uma solução, porque me custa separar dele, mas não sei se o melhor será levá-lo comigo.

-Ai minha senhora, que me vai custar tanto sair daqui e deixar os meus dois homens o pequenino e o grande.

-Cala-te, e não comentes o que te disse com ninguém. Já sabes que se convencer o meu marido, partes comigo para a serra, sem comentários. Ouviste nada de falatórios com a Celeste ou seja com quem for. É melhor para todos.

Mas porque seria que a senhora queria segredo daquela sua saída, e isso seria melhor para todos, e porque a queria levar para a serra se ela estava tão bem na cidade. Ia voltar para a serra, que serra deve ser sempre igual como a de onde viera, e nem sabia o que ia lá fazer. Ia doer-lhe muito separar-se do seu Fernando. O melhor seria o senhor dom Manuel dizer que não, mas isso não iria acontecer, porque a senhora sabia falar-lhe muito ao jeito e havia de o convencer.

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quarta-feira, 30 de março de 2011

Amores e Desamores

A vida tem destas coisa.......

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terça-feira, 29 de março de 2011

O silêncio..

 
 
     
                 Quando as palavras não dizem tudo o que o coração sente, o melhor é parar, e sentir
unicamente o que vai dentro da gente.


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Um vazio...

Não tenho vindo aqui porque a solidão anda comigo.

Visita-me quando me levanto, um desalento que não é normal, que desconheço mas me domina por completo, muito mais que tudo que se possa imaginar.

Queria libertar-me, fugir de tudo isto e correr para outro lado, para algures onde pudesse estar mais confortável, sem temores nem angustias, sem medo de sonhar, porque os meus sonhos devoram-me por serem pesadelos negros e tristes.

Não sei que tenho, não sei que sinto..
Um vazio percorre-me inteira, uma ausência de tudo o que tive e de tudo que nunca imaginei possuir.
Um vazio que é meu, que eu não quero, mas que teima em não me abandonar.


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sexta-feira, 18 de março de 2011

Um novo livro- A troca

Era uma aldeia bonita, com a sua capela barroca onde se destaca a torre do sino galaico-português, mais elevada que os dois pináculos graníticos que a enquadravam. Helena e toda a aldeia eram devotos do Santo desta capela, Santo Amaro, e em Janeiro festejavam os seus milagres e feitos, numa romaria a preceito, fazendo o mesmo em Agosto, durante a primeira quinzena numa romaria em honra de Nossa Senhora da Natividade. Nestas alturas a povoação das aldeias vizinhas, como Quintela, Gondar, Santiago do Monte e outras, visitavam Malhoa, e viviam com eles estes momentos religiosos e de festa.


Mas Helena vivia cansada de ter tão pouco. Na altura em que devia ter ido à escola, até foi inscrita pelo pai em Quintela, a maior aldeia de todas vizinha de Malhoa, que tinha uma boa escola para a altura, e Helena lá ia descendo e subindo todos os dias, alguns quilómetros até á escola, com frio, neve e chuva intensos, ou então um calor intenso quando chegava o final da escola no mês de Junho, para aprender a ler e a contar como era seu desejo. Mas a mãe precisava dela em casa para cuidar dos irmãos que foram nascendo depois dela, pois tinha que acompanhar o pai no tratamento ta horta e cuidado do gado que tinham, e ela, sem desobedecer à mãe, e porque o caminho era duro, faltava muitos dias à escola. O que aprendeu foi tão pouco, que mal dava para ler alguma carta, que um dia se o tivesse, algum namorado lhe escrevesse.

O irmão que se lhe seguia era um rapaz, reguila que não podia ser mais, mas de bom coração, e que a ajudava como podia e sabia, quando lhe apetecia, pois muitas vezes alegava que estava cansado e quando mais crescido, dizia estar farto daquela vida. Tal como ela, o João, muito cedo aspirou a descobrir outros mundos, sair dali, pois dizia sempre que o mundo não podia ser só aquela montanha e aquelas duas ou três aldeias. E a ele a mãe não permitia faltas da escola, pois era homem, e já bastava o pai saber tão pouco de números e letras, e portanto apesar das caminhadas tanto ele, como os dois irmãos homens que se seguiram ao João, aprenderam na escola bem mais que Helena que só encontrou algum apoio mais tarde depois de criar a quarta irmã também mulher como ela. Depois desta irmã nascer, Helena ainda teve mais dois irmãos para cuidar, um rapaz e outra irmã, a mais nova se todos os irmãos e como a mãe dizia, criada noutra época já como se fosse uma rainha, com todos os irmão a paparicá-la.

Durante a década de cinquenta, e como sabia Helena ajudou a mãe e o pai e foi á escola os dias que conseguiu e lhe foi permitido ir. Em 1960 tinha ela 16 anos e João 15, e a mais nova, a Clara 6 anos e muitas vezes João comentava com Helena.

-Um dia destes fujo daqui. Sei de uns homens que partiram para longe, galgaram Espanha, para ganhar a vida no estrangeiro. Aqui nunca vou ser nada, nem fazer mais que o pai, criar ovelhas, e não quero isso para mim.

-Estás maluco João, e vais com que dinheiro? A mãe sabendo morre de desgosto, e já não anda muito bem. Para o estrangeiro não, mas gostava de ir para a capital. Sei de uma rapariga que andava na escola que foi com uma prima servir uns senhores lá na capital. Para aí também eu ia, e sabes que mais, e depois gostava de estudar que aqui não aprendi nada. Um dia gostava de ser doutora, saber muito de letras e números, ler livros, sei lá, queria ser como a professora que tive na escola, mas queria saber coisas do mundo que deve ser muito lindo.

-Ainda és pior que eu. Sonhas alto rapariga. Mas vamos combinar, se eu conseguir abalar daqui, quando tiver dinheiro mando-te algum e com ele vais para a capital. Que achas?

-Está bem, mas vê onde te metes, não conheces os caminhos, nem ninguém, não achas que devias falar nisto ao pai?

-Se lhe digo, não me deixa ir. Não, só te conto a ti, pois para o fazer tenho de ir pelo escondido da noite, como ouvi dizer na outra aldeia, aos homens que falavam na taberna. Vão a salto, pelas montanhas e de noite e depois lá se safam.

João não tirava esta ideia da sua cabeça, e se o desejava fazer nessa altura, no ano seguinte, em 1961 quando rebentou a guerra no ultramar, e começou a ver abalar alguns jovens para a guerra, na primeira oportunidade que teve, juntou-se a grupo e quase só com o que tinha no corpo abalou, dizendo à irmã.

-Diz à mãe que não se preocupe comigo. Um dia hei-de voltar. Cresci nas montanhas, não quero ir para a guerra que nem sei porque existe, nem onde é. Ela que não se apoquente, que à guerra não vou. A ti, logo que possa, mando-te dinheiro para ires para a capital como desejas.

Helena preparou ao irmão, um saco com alguma coisa de comer para o caminho, e alguma roupa, pouca, pois também não tinha muita, e pela noite dentro, quando todos dormiam, recolhida no seu canto, daquele quarto onde dormia com a maioria dos irmãos, senti-o partir, mas ficou quieta em silencio, pedindo a Deus que tudo lhe corresse bem. Também ela, não gostaria de ver o irmão partir para a guerra, sabe-se lá para onde.

De manhã quando deram por falta do João, não disse nada, deixou que o tempo passasse, e só muito tarde, à hora da ceia, com todos à volta do lume, lhes contou o que sabia.

-O João foi com um grupo de homens para Espanha e depois deve ir para algum lado trabalhar, não sei aonde. Disse-me que não quer ir para a tropa, para depois o enviarem para a guerra sem saber para onde. Não vos disse mais cedo, para ver no que dava, pois ele até podia ser apanhado ou voltar para trás, mas a esta hora o pior já passou.

Não houve muitos comentários, e a mãe só disse que também não o queria ver partir para a guerra nem aos irmãos, mas fugir à tropa tinha ideia que seria perigoso. O pai pelo seu lado comentou.

-Nenhum de vocês vai comentar na rua o que aqui foi dito. O João partiu, deixá-lo ir.
 
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O desencanto

A vida lentamente foi dando a Isabel, um pouco daquilo que ela buscou e lutou muito por conseguir. Pelo seu caminho já algo longo, encontrou basicamente de tudo, viveu bons instantes como os que já foram mencionados, mas também momentos terríveis. Dos seus sonhos de menina, muitos foram-se perdendo pelo caminho, esfumando-se como nuvens efémeras, como se nem sequer existissem no mundo táctil e real onde habitava. Factos que nunca conquistou, decerto, por não lhe estarem à partida destinadas, ou porque simplesmente só faziam parte unicamente do seu imaginário.


Queria ser feliz, decerto como todos que cruzavam com ela no caminho, pois não existe ninguém que não sonhe com a felicidade. Olhando as gentes à sua volta, todos lhe pareciam tranquilos, sorridentes a cada instante, e Isabel não conseguia entender este seu sentimento de tristeza e nostalgia, tão permanentes e castrantes. Ela não conseguiu colocar de lado as suas inquietações, e se nuns dias respirava mais serenamente, outros havia, que sentia sobre ela o peso do Universo, como se tudo e todos se tivessem voltado contra ela, acusando-a de tudo o que não fez, ou fez, mas erradamente, que para ela era quase toda a sua vida, pois sentia-se constantemente insatisfeita e incompleta.

Isabel lutou sempre como pode para tapar esta nuvem que pairava sobre si, como uma sombra persistente e avassaladora, e iludiu-se muitas vezes pensando e fazendo de conta, que tudo estava bem.

Sentiu-se recompensada pelos filhos que teve, estudiosos, presentes sempre que possível, saudáveis e fortes, pelo companheiro fiel e amigo, grande amigo, bom pai, o melhor e maior de todos, que não conseguiu fazê-la sentir-se mais que mal-amada, é certo, mas que a compensou mais tarde, pelo apoio persistente e firme, e uma amizade extremas, pela companhia possível, tudo atitudes que não encontrou nunca em mais ninguém que conheceu.

Mas tentou suplantar todas as ausências que sentia de afecto, carinhos, estima, compreensão, e esquecer o sensação que tanto a prejudicava de auto-estima muito precária, temor e perturbação quase constantes, com uma capa de ferro que arranjou sabe-se lá onde, e que mal ou bem, a foi protegendo ao longo da vida, mesmo que transformando-a dia após dia.

Isabel confiava nas pessoas, era amiga delas, entregava-se aos seus afectos totalmente, e se lhe faziam algo que a desiludisse ficava mais triste do que já era, não conseguindo esquecer facilmente a troca que lhe faziam, do bem pelo mal. Mas ia sobrevivendo a todas estas situações, como toda a gente, com calma e ponderação, não culpabilizando outras relações que poderia ter com outras pessoas diferentes. Engolia e sofria para dentro e tentava caminhar em frente de cabeça erguida.

Quando casara trouxera de casa dos pais, apenas umas argolas de ouro, coisa simples, pequena e fina, que o pai lhe dera na adolescência, assim como um fio de ouro singelo que ele lhe oferecera pela sua quarta classe, que nem medalha tinha. No dedo a aliança de casamento e o anel de noivado que Pedro lhe tinha oferecido. Pedro trazia consigo, além da aliança de ouro do casamento, um fio de ouro fininho que a madrinha lhe tinha dado à nascença.
Estes eram os pertences de ouro de Isabel e Pedro.



Depois de casados, claro que não havia dinheiro para aumentar o pouco que tinham, pois primeiro ponderaram no melhoramento da casa, depois num carro em terceira mão, e mais tarde com o nascimento dos filhos, o importante era que nada lhes faltasse, para o seu crescimento normal e saudável, e assim aquelas eram compras simplesmente inimagináveis, para ambos.



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terça-feira, 15 de março de 2011

A dança e Isabel

Continuavam a ser muitas as horas que passava sozinha, e cada vez mais, pois os filhos, crescidos, ausentavam-se também primeiro pelos estudos depois pelo trabalho, até que finalmente passaram a viver independentes. Era a vida a andar ininterruptamente para a frente, e Isabel a querer aproveitar dela o que ainda não tivera. Por vezes revoltava-se por achar que fora roubada em muitas épocas, de tempo, de prazeres, de sensações, que a privaram de sentir indevidamente. Mas já nada havia a fazer, só caminhar e seguir em frente, aprendendo e usufruindo ainda, o que a vida lhe podia conceder.

Um dia, nesta fase de meia soledade e vazio, resolveu que era a altura de aprender a dançar como sempre sonhara desde criança. Estavam a chegar a Portugal, danças que estavam a entrar pela Europa vindas da Argentina, de Cuba e de África. Pesquisou, informou-se e encontrou. Correu várias escolas até se fixar numa definitivamente, mas os primeiros dois, quase três anos, passou-os numa escola onde conheceu algumas pessoas que amou verdadeiramente, pela singeleza, porque se mostraram amigas e afáveis, mas também porque a ensinaram no que Isabel quase achou impossível aprender.

Um, dois, três, cinco, seis, sete, foi uma contagem que passou a fazer parte da sua vida. Iniciar-se no Merengue não foi tarefa fácil, quando começou a introduzir passos mais complicados na dança, para não falar, em tentar dançar numa Roda de Casino, ou a par um Funaná. Tudo aquilo que só a ver parecia simples ao princípio, lhe mostrava demasiado complicado a executar, com um ritmo que o seu corpo não assimilava. Mas Isabel conseguiu desembrulhar-se do complicado, que parecia simples, mas tinha que ser trabalhado para ser conseguido, e apreendeu o ritmo de Salsa Cubana. Depois, com alguma dificuldade, no kizomba e no Semba, lá conseguiu captar à sensualidade dos movimentos, apaixonando-se por essa forma de dança.

Mas mais difícil que isso, conseguiu que o Pedro aderisse a esse prazer e se inscrevesse na sua escola, para também ter aulas de dança. Essa era uma batalha ganha, mas ficava sempre triste, quando lhe diziam que para a sua idade, dançava muito bem. Ela não queria, que na dança houvesse idade, só queria dançar bem, e de facto dançava mas o seu tempo tinha passado um pouco, e de facto dançava mesmo bem mas para a sua idade, pois nunca seria como uma jovem a dançar.

Sei de algumas histórias, que me contou e que viveu nestas lides das danças, que não as vou descrever, por serem tão reais e sinceras que não têm porque, nem como ser descritas, por serem tão intensamente sentidas, mas dançar bem e não ter com quem dançar não é fácil suportar, bem melhor, é não saber dançar, nem querer aprender, nem ir ver dançar, detestar mesmo a dança, para depois não ter que olhar os outros e ficar parada no canto da sala a ver a sua agilidade e beleza, a forma como os seus corpos se contorcem e bamboleiam, sempre ao ritmo sincopado da música.

Olhar e contemplar sem saber como fazer, apreciar só, não custa nada, mas a Isabel isso doía-lhe, pois gostaria de fazer igual. Isabel era a mais velha da escola, os jovens querem-se, uns com os outros, e muitas vezes ela sentia-se como uma intrusa. Além disso o seu tempo de força e vigor já passara. Mas foi sempre andando sem desistir, ainda que muitos dias o entusiasmo lhe faltasse.

Um dia, porque estava cansada da forma de ensino daquela escola e também da maneira como era tratada, resolveu procurar um outro canto, uma nova escola. Tanto buscou que encontrou. Aquela escola era uma família, o seu director, professor e bailarino principal, os alunos, todos juntos, faziam um grupo espectacular. Ali Isabel sentia-se bem, sem nunca esquecer os seus amores antigos, ali arranjou um novo ninho, um novo encanto. O professor dava-lhe aulas particulares e Isabel rejubilava de alegria e satisfação, pela aprendizagem, pela partilha, pela amizade que foram construindo aos poucos. E Isabel aprendeu Salsa em linha, o Chá-chá-chá e outras danças e mais que tudo, aprendeu a libertar-se, e a deixar-se conduzir numa dança, como nunca sonhara antes.

Naquelas aulas, em que estava só ela e o seu mestre, Isabel era feliz, porque se sentia única, solta e realizada a cada instante, apesar de saber que era só ali, naquela sala, que isso acontecia, pois nas festas o peso da idade e os pensamentos que tinha sobre o dançar muito ou pouco, por falta de par ou de energia, voltavam sempre a ensombrá-la.

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terça-feira, 8 de março de 2011

tanto Brasil que eu amo

Isabel voltou ao Brasil com Maria, porque ela e Pedro lhe tinham prometido essa viagem, e Pedro nessa altura não podia viajar. Isabel que nunca viajara verdadeiramente sozinha até ao estrangeiro, sentiu-se uma valente, subiu no avião, aterrou e foi até ao resort com a filha. Fez passeios com Maria, e mostrou-lhe tudo o que conhecera com Pedro nas redondezas e na cidade de Salvador da Baia. O Mercado, o Pelourinho, a igreja de São Francisco e a igreja de senhor do Bom Fim, nada ficou por ver.

Maria divertiu-se quanto quis, passeou e fez os passeios que eram para fazer. Viram os espectáculos da noite no hotel e no final iam à discoteca, e ambas divertiram-se como duas amigas de verdade. Isabel gostou destes dias, e aproveitou cada segundo que esteve com a filha com a certeza, que uma ocasião como esta não voltaria a acontecer-lhe, mostrando-lhe o local onde gostava de passar férias com o pai, deixando-a livre o resto do tempo para se divertir, aproveitando os entretenimentos que o Sauipi tinha para lhe oferecer.

De longe quando a observava no circo do hotel, pensando ser tudo mentira, sorria só de vê-la a divertir-se, como se fosse um sonho estarem juntas naquele espaço lindo, tão longínquo de casa. E se Isabel lhe queria bem e confiava nela. Maria era a sua menina, a sua relíquia, o seu bem-querer e estava uma senhorinha. Isabel vivia ali um sonho lindo, como nunca imaginara ser possível com a filha.

Dias como estes, Isabel também não voltará a ter, porque Maria cresceu, e Manuel que nesta altura já não quis viajar com a mãe, igualmente, e as férias dos filhos dificilmente serão alguma vez mais, passadas conjuntamente com a mãe e com o pai, mas Isabel sabe que também eles cresceram com ela, pela forma como ela soube estar junto deles nestas alturas, quando faziam férias conjuntas, dando-lhes liberdade e espaço para eles serem gente.

Enquanto Sérgio permanecesse no Brasil, seria mais fácil Pedro e Isabel voltarem ao Brasil, e na verdade pelo facto de ele ter mudado de cidade, Isabel não deixou de visitar esse país, antes pelo contrário, pois assim tinham muitas mais cidades para visitar. De visita a Sérgio, voltaram várias vezes para visitar a cidade de Vitória no Estado de Espírito Santo onde o amigo passou a ter residência própria. Naquela cidade linda, Isabel muitas vezes sonhava poder viver, mas depressa acordava desse sonho louco. Vitória fica muito longe da sua casa, muito mais que o Rio de Janeiro, e a sua realidade é outra bem distinta. Mas pelas vezes que lá esteve, muitas mais que Pedro, que por vezes só aparecia no final das férias para regressar com ela, pois o seu trabalho não lhe permitia mais que isso, Isabel adorava o quarto que Fernanda, a esposa de Sérgio lhe oferecia na sua casa.
Virada para a avenida principal, com uma vista magnífica para o mar, acordava bem de madrugada com aquela vista maravilhosa das palmeiras e das ilhas, que lhe pareciam entrar pelo quarto adentro no sétimo andar. Em Vitória não deixaram nada por ver, e voltaram para visitar outras cidades bonitas que Sérgio lhes recomendou, e para todas estas viagens Isabel ia ganhado coragem mas nunca perdendo o medo das longas horas de voo.

Visitaram Ouro Preto, cidade património mundial e Tiradentes, Senhora da Conceição. E tanto que havia a dizer destas cidades lindas e ricas de património, mas Isabel guardou na memória as calçadas em pedra, as igrejas, as casas pintadas de cor, os pintores, sabendo que o ouro partia destas zonas para Parati que conhecera anos antes para depois chegar a Portugal. Em Ouro Preto olhando aquelas montanhas, onde muitos anos antes, mas depois de 1500, muitos negros escravos terão trabalhado duramente, sentia-se uma privilegiada por poder apreciar aquela beleza natural, ela que vivia a tantos milhares de quilómetros dali. Também eles tinham viajado milhares de quilómetros, mas tinham tido pior sorte, pois não sendo daquelas terras, acabaram por ali ficar acorrentados como escravos.

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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Caminhos percorridos

Para aqueles dias que estariam no Brasil, Sérgio delineou com Pedro um roteiro magnífico que lhes daria a conhecer uma boa parte da zona envolvente do Rio de Janeiro. Claro que teriam que visitar os locais mais importantes do Rio, e assim logo que possível foram com uns casais amigos brasileiros, visitar o Corcovado e o Pão de Açúcar. Isabel deliciava-se a ouvir aquela gente falar, pois a sua voz cantante deixava-a bem-disposta e animada e as palavras doces e carinhosas que utilizavam achava-as de uma ternura infinda. Todos tinham diminutivos, estavam sempre risonhos, acordavam bem-dispostos, nunca ninguém dizia que estava indo mais ou menos, dizia sempre “está-se bem, sim senhor”.

Nessa visita Isabel parecia viver um sonho. Dali as vistas eram magníficas, soberbas, quase irreais pela grandiosidade de tanta beleza, difícil de descrever para quem como ela nunca viu tamanha grandiosidade, que uma coisa é ver e outra é descrever sem sentir a emoção dessa visão extraordinária, e Deus ali esmerou-se e juntou como numa tela imensa, a beleza do mar com a praia, a montanha com o maravilhoso verde tropical, e a cidade grandiosa e imponente, que vista dali parecia mais que perfeita e bela, tudo harmoniosamente envolvido num clima verdadeiramente único e sublime.

Isabel queria ficar ali para sempre, pois aquela era a mais linda visão da natureza que alguma vez tivera. Pedro fotografou o local e Isabel de todos os ângulos, e para mais tarde recordar, trouxeram do Pão de Açúcar uma foto deles, estampada num prato, que iriam guardar para toda a vida como uma recordação única e viva de um momento tão especial.

Todos os dias, passeavam muito cedo pela praia, fazendo uma caminhada salutar, ou então misturados com o povo brasileiro andavam pelo calçadão sem medo de ser assaltados. Sérgio tinha-os avisado como devia ser a sua postura na Avenida de Copacabana, e também como saíam vestidos simplesmente e sem valores expostos, nada nunca lhes aconteceu, como era usual as pessoas comentarem.

No final das caminhadas, e antes de entrar em casa, uma aguinha de coco caía sempre bem. Costumavam também passear e frequentar os dois, a praia de Ipanema, logo ali ao lado, e faziam-no com a maior desenvoltura e á vontade como se estivessem na sua terra.

Muitas vezes, Pedro no final da caminhada em Copacabana ia dar um mergulho no mar de Ipanema, enquanto Isabel preferia ficar deitada a olhar aquele céu magnifico onde o Sol nasce no mar, na piscina do prédio, que tinha uma envolvente lúdica extraordinária, e um jardim verde e bem cuidado que dava prazer só de olhar. Passavam a semana em pequenos passeios citadinos com a esposa de Sérgio, para de quinta-feira á noite até domingo á noite, e foram três os fins-de-semana, o da chegada e mais dois, saírem da grande cidade e visitarem cidades e praias relativamente próximas.

Angra dos Reis, Búzios, e Parati, mereciam uma visita além de uma grande série de outras cidades que Isabel não fixou, pois a sua cabeça via tanta coisa que parecia um catavento, sem conseguir memorizar tanta informação junta. Aquelas praias belas pelo enquadramento marítimo, pelo clima, tinham tudo de belo. O calor imenso, a areia quente, o mar tépido, as praias que os acolhiam, umas a seguir às outras, sempre com o mesmo calor e o mesmo verde tropical envolvente que se chegava ao mar, como Isabel nunca tinha visto antes.

E o verde que Isabel amava tanto nunca se ausentava e deslumbrava-a cada dia mais, porque estava em todo o lado, e só terminava mesmo juntinho ao mar, o que era fascinante, pois estava num país tropical.

Em Parati, deram um extraordinário passeio de barco, alugando um barco a um pescador, e com mais um casal amigo e os filhos perfaziam oito pessoas o que fazia um belo grupo de passeio. Marearam pelo meio de ilhas, e numa determinada zona o barco parou, e todos mergulharam. Isabel aí deu por abençoadas as suas aulas de natação. Tal como os mais audazes e as crianças destemidas, mas sabidas, Isabel mergulhou naquele mar de vários metros de profundidade, mas tão límpido e cristalino, que se conseguiam ver as pedras do fundo do mar e os peixes de várias cores que nadavam ao seu redor até ao fundo e numa longa distância. Depois daquele mergulho soberbo, o barco abordou numa ilha onde todos almoçaram uma refeição de marisco, e finalmente de volta a Parati, o tempo toldou-se e ainda no barco o céu ficou negro, choveu sem parar, e Isabel constatou como era o clima tropical, quente, com muito sol, e de repente chuva imensa, mas sempre muito quente.


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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A nova casa de Isabel

Durante muito tempo Isabel viveu intensamente para a sua casa. Depois dos filhos e do marido, a casa era a sua grande preocupação.

A mudança tinha sido bastante trabalhosa e difícil de fazer, pois mudar a vida que se acumula em objectos, durante catorze anos, de uma casa para outra, não é fácil. Isabel trabalhava de madrugada até de madrugada, mas a força que a impelia era tanta que nem sentia sono, nem cansaço.
Na casa de onde ia sair, daquela da rua com fim, embrulhou e organizou tudo de forma que ao descarregar os caixotes na nova casa, cada um deles contivesse objectos roupas, diversos, direccionados para a divisão a que correspondia, de forma que finalmente a arrumação pudesse começar a tomar rumo.

Isabel pensava tudo ao pormenor, e um dia quando a casa meio nua, por ser muito maior que a anterior mas já muito bem organizada, já estava em ordem, Isabel teve comigo um desabafo que parecia quase uma certeza que naquela altura ela tinha como verdadeira, única e absoluta:

-Estou tão feliz. Finalmente sou feliz. A minha casa é linda, entro e saio dela e parece-me tudo tão irreal. Ainda ando nas nuvens, deve ser do cansaço, mas na verdade adoro a minha casa. Agora, mais dentro da aldeia, com os meus filhos criados e mais perto do meu trabalho, com aquela casa, se todos tivermos saúde, acho que nunca mais terei razões para me queixar. Eu e o Pedro, ali, com os nossos filhos, vamos ser felizes.

-Mas Isabel, nós somos sempre iguais com tudo, e com as casas também, apaixonamo-nos e depois que o fascínio e o enlevo passam, tudo volta ao normal. Realmente era bom que assim não fosse, mas na verdade a paixão não é eterna, e essa paixão que sentes pela tua casa não te vai alimentar o ego a vida inteira, nem te vai trazer uma felicidade perene.

Mas penso que nem me ouviu, porque naquela altura vivia em efervescência e actividade continua, nunca parecia cansada e estava sempre a inventar que fazer, parecendo um vulcão, e depois do seu trabalho nunca lhe escasseava o fôlego, nem fugia ao trabalho e limpava, lavava, cozinhava, arrumava, dava volta ao jardim, fazia fosse o que fosse mas não parava.

Coitada da Isabel que dizia aquilo, convicta de que a felicidade tem alguma coisa a ver com o local onde se vive, esquecida daquele velho ditado que nos fala do “amor e uma cabana“, como se de um momento para o outro a sua casa por ter janelas amplas, mais portas, mais escadas, muito mais divisões, e muito verde no jardim, pudesse trazer-lhe a felicidade que nos dias sombrios ela buscava e teimava em não conseguir alcançar.

Mas Isabel não desistiu e lutou para colocar em casa o que achava a fariam feliz e aos filhos e marido e assim num aniversário de Pedro ofereceu-lhe de surpresa um bilhar, que conseguiu instalar  em casa sem ele dar por nada até ao próprio dia, depois no ano seguinte ofereceu-lhe uns matraquilhos, e, assim por diante, sem durante muito tempo se lembrar, um pouco sequer, dela mesmo.

Ao Manuel, apaixonado pelo exercício físico, ofereceu alguns aparelhos de ginástica, à filha uma viola e um piano digital, e aos poucos com o Pedro, mobilou as divisões em falta, arranjaram o jardim, e mais tarde construíram uma churrasqueira com um salão com lareira para receber os amigos um pouco mais à vontade, com uma vista belíssima para o jardim.

A última construção, além de uma garagem exterior à casa e um terraço anexo, foi um abrigo de madeira lindíssimo, plantado no meio do verde magnífico do jardim, com um varandim circundante cadeira de baloiço, e uma rede para se poder deitar quando bem lhe apetecesse, que parecia lembrar um bangaló saído de um resort de um país tropical.

Não sabia Isabel que o Sol lhe ia pregar uma partida, pois à frente da sua casa iria brincar às escondidas por detrás dos eucaliptos que lhe ensombrariam a casa, e muitas vezes escondido se negaria a sorrir-lhe e a mostrar-se seu amigo, e ela sem querer nem se aperceber disso, sentia que a falta do Sol também lhe entristecia o espírito, e até já o subir e descer das escadas não tinham a menor graça, porque tudo tem um tempo para ser, para existir para se sentir.

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A FESTA NA ALDEIA

Naquele ano, Pedro que já tinha combinado antes com uma série de amigos fazerem a festa um ano, os tais com que habitualmente se encontrava aos fins-de-semana à noite, resolveu no final da procissão pegar na bandeira. A população batia palmas de contente e ele feliz, dava voltas ao adro da igreja e em cada volta o grupo em seu retorno aumentava, e no final o grupo perfazia mais de vinte. Com certeza que todos juntos, com a ajuda das esposas iriam fazer uma grande festa no ano seguinte, pois ideias não iriam faltar, nem uma enorme vontade de trabalhar. Seria uma festa, religiosa e profana que ficaria na memória de todos na aldeia, essa era a vontade de Pedro.


Durante o ano começaram os preparativos, flores de plástico para enfeitar as ruas faziam-se à tarde e à noite ao fim de semana, por todos os que podiam ajudar. Um peditório à população começou meses antes pelos festeiros percorrendo toda a aldeia, para que com o pouco que cada um pudesse dar, se conseguisse convidar artistas de renome nacional que atraíssem à terra gente do exterior, arranjar o espaço para receber o publico, alugar grandes palcos, barracos para fazer algumas exposições, alugar enfeites de luzes para engalanar as ruas, além das tais flores de plástico, contratar conjuntos para os bailes, montar um restaurante improvisado para servir refeições toda a noite, pagar o som ambiente, limpar, caiar, enfeitar de novo a igreja, e cuidar dos andores que sairiam nas procissões, pois as flores tinham um custo.

Eram mil, as coisas diferentes em que Pedro tinha que pensar, e que havia para fazer, mas Isabel encarregou-se de uma coisa que nesse ano rendeu bastante e lhe deu imenso prazer fazer, a “quermesse”, com imensos presentes interessantes para oferecer.

Pedro pensou em tudo ao pormenor, fez listas e mais listas de afazeres, e na data aprazada começaram os trabalhos para que nos dias dos festejos tudo corresse como ele idealizara, e nada falhasse.

O peditório foi feito, as flores também, os conjuntos e artistas contratados, a cozinheira igualmente. O recinto para as festas decorrerem foi fechado e ficou como nunca. Parecia maior, mais grandioso. Quiosques de cerveja, outro de gelados, um de pequenos petiscos e o famoso restaurante construído de raiz todo em madeira vistoso e arejado, um quiosque de informação, e a quermesse. A entrada do recinto das festas profanas, pintada à mão pelo Pedro anunciando as festas, estava fabulosa como nunca. A igreja foi toda iluminada exteriormente e à noite parecia que os seus contornos tinham sido maravilhosamente engalanados e ladeados com fitas luminosas e gambiarras. Parecia que estávamos no Natal, sendo Verão, a igreja estava lindíssima, caiada por fora e iluminada e por dentro devidamente lavada e enfeitada.

O som ambiente era fantástico, porque a amplificação contratada era boa, pois as noites ali não eram para dormir mas de pura diversão. Pedro não parava de um lado para o outro, e no final da primeira procissão, à noite, uma serenata oferecida à Virgem na escadaria da Igreja. Isabel comovida atende a tudo, com verdadeira emoção. Nem sabe como chegou ali de tanto cansaço, mas de longe atenta, lá estava ela pois ficara guardiã ao recinto enquanto todos se tinham ausentado até às escadarias para ouvir de perto o fado. Ela tinha que ir dar comida aos guardas que tinham acabado a sua missão depois daquela primeira procissão nocturna.

Fez-se escuro e aquele som era tão fantástico que lhe parecia irreal ouvi-lo naquela aldeia, ela uma apaixonada daquele fado Coimbrão, parecia viver um sonho naquela primeira noite.

Outros dias se seguiram, a procissão de quinta-feira Santa, e depois a Procissão do grande dia, com a Nossa Senhora que voltava para a sua capelinha. Pedro no final da procissão pegou na bandeira e deu as voltas que devia, e que eram habituais ao adro da igreja, como num ultimo adeus por todo o trabalho e empenho feitos por todos, acompanhado pelo grupo de amigos, devidamente vestidos com os seus fatos escuros e gravatas, elegantemente vestidos para a Virgem, um grupo de homens, bonito de se ver, que fizeram um trabalho como nunca Isabel vira ninguém fazer ou seriam os seus olhos a apreciar o belíssimo trabalho feito por aquele grupo de festeiros.


A população aplaudiu incessantemente, mas não teve forma de ninguém pegar na bandeira, a festa tinha sido excepcional, tão bem organizada e tão perfeita que naquela altura ninguém se prontificou a assumir o cargo que Pedro deixava ali, e esse foi o momento mais triste da festa.
Meses mais tarde, um grupo pegou na festa e decidiu-se que a mesma passaria a ser feita bianualmente.

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

SER FELIZ!

EU SÓ QUERO SER FELIZ!!!!!!


 

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Os hobbys de Isabel

Um dos seus grandes defeitos era ler transversalmente. Quando era criança adoraria ter lido montanhas de livros mas os pais por motivos diversos não correspondiam aos seus apelos. Quem sabe por falta de dinheiro tão-somente. Isabel passou a ler de uma forma nervosa e agitada, e tão frenética que mal começava já dava uma olhadela ao final da história, e isso enervava-a. Jornais nem pensar, era leitura que não a detinha, pois notícias políticas, assassinatos internos ou exteriores ao país, guerras horrorosas, e outras politiquices, pequenas ou grandes calamidades, só a podiam transtornar e isso incomodava-a, primeiro porque a deixavam desinformada, e depois porque, por não as ler, não se considerava normal.


Levou tempo, mas assumiu que para ela essa leitura não existia. Isabel de facto era diferente, e mais tarde ver, ouvir, e saber, essas notícias noutros meios de comunicação já era muito bom, não ler em jornais, onde cada um muitas vezes, escreve de uma forma um pouco diferente e acrescenta um ponto.

Também Isabel um dia fez rádio amador. Ao domingo e ao sábado durante largo tempo tanto Isabel como Pedro tiveram o seu programa numa rádio local. O seu, era um programa infantil e chamava-se o ”O jardim da Celeste”. Essencialmente passava música, tinha passatempos e concursos e como era um programa local, as pessoas podiam facilmente participar a acorrer lá e responder às questões que colocava. Foi um tempo muito interessante, pois todas as semanas Isabel tinha que pesquisar temas, buscar dicas, manter informado o seu público jovem de forma que ao mesmo tempo que os distraia lhes ensinasse algo novo. Estar em frente de um microfone, sabendo que do outro lado estaria alguém a ouvi-la acrescia-lhe uma responsabilidade inovadora mas de alguma forma gratificante.

Muitas vezes na ausência e impossibilidade de Pedro gravou o programa dele, que aliás teve vários, e nunca ouviu dizer mal do seu trabalho. Destes trabalhos só era aborrecido o almoço ao domingo que se fazia sem o pai á mesa, pois um programa do Pedro era à hora de almoço ao domingo, mas Isabel lá ia levando tudo isso com imensa resignação, considerando este um hobby positivo.

Pequenas coisas que Isabel gostava de fazer, além de não deixar nunca de procurar fazer a sua ginástica, mesmo que fosse num canto em casa, já que nas décadas setenta, oitenta e até noventa, os ginásios eram praticamente nulos na cidade, pois na aldeia nunca existiram, era nadar. Desde que pusera os filhos a aprender a nadar, metera na cabeça que o susto que apanhara em jovem havia de desaparecer. E desapareceu.

Levantava-se às sete da manhã nos dias das aulas de natação e lá ia ela bem cedo, para aprender a nadar. Passados três meses, já fazia a piscina de 25 metros de uma ponta à outra sem problemas de maior, depois aperfeiçoou os estilos, e no grupo que estava inserida fez grandes amigos. Aos 56 anos nadou 600 metro três estilos em 11 minutos e sentiu-se uma heroína.

Um dos seus hobbys manuais desde menina, sempre foi o croché (camisolas de malha e cachecóis), e panos de ponto de cruz que depois mandava emoldurar. Adorava também fazer artesanato e aí com um alicate fio, arame fazia brincos, colares, pulseira várias, pondo a sua imaginação a criar livremente. Depois usava, dava, ou vendia a amigos, ou em cabeleireiras, lojas ou feiras, e divertia- se com isso, não pelo dinheiro que isso dava, mas por ver as suas coisas feitas ali expostas, e depois a serem usadas.

Como uma das ultimas paixões contou-me em segredo, como se ninguém soubesse que adora dançar, mas muito amor, com todo o amor e dedicação, e não o faz mais porque não pode, o corpo não deixa, e o tempo também não. Não poderia fazer mais nada, tem outras coisas que fazer, além disso as pernas doem-lhe e se um dia pode mais, no outro já não pode tanto, mas gosta muito de dançar salsa e kizomba, uma dança que quase ninguém, dança com ela, talvez porque já está um pouco mais velha!

Se ela pudesse dançava todos os dias. Sempre, porque é a dançar que Isabel se sente bem, ainda que quando num baile a não convidam para dançar saia de lá mais triste que os tristes, mais infeliz que todos os infelizes.

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Pedro fica doente

Isabel sentada no banco de trás do carro nem conseguia respirar, nem sabia o que dizer, para ela era como se o mundo tivesse parado naquele instante e tudo de um momento para o outro, tivesse perdido todo o interesse e encanto. Estava aterrada, quase desconfiava mas agora que estava confirmado, sentia-se perdida, tinha morrido um pouco, só sabia que aquilo era medonho.

Pedro, calado, de cabeça inclinada como sempre, ouvia em silêncio como se fosse uma estátua, e Isabel não se lembra de ouvir da sua boca qualquer reacção, qualquer revolta. Ele era sempre assim, o bem e o mal sentia-os para ele, e em vez de reagir de qualquer forma naquele instante só ouvia…, ouvia unicamente, ou então era Isabel de tão aflita que estava que não percebia mais nada. Gerou-se um mal-estar constante, um sofrimento permanente, um perder a vida que não se viveu ainda mas que se quer ter ainda à nossa frente. Porque naquela idade ver-se um muralha pôr limites à vida é terrível, angustiante, é absurdo, triste e pouco natural.

E naquela altura tudo passou a ser diferente, o mundo passou a ser olhado por ambos mas essencialmente por Pedro de outra forma. Pedro foi internado, novamente operado, e Isabel passou durante um mês a andar de um lado para o outro, mas a angustia que sentiu quando o deixou pela primeira vez no hospital, não tem descrição possível, pela dor, pelo vazio e abandono, pela sensação de perda. O motivo, o local, a forma porque e como se separavam dava a Isabel uma dor e um desespero tal que não são possíveis de descrever. Em casa os filhos aguardavam-na e Pedro pedira-lhe

-Não contas a ninguém da minha doença, ouviste Isabel!

E Isabel não contou nada a ninguém nem a amigos nem a familiares, guardou tudo no seu coração que ia rebentando de dor pois não tinha com que desabafar.

Mas de manhã, antes de sair para visitar o Pedro no hospital, e depois de mandar os filhos para a escola, num canto do quarto que guarda na sua memória, todos os dias chorava até as lágrimas secarem, pelo Pedro que sofria, pelos filhos que precisavam dele, por ela que mesmo incompleta, se sentia assim imensamente mais infeliz, pois ela queria-lhe muito bem e não imaginava a sua vida sem o ter a seu lado.

Para Isabel era muito difícil esta vida dupla. Em casa tinha que se mostrar calma perante os filhos, dizer-lhes que tudo estava mais ou menos normal, que Maria sabia que o pai estava doente pois presenciara a conversa em casa dos tios, mas não sabia até que ponto a gravidade da situação da doença do pai, não podia falar com os pais nem com os sogros nem contar-lhes o que se passava com o marido. Mas quando ia para o hospital o seu coração ia aos pulos esperando sempre boas noticias, o dia da nova intervenção, depois os resultados da mesma, a alta de vez do hospital, e como fez uma enxertia, no local de onde tirou a unha, saber se a mesma tinha repelida. Isabel passava horas na Capela do hospital a meditar, era onde se sentia melhor. Passava os dias num corrupio de casa para o hospital e do hospital para casa, para atender aos filhos e atender ao Pedro. Quando estava num lado pensava nuns e no outro pensava nos ausentes, nesses tempos deixou completamente de pensar nela, e a vida deixou de ter a menor graça pois sem Pedro nada lhe interessava.

E os médicos falavam constantemente em percentagens e isso incomodava-a, deixava-a duvidosa, desconfiada, perplexa, e Pedro preocupado andava tenso, sem saber o que dizia, nem o que pensava. Isabel por vezes ouvia coisas que a magoavam mas tinha que ouvir, calar e consentir pois quem estava doente era ele e não ela, e ela fazia tudo para o deixar feliz.

Deu-lhe amor vivido e intenso, físico, difícil, doloroso e chorado como se fosse o ultimo, porque assim vivido é mais difícil, muitas vezes só para o fazer feliz, ficando ela a chorar porque a entristecia ainda mais, e viveu triste, inquieta e agitada até ao dia em que os médicos disseram ao Pedro pode ir e só cá volta uma vez por mês, mais tarde uma vez de três em três meses, depois de seis em seis meses, até que passaram seis anos na vida dos dois, e a vida voltou gradualmente ao normal e o Pedro reconheceu que até então, não teria sido um grande marido, e prometeu que iria mudar.

Nesse tempo muitos factos relevantes aconteceram:

“-Se Isabel não tivesse carta de condução teria sido difícil conduzir tantas vezes Pedro ao hospital (enquanto esteve internado durante um mês, vinha passar os fins de semana a casa), visitá-lo tão amiúde no hospital e levá-lo a todas as consultas, pois trazia um braço ao peito. Ficava aqui por terra a teoria de António, pai de Isabel, que dizia que ela não precisava de carta para nada, pois o marido a haveria de conduzir para onde ela precisasse.” Nesta altura conduzia Isabel o seu Y10 Lancia.

“-Pedro reconheceu que precisava fazer mais companhia a Isabel e que aquele homem que era antes já não existia mais, decerto porque aprendeu a ver a vida de outra forma“

“Tendo passado pela cabeça de ambos neste tempo, que já não iriam construir nenhuma casa, nasceu em ambos uma nova força, e essa casa havia de surgir, assim como em Isabel nasceu a certeza de que nunca deixaria Pedro por motivo algum. Precisava dele, porque apesar de ele ter muitas falhas, também lhe dava muita força que ninguém alguma vez mais lhe dera em circunstância alguma. Sentira isso quando ajoelhada na capela do hospital, à espera que Pedro chegasse da consulta derradeira, ele com o braço livre e solto no ar a olhou com os olhos rasos de água, se agarrou a Isabel e ambos choraram abraçados e emocionados, ali enfrente a Cristo, aquele altar, como a selar a sua união para sempre, num recomeço das suas vidas.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O tempo que passa

E o tempo que passa, não passa sem deixar marca, corroi-nos por dentro, vinca-nos no rosto o cansaço da vida que avança.... é a lei da vida, mas eles esquecem, que um dia serão assim...para bem deles!
E o tempo mostra a  todos que estamos diferentes, usados, cansados, gordos, pesados, feios, sem graça, e aquela gente passa de lado e nem olha, como se uma cortina densa, uma névoa enorme pesada e baça, encobrisse o nosso lado !

A sala cheia de gente nova, bonita, gente que se agita em frenético movimento, e nós ali parados, estáticos, mudos e quietos, à  espera que o tempo passe, e que alguém dessa gente, por um favor se lembre de nós.
Olhando o vazio, na sala cheia de gente, fugimos com o olhar, porque não se ousa que pensem que se sente, que no meio de tanta gente alguem imagine por um segundo  estamos mal, que procuramos apoio, ou nos sentimos sós. Se a pior solidão é a que se sente no meio da multidão, nós estamos ali mortos mas de pé.

E o pior de tudo é  que isto doi, e mata, e desgasta, e cansa a mente, e envelhece ainda mais, muito mais, faz sofrer e faz chorar a alma da gente.
E nós que somos fracos não resistimos, porque aqueles  amigos e os desconhecidos não se lembram de nós, porque os nossos rostos marcados pelos vincos  da vida são feios, nos isolam daquele mundo que pensa
que vai ficar belo e forte e ileso para sempre ...Coitados que pena !

Nós prometemos não voltar mais a esses lugares onde essa gente usa talas e só olha em frente...


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